O Trauma II - Foda-se o rei 

Cris:_Este é o velho Tom de guerra... tão concentrado no meio de uma loja de CDs!

Tom:_Oi Cris! Boa noite! Mas isto aqui também é uma livraria, notou?

Cris:_Eu notei, sim! Aliás, eu noto tudo a minha volta. Ao contrário de você que...

Tom:_Olha eu aí, gente! O tempo passa e eu ainda sou mel na sua boca...

Cris:_Não conseguiu notar que estava sendo observado, seguido há quase uma hora...

Tom:_Sério? Quem afinal me observa com tamanha dedicação?

Cris:_Eu, seu lerdo! Tem mais de uma hora que estou te seguindo aqui nesta... livraria.

Tom:_Mas não tem nem quinze minutos que entrei aqui, só estou dando um tempo até a sessão das nove...

Cris:_Meia hora, uma hora, não importa! O fato é que, é tempo demais pra ficar atrás de você sem ser notada.

Tom:_Mas sinceramente, não te vi. Me desculpa. Estava ouvindo uns CDs...

Cris:_É, só você mesmo, Tom. Mas você ainda compra cd, quando poderia baixar as músicas na internet?

Tom:_Não gosto de pirataria. Além do mais, nada substitui o prazer de pegar o CD, olhar o encarte, as letras das músicas, conferir a ficha técnica...  Olha aqui, você conhece esta cantora, a Camille?

Cris:_Não. Nunca ouvi falar, mas já sei que não gosto dela. Deve ser uma daquelas músicas que só você ouve.

Tom:_Só eu? Quanta honra! Isto quer dizer que fizeram este CD só pra mim???

Cris:_Deixa de ironia... É que são poucas as pessoas que gostam das mesmas músicas que você. Daqui a pouco vai me mostrar um cantor senegalês, um de Honolulu, um tal de Wagner Lee...

Tom:_É Vander Lee...

Cris:_É, sei lá... depois vai falar de tal de Céu...

Tom:_Boa idéia... será que já chegou o cd novo da Céu?

Cris:_Vá você e ela pro inferno...

Tom:_Uau! Que fúria é essa? Já sei, o namorado te abandonou.

Cris:_A fila anda. Mandei ele pastar. Era outro banana, que nem você mesmo!

Tom:_Muito obrigado pela referência fálica... hum...

Cris:_Você é um babaca mesmo! Se acha...

Tom:_O problema é que você não me acha mais, por aí no meio da sua fila, né?

Cris:_Continua aí ouvindo seus cedezinhos vai...

Tom:_Obrigado pela compreensão!

(continua abaixo)



Escrito por Evandro Alvarenga às 15h45
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O Trauma II - Foda-se o rei 

Cris:_Camille!!!  Isto lá é nome de cantora? Parece mais garota de programa...

Tom:_Voltou a falar comigo?

Cris:_Não, tava aqui pensando se você já tem aquele CD do Rei...

Tom:_Do finado rei do pop... “Who’s bad?”

Cris:_Não cara, do único REI...

Tom:_Este eu não conheço!

Cris:_Do Rei Roberto Carlos...

Tom:_kkkkk! Do rei da MPB, Música Popular Breganeja.

Cris:_Da música romântica, poética...

Tom:_Poética???

Cris:_É! Poética, melodiosa, harmoniosa... Escuta! Eu te dou o ingresso e pago o jantar depois, se você for ao show comigo amanhã.

Tom:_Ao show? Que show?

Cris:_Ao maior evento artístico da década! Ao Show dos cinquenta anos do Roberto Carlos.

Tom:_Cinquenta? Mas este cara já deve ter uns 70 ...

Cris:_É Cinquenta anos de carreira!

Tom:_Graaannde bosta!

Cris:_Olha Tom, o jantar depois do show pode ser no lugar que você escolher... do jantar podemos ir...

Tom:_Não vou mesmo! Nem mor-to...

Cris:_Ah! Já sei você tá solteiro de novo... por que não?

Tom:_Já disse: Não vou, neim...

