
José, o jardineiro africano Houve um tempo em que José acreditou, a despeito de sua pele branca e cabelos claros, que seus ancestrais fossem negros e africanos. Sua crença se baseava no fato de que qualquer referência àquele continente – história, gente, costumes, cultura, dores, alegrias – tocava diretamente sua alma. Hoje, José ainda acredita e sente tudo da mesma forma, apesar de ter se distanciado das questões da Mama África. Como um jovem que deixou suas raízes, atraído pelas brilhantes luzes do horizonte, ele ainda tem saudades da negritude que não ostenta na pele. Está agora como um filho pródigo, que só longe da casa do pai, se conscientiza do que ficou para traz, identificando melhor suas origens. José crê também que descende de um jardineiro, que costumes e habilidades específicas lhe foram transmitidos geneticamente. Crê que sua alma é de jardineiro, mesmo não tendo sequer um pequeno canteiro para cultivar, da mesma forma que nunca teve o continente africano sob seus pés. Anseia tanto pela primavera, que parece mesmo um jardineiro diante do canteiro sem rosas. Sabe que as roseiras sofrem com tantos espinhos expostos, sem poder exalar perfume algum e sem as cores maravilhosas de suas pétalas. Outro dia, eu disse a José que o que ele precisa é de uma prévia do verão, para se sentir distante da secura do inverno e não exatamente da estação das flores. José disse, emblematicamente, “pode ser que sim, pode ser que não”. Ele sabe que minha idéia não resolve nem esclarece nada. Continua com o forte desejo de que chegue logo a primavera. Que o clima mude. Que a paisagem seja outra. Que os horizontes tenham permanentemente aquele por do sol, que na África jamais assistiu. Que este velho mundo enfim, dê lugar a um mundo novo, imune a mudanças de estações. E que seja bem melhor do que possa acreditar ser possível... “e será”, diz ele. Algo lhe diz, que não basta cuidar do jardim da sua alma. Mesmo que seus olhos daltônicos nunca tenham visto uma flor com toda suas nuances e exuberância de cores, continua acreditando que sua estação virá. Que ela será uma obra prima, vera, primeira e única. Mas é preciso transcender. Por mais que se pode, se adube, se regue, José não ouve o reggae da estação das flores. Ouve apenas a voz de Tim Maia insistindo que “é primavera!” Como amigo, eu digo a ele que, de fato, desde a noite do dia 22 de setembro já é... Porém, sua africana alma de jardineiro continua sem flores e continua esperando a primaveril aurora transcendente. Alma gêmea de José, eu, enfim o compreendo, sinto que transcender é preciso. Por não ser mais poeta, saio calado sob a chuva, chutando as poças d’água pelas ruas de Bras-ilha, minha “Terra dos Homens”. Aqui, como diria Antoine de Saint-Exupéry todos “esperamos a aurora como um jardineiro espera a primavera.”
Escrito por Evandro Alvarenga às 09h17
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Qenqossô ou Qenqotô? Quando digo que eu sou qualquer coisa, talvez seja por um recurso linguístico apenas, ou falta de costume de usar outro verbo. Digo que sou, contando com a possibilidade de mudar o tempo do verbo para o passado e para o futuro de acordo com a conveniência. Mas será que o eu que fui, é o mesmo que hoje diz “sou”? Será que serei, num futuro mais distante, o que sou hoje? E até quando serei o que sou, ou que fui? Então o que fui, o que sou e o que serei podem ser diversas coisas, mesmo que abrigados no mesmo corpo. A expressão “eu sou” deveria ser usada apenas pelo Deus que segundo o livro de Êxodo se apresentou a Moisés como “eu sou aquele que sou”. Aquele que não sofre mutações nem se submetido às questões do tempo, do espaço, da convivência, da lei de ação e reação. Aquele que não está, não foi nem será, mas é onipresente, onisciente e onipotente. O amigo J. Graças mostra isto nas suas pinturas. Em algumas, através da luminosidade focada, imutavelmente, em um lado das telas, retrata o que sente, e acima de tudo o que vê e sente com os olhos da fé. Em suas telas há um “comando maior”, “um controle absoluto”. Tenho uma na memória, justamente a que ilustra este texto. Nela a fonte oculta em um jarro, aparentemente de barro, enche outros jarros que se transbordam, gerando a cascata, que alimenta o rio. Através desta imagem, encontro o famoso “Eu Sou”, sem limites temporais. Por mais que façamos jarros para guardar água para os dias de seca, ou que organizemos sistemas de distribuição do líquido da vida, não o podemos gerar. Por mais que nos julguemos líderes, reis, maiorais, e mesmo que “estejamos”, não somos, não seremos fonte de vida, nem sequer de garantia de vida. Na verdade não somos nada. Ao contrário dos costumes das instituições, das situações, que criamos para ter a sensação de comando e domínio, nada está absolutamente sob nossa direção absoluta. Qual instituição, religiosa, civil, científica, filosófica ou militar pode garantir qualquer situação, a despeito das intempéries climáticas, das ações de outras instituições e do próprio tempo? Penso que nunca deveria dizer: “eu sou Evandro”, “eu sou saudável”, “eu sou bonito”, “eu sou graduado”, “eu sou rico”, “eu sou chefe” “eu sou dono”... Deveria optar sempre pelo verbo estar, pois eu apenas estou Evandro, saudável, bonito, graduado... Por mais que armazene o que recebi, jamais serei fonte. Estou apenas jarro de barro, que pode se quebrar e portanto nem sei se estarei jarro, talvez, apenas barro ou pó. A fonte é! Quem é, É! O que É, não muda, não deixa de ser. Tal estado não passa. Sei que estou jarro, estou lutando para ter água (ou a vida), herdar a mim mesmo, herdar a terra que sou e que voltarei a ser. Isto, digo que sou: Terra, pó, apenas uma nanopartícula do universo, criação daquele que É tudo e que faz do pó, jarro de carne e osso. Não importa se o coloco no centro, na esquerda, na direita, no alto ou em baixo das telas que pinto com a vida que levo. Ele sim, o “Eu Sou” é eternamente. Por mais que isso me aflija, dele dependo, como dependo dos que estão como eu, partículas felizes ou não, levadas pelo vento da música divina. Escritor, blogueiro, jornalista, funcionário público, ator, encenador, jarro que ainda não se quebrou. Ou melhor, poeira cósmica que ainda não retornou às origens. Como perguntaria o bom mineiro que existe em mim: qenqossô? A questão deveria ser: qenqotô? Pode ser que isso ajude a responder aos amigos que insistem em me perguntar algo que julgo bem complexo como “pronqovô”, na boa intenção de me indicar caminho seguro... Aliás, o que é o caminho se não o ato de caminhar? O que é a segurança senão uma vontade de não ser apenas uma metamorfose ambulante em busca de ser, ao invés de apenas estar? Bem, antes que isto chegue noutra praia, muito além do alcance dos olhos meus, fico por aqui, perguntando diferente, mas ainda sem a resposta para ela: Qenqotô?
Escrito por Evandro Alvarenga às 17h05
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