
A pródiga musa Já tinha decidido levar minha vida sem ela. Não sei como o faria, mas algo me empurrava para a rua da vida. Algo me dizia para abandonar de vez o cemitério da minha infância e seguir em frente, sem olhar para trás. E foi assim que eu quis botar o pé, pela primeira vez sem meu bloco, na rua. Percebi que não adiantava mais repetir ritos que a fariam voltar para mim. Da mesma forma, senti que ela tinha o direito de viver sem mim, mesmo que eu nunca mais respirasse o doce aroma dos laranjais em flor. Talvez seria para sempre triste ou insossa a minha vida sem ela. Mas não deixaria de ser vida. Foi só botar o pé na rua e ganhar velocidade para não mais pensar nela. Percorri as ruas estreitas de Floripa como se caminhasse nas areias da praia Mole. Corri a Esplanada de Brasília como se subisse o Pelourinho ou as ladeiras Ouro Preto. Os parques de Curitiba passaram diante de meus olhos como as casas da rua do Pito jamais passaram, velozmente. Não vi diferença, nem semelhança entre a Golden, a Hercílio Luz, a JK ou a do Guaíba. Todas eram apenas pontes, sem as rimas do Lenine. Como também eram pontes os troncos que me permitiam atravessar o ribeirão Bonsucesso. E ao final de cada jornada já não sentia vontade de comentar nada, do que vi pelas andanças da vida. Nem me tocava muito com o relato de outros viajantes. Mas não me incomodava com isto. Já vivia minha outra vida, convencido de que jamais convidaria aquela ingrata para entrar sequer na minha varanda. De repente pela janela avistei um vulto, bem longe. Era ela, que me espreitava, pensei. Nunca a varanda da minha casa fora tão grande, nem as escadas tão altas e nunca o jardim da entrada teve uma alameda tão comprida. Eu corria desesperadamente, mas não saía do lugar. Meu olhar se fixara naquele vulto no alto da montanha. Mas meu corpo nunca chegava lá. A terra sob meus pés era firme e suave. Tinha cheiro de terra molhada. A grama era como tiras de veludo. As roseiras haviam soltado algumas pétalas ao vento. Os pássaros cantavam e a brisa suave parecia espalhar no ar uma canção inédita, magistralmente executada por Paulo Moura, Sivuca, Raphael Rabello, Juarez Moreira, Toninho Ferragutti, Dominguinhos, Siba e o albino Hermeto. As árvores ostentavam folhas verdes, do verde mais mutante que um coração daltônico podia imaginar e sentir. Já não precisava retirar os frutos que pendiam dos galhos no caminho para degustar seus sabores. No meio de tudo isso eu pensava em abraçá-la. Em trazê-la de volta o mais rápido possível e na festa que era preciso fazer para comemorar sua chegada. Sim era preciso festejar sua chegada, não falaremos de volta. Não falaremos de caminhadas longas, de espinhos, de dores... Ela é um novo presente que com alegria recebo. O que passou, somente ao passado interessava. E foi assim que a abracei, festejei sua chegada com canções e poesias. Não ousei perguntar como fora sua viagem. Não quis pedir que fosse fiel a mim até que a morte nos separe. Tomei-a nos braços e a coloquei no lugar mais honroso da casa. Dei a ela as vestes mais belas e mais nobres. Depois armei minha rede na varanda, para ouvir as canções que ela trouxera para mim. Ela, que eu imaginava ter ido para sempre, diante de mim cantava novamente, como cantavam as fontes caudalosas que regavam os jardins de todos os poetas mortos. Aos jovens poetas assustados com a repentina perda da inspiração vadia.
Escrito por Evandro Alvarenga às 18h21
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O anjo queimado  “Tratava-se do túmulo de uma menina que morreu queimada”. Foi o comentário que ouvi, diante do anjo de mármore, quando ainda criança, fazia minha primeira visita a uma necrópole. Se o comentário era verdadeiro, nunca soube. Também nunca procurei mais informações sobre a intrