O trauma III  - Um ponto final

 

Cris: _ Esta é sua última chance.

Tom: _ Boa noite pra você também...

Cris: _ Ah! Sempre esqueço que você é a formalidade em pessoa.

Tom: _É questão de educação, pelo menos entre os civilizados...

Cris: _ Tá azedo, é? Pede ao garçom mais três caipirinhas que melhora...

Tom: _Azedo nada. Pelo contrário, tô até disposto a dar aula de boas maneiras. Garçom, uma cerveja pra ela, por favor!

Cris: _A cerveja tudo bem, mas não quero aula nenhuma. Só quero aproveitar este encontro casual para lhe dizer que precisamos resolver, ou por um ponto final...

Tom: _Mas antes do ponto final, é bacana dizer bom dia, boa noite, como fazem os franceses... Ah! Que saudade eu tenho de Paris!

Cris: _ Você esteve lá?

Tom: _Várias vezes...

Cris: _ E sem mim... pra piorar, nunca me falou?

Tom: _”Moi... Ne me jugez pas par le moment. Je suis, principalement l’avant et  l’après moi...”  

Cris: _Se me falou foi em francês, ou em russo. Em português você nunca me falou que esteve na França.

Tom: _Há muito mais coisas silenciosas entre mim e você que mal podemos imaginar...

Cris: _É a vida! Mas já vem você com este teatrólogo de nome esquisito...

Tom: _(rindo) Mas quem está dizendo sou eu. Esta é apenas uma frase de efeito minha. Não tem nada de Shakespeare. Mas tudo bem, só queria dizer que você não sabe nada sobre mim.

Cris: _Mas eu sei como você fica piradão na cama!

Tom: _Assim como eu não sei nada sobre você... fora dos lençóis, é o que digo.

Cris: _Ah! Meu caro, de MUÁ, só eu sei. E você nem precisa saber mais do que já sabe.

Tom: _Além dos lençóis, nunca passamos de um caso casual...

Cris: _ Se dependesse de mim, seríamos sempre eternos e perfeitos amantes.

Tom: _Talvez seja por isso que não somos.

Cris: _ Como assim?

Tom: _Os amantes perfeitos precisam muito mais do que sexo. Precisam se amar, para se amar, precisam se conhecer ao máximo.

(continua abaixo)



Escrito por Evandro Alvarenga às 09h09
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O truama III - Um ponto final

(continuação) 

Cris: _Ué, não vai citar o autor da bela frase?

Tom: _Pelo que eu saiba, ninguém nunca escreveu isto.

Cris: _ Puxa! Estou impressionada! Já transei com um poeta e não sab...

Tom: _Ah... E com quem você não transou, afinal?

Cris: _ Também não precisa ofender!

Tom: _Desculpa, não foi esta a intenção.

Cris: _Tudo bem... Até gosto deste seu ciúme.

Tom: _Não tô com ciúme. Nós nem temos mais nada um com o outro.

Cris: _ Mas quando terminamos foi por causa do seu ciúme...

Tom: _Não exatamente! O lance é que nunca achei legal, nem muito higiênico, compartilhar uma mulher com 3, 4... sei lá quantos caras eram...

Cris: _ Mas agora não tenho ninguém.

Tom: _Da minha parte, continuará sem ninguém pelo resto de sua vida.

Cris: _Cara! Não precisa jogar praga...

Tom: _Eu disse, “da minha parte”. Ou seja, comigo não vai rolar mais. Pode colocar seu alvo diante de outra seta. (Ela dá uma gargalhada)

Tom: _Qual a graça?

Cris: _Você é muito sarcástico! Outro cara, certamente diria pra eu apontar minha seta pra outro alvo.

Tom: _É que prefiro fazer uma abordagem mais sexual, que é o seu forte!

Cris: _Hum... Pelo menos isso você reconhece: o meu forte!

Tom: _Nunca neguei, suas qualidades. Aliás, eu já disse que você é sexo, sexo, sexo e uau!... Não tem essa de droga, sexo, muito menos rock in roll...

Cris: _Êpa!

Tom: _Isto é um elogio...