Cris:_Eu já tava desconfiada que você não gosta mais da fruta, mesmo!

Tom:_Dessa fruta insossa e podre você sabe muito bem que nunca gostei, nem um pouquinho.

Cris:_Não era isto que me dizia nas nossas horas calientes...

Tom:_Tá doida? Eu to falando da fruta Roberto Carlos...

Cris:_Mas que falta de respeito, com o Rei...

Tom:_Calma, rei não é Deus!

Cris:_Mas você não pode chamá-lo de fruta, podre...

Tom:_E insossa! E olha que estou sendo carinhoso, por respeito aos idosos...

Cris:_Não vai, nem pela companhia...

Tom:_Não vem, não! Se era isto o que você queria desde que resolveu me seguir, já sabe! Não vou a show  nenhum roberto, nem pra receber um cachê de Um milhão! Vai atrás do banana que você CHUTOU. Ou seria “p” no lugar de “t”. Aposto que ele vai...

Cris:_Foi justamente por isto que eu dispensei o otário!

Tom:_Por causa do “p” no lugar do “t”?

Cris:_Não, cara! Foi por que ele não vai ao show comigo...

Tom:_Aleluia! Quer dizer que nem toda a humanidade tá contaminada com esse mal.

Cris:_Se bem que eu acho que ele vai, só que com a mulher dele...

Tom:_Ih! Então o problema é mesmo uma pandemia! O Ministério da Saúde adverte que o vírus RC, mais conhecido como gripe robertina, já se alastrou por...

Cris:_Não entendo toda a sua aversão ao Roberto Carlos...

Tom:_Deve ser a mistura de tudo... Primeiro por que não gosto desses produtos da indústria cultural que nos são enfiados goela abaixo. Cria-se um conceito, paga-se um pouco pra mídia tocar, depois pra repetir, repetir... Com o tempo melhora-se o conceito: de iê,iê,iê, para jovem-guarda, e mais repetição... Muda-se de novo o conceito, mas o produto é a mesma merda! É como coca-cola, quem consome acredita que é bom e indispensável, nem nota que vicia e mata!

Cris:_Tá bom, não precisa armar o palanque de militante anti Mcdonald e fast-food, não! Já li todos seus panfletos.

Tom:_Cá pra nós, o que o RC canta, um monte de cantores como Waldick Soriano, Odair José, Fernando Mendes, José Augusto, Márcio Greik também cantavam... As músicas que ele canta não são diferentes das que Reginaldo Rossi, Falcão, Wando e o Amado Batista cantam...

Cris:_E daí?

Tom:_E daí que nenhum deles é chamado rei por causa disso. Entende? Cá pra nós, a música romântica do Márcio Greik: “Eu já não consigo mais viver dentro de mim. E viver assim é quase morrer. Venha me dizer sorrindo que você brincou, e que ainda é meu, só meu, o seu amor...” Isto pode ser mais legal que as do Roberto Carlos. Que pra piorar tudo é um chato de galocha, boçal, metido... Irk!

Cris:_ Pera aí, na minha opinião, ele não é nada disso. A vida dele mostra...

Tom:_Aliás, se a vida dele tivesse algo tão bom a mostrar, por que será que ele proibiu a publicação de um livro com sua biografia?

Cris:_Ué, por que era uma biografia falsa?

Tom:_Se uma biografia, com dados históricos, pesquisados, com depoimentos, jornalísticamente correta é uma mentira, é por que a história dele é toda falsa! Mas isto também não me interessa! Ele pode ser e fazer o que quiser...

Cris:_É, “do artista importa-me a sua arte”, não é assim que você diz?

Tom:_Do ar-tis-ta, digo eu! Ou seja, do RC não me interessa nem isso.

(continua abaixo)

 



Escrito por Evandro Alvarenga às 15h42
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O Trauma II - Foda-se o rei

Cris:_Eu sempre achei que você tinha um trauma.

Tom:_Sim eu sei disso! Você sempre me dizia. “Você tem algum trauma com carro”...

Cris:_Agora tenho certeza!