Cris: _Caralho! Mas eu sou muito mais que isso.

Tom: _Comigo, pelo menos, foi bastante, mas foi só isso.

Cris: _Por quê?

Tom: _Não sei. Questão de química, talvez.

Cris: _ Eu sempre te amei muito.

Tom:_ Não confunda amor e sexo!

Cris: _Você tá me deixando traumatizada. Acho que vou procurar um analista.

Tom: _Ué! Você não diz que o traumatizado sou eu?

Cris: _Acho que este mal pega...

Tom:_Êta ferro! Não acredito que você aprendeu isto na faculdade de psicologia...

Cris: _Mas eu nem me formei em psicologia...

Tom: _Nãaaao? Até hoje?

Cris: _Eu mudei de curso, no segundo período. Fui pra matemática. Acho que sou mais exatas...

Tom: _Foi uma pena, na psicologia você teria se conhecido melhor.

Cris: _ Eu já me conheço o bastante.

Tom: _ Moi, ne me jugez pás par le...

Cris: _Você já disse isso... pra que repetir se acha que não vou entender mesmo?

Tom: _Esta sim é uma citação de um poeta, Manoel Affonso de Mello. Quer dizer: “Não me julgue pelo instante. Eu sou principalmente o antes e o depois de mim”.

(cotinua abaixo)



Escrito por Evandro Alvarenga às 09h07
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O trauma III  - Um ponto final

(continuação)

Tom: _Talvez, eu tenha te julgado apenas por momentos... Aliás, nós fizemos isto, um com o outro.

Cris: _Escreve esta frase pra mim? Também em francês...

Tom: _Tá (Escreve em um pequeno bloco que tira do bolso). Pronto, eis a frase...

Cris: _ Muá...  (Antes que ela tente, ele lê junto com ela)

Tom:_ Nê mê jujê pá, par le momán. Jê suí prinspalman laván ê laprê muá.

Cris:_ E sobre nós dois?

Tom:_Não há mais “nós dois”...

Cris: _ É triste, mas...parece que tinha de ser assim...

Tom: _ (Sugerindo um brinde): Aujourd’ hui, ici, un point finale pour nous! Hoje, aqui, um ponto final para nós!    

Cris: _(Brindando): _ Vários anos depois, um ponto para nós...

Tom: _ On point FINALE!

Cris: _É! Um ponto final!

(Bebem e se calam enigmaticamente, por um instante. Levantam-se ao mesmo tempo)

Cris: _ Que merda! (Já saindo)

Tom _ Que bosta! (ele fica de costas pra ela)

Tom: _Maintenant, nous sommes, principalement, l’aprés nous!

Cris: _Isso mesmo: Agora, nós somos principalmente o depois de nós!

Tom: _Uai... Você entende francês? (ainda de costas)

Cris: _Há muito mais coisas silenciosas entre nós, que mal podemos imaginar!

Tom: _ C’est la vie!

Cris: _ É!  A vida...

Tom:_ Então... (pensa em correr ao encontro dela)

Cris:_ ...é um barco de bosta que navega num oceano de urina...  Você dizia: então? (pensando em se virar pra ele)

Tom: _ Então... Garçom a conta! Quase me esqueci... é a vida! (volta pra mesa)

Cris: _Então... Adeus!

Tom: _Adeus... então!

Ela vai embora. Ele deixa o dinheiro na mesa e sai do bar cantando melancolicamente.

Tom: _Adeus ano novo, feliz ano velho, que tudo se finalize no ano que já morreu... Putz... Ô, ô Cris, volt...

Cris: (ela ansiosa reaparece diante dele, sorridente)_Sim...

Tom:_Eu me esqueci de escrever o nome do autor daquela frase, é Manoel Affonso de Mello... (anota e entrega pra ela).

Cris: _Ah! Manoel Affonso de Mello... Foda-se o autor. Foda-se, você, Tom, suas frases e todos os seus autores, imbecis! (ela rasga o papel e sai decepcionada).

Tom: _Caraca! Que tica esquisita... mui esquisita!



Escrito por Evandro Alvarenga às 09h02
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