Tom:_Bravo! Madame Freud ataca de novo! Agora com as garras da certeza! Que maravilha! Aposto que vai propor uma terapia sexual, que te inclua, para que eu seja curado!

Cris:_Alguém deve ter invadido sua privacidade, quando você ouvia músicas do Rei, e...

Tom:_Na verdade, o tal RC sempre invadiu a privacidade de todos nós...

Cris:_Isto, desabafa, que é bom!

Tom:_Desde que eu me entendo por gente, ele invade as casas dos brasileiros, todos os anos nas noites de natal...

Cris:_Eu sabia! Foi no natal, o seu trauma!

Tom:_Eu queria ficar acordado para ver o Papai Noel chegar, mas ele invadia o ambiente com aquelas músicas chatas na televisão... “quando eu estou aqui...”

Cris:_Que lindo! To até emocionada!

Tom:_”Eu sinto este momento...” E não tinha sono que resistisse. No dia seguinte continuava com a vontade de ver o papai Noel... Restava esperar para o próximo ano...

Cris:_O novo show do Rei...

Tom:_Restava esperar que seu rei morresse no carnaval, em pleno reinado de Momo e que no próximo natal não invadisse mais minha vida!

Cris:_Mas, pelo lado bom! Vc não teve de descobrir que papai Noel não existe de maneira traumática.

Tom:_O pior trauma é ter de ouvir o que não se quer ouvir durante toda a vida. Tipo este seu papo doutora froidiana de araque.

Cris:_Pensa bem: o que seria do mundo sem o Roberto Carlos?

Tom:_Já pensei! Seria perfeito! Ainda mais, que já conheci o mundo com esta desgraça...

Cris:_Caramba! Isto é... é... é pecado sabia?

Tom:_Pecado? Mas desde quando vc é religiosa?

Cris:_Eu não sou, mas... mas... mas o Rei é.

Tom:_Foda-se o rei!

Cris:_Nossa! A menina ficou nervosa, heim?

Tom:_Ah! Vá se fuder também!

Cris:_Uh! Enfim uma sugestão boa... Vai ser antes ou depois do show do rei?

Tom:_Putz! Já disse: Foda-se o rei! (sai)

Cris:_Ei, espera...  (cantando)  “Não suporto mais, você longe de mim! Só quero que você, me aqueça nesse inverno, e que tudo mais, vá pro inferno! Ô u ô! E que tudo mais...”

Tom: (ele grita de longe)_Vá pro inferno!

Cris:_Meu Deus! Ele sabe a letra da música do Roberto!!! Me espera aí...

(Final) (?)

 

 



Escrito por Evandro Alvarenga às 15h37
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O objeto voador maravilhoso

 

“Mais coisas sobre nós mesmos nos ensina a terra que todos os livros. Porque nos oferece resistência. Ao se medir com um obstáculo o homem aprende a se conhecer...” (Antoine de Saint-Exupéry – Terra dos Homens)

 

José brincava com o aviãozinho de plástico ganhado no último natal. Corria livremente pelo terreiro da fazenda, sustentando o brinquedo acima da cabeça. A todo o momento tinha a sensação de ser observado. Então olhava para a varanda, quase certo de que sua mãe estava lá, mas se enganava.

 

Ao mesmo tempo em que sustentava o avião, fazia barulho com a boca, corria e ainda se imaginava dentro dele. Era o piloto capaz das mais mirabolantes e incríveis manobras aéreas. Descia de bico para o chão, deixando os passageiros em polvorosa... Um barulho estranho o fez olhar para a varanda novamente. Continuava vazia, mas o barulho aumentava.

 

Intrigado viu surgir atrás da montanha que apelidara de Engolidora de Sol, um objeto voador maravilhoso. Vinha poderoso da galáxia sonho, invadindo sua terráquea vida real e perdendo altitude.

 

José torceu para que pousasse ali no terreiro, mas a máquina subiu um pouco mais e foi em outra direção, atraindo o garoto que saiu em disparada. Pulou a cerca de tábua do curral, atravessou a ponte, pela primeira vez sem olhar o ribeirão. Notou que o helicóptero ia pousar próximo da torre de transmissão de energia. Olhou para a varanda da fazenda que continuava vazia. Também já estava muito longe para voltar e pedir permissão.

 

Continuou correndo. Da máquina voadora saíram dois funcionários da central elétrica que já escalavam a torre. Parou a menos de 3 metros do helicóptero, colocou seu aviãozinho sob a camisa. “Não adianta esconder esse avião aí não, eu já vi que você é piloto como eu”. Assustou-se com o terceiro homem, que saía da máquina. Sem nada dizer, José admirava aquela libélula gigante. O tamanho das hélices era incrível!

 

“Então? Gostou?” O piloto provocou. Ele continuava silencioso. “Ah, você não fala...” José apenas riu sem graça. Só queria aproveitar e conferir todos os detalhes. Antes que a máquina maravilhosa voasse novamente. “Você quer dar uma volta?” José olhou para todos os lados, sem acreditar que a pergunta era para ele. “Já sei! Você não merece o céu, pois não tem coragem de voar...”

 

“Eu tenho sim!” José quase gritou. O piloto lhe mostrou os detalhes da cabine, falou sobre a função dos inúmeros relógios no painel. Em pouco tempo o helicóptero balançava como uma bolha de sabão com o menino dentro. Subiu, subiu bem devagar. José estava tão maravilhado que nem atinava que aquilo poderia ser um sonho. Deixou-se ser feliz.

 

Logo estava acima da rede elétrica. Olhou para o outro lado da fazenda. A casa era muito estranha vista de cima e ficava cada vez menor. Surgiam inúmeras outras pequenas casas, a cascalheira e aos poucos a rua do Pito, paralela ao ribeirão Bonsucesso, se perdia entre o verde dos quintais. Nem reconheceu sua deliciosa Escola de Lata, que vista de cima, parecia a carroceria de um caminhão baú qualquer.   

 

“Tá procurando sua casa?” Ouvindo isto, José se lembrou dos pais, dos irmãos, das coisas que deixara em terra. Teve um frio na barriga. E se nunca mais voltasse? A torre da Igreja Matriz de São Miguel e o morro da Caixa d’Água, que sempre foram referências de altitude máxima para ele já se misturavam lá embaixo. Seus olhos lacrimejaram, querendo antecipar toda a saudade que sentiria anos mais tarde.

 

“Agora chega de subir, se não vamos congelar.” O comentário interessou José, que ficou sabendo que, ao contrário do que pensava, quanto mais alto, mais frio. O piloto percebeu que ele era novo demais para se afastar muito de casa e lhe disse para ter calma. “Tenho de voltar para buscar meus amigos que tão concertando a rede, lembra?”

 

José descobriu que existiam muito mais tons de verdes, entre o céu e sua terra, que podia imaginar seu incipiente daltonismo. O que via era a coisa mais bela do mundo. Nem percebeu que o vôo fechava um círculo. Viu uma casinha isolada, entre as montanhas, uma pequena represa ao lado, um campinho de futebol a frente, a rede de energia, uma rua cumprida mais adiante, outro telhado maior, um curral...  “Foi só tirar o pé do chão e já não conhece sua própria casa, rapaz? Agora falta você me dizer seu nome, pra gente pousar.” Ele disse e sorriu ao ouvir que o piloto também era José.

 

A máquina voadora estava ansiosa por tocar o chão e manter-se na leveza do ar ao mesmo tempo. Balançava, baixava e subia, como uma bolha levada pelo vento, prestes a se desfazer, vencida pela atração da terra. Pousou no terreiro onde há menos de meia hora o menino brincava com seu aviãozinho. Na varanda, os pais, boquiabertos, viram o menino sair daquele objeto voador maravilhoso junto com o piloto, que falava como se fosse da família: “Boa tarde! Será que aí tem um café para o anjo forasteiro que levou seu filho para o céu?”



Escrito por Evandro Alvarenga às 10h35
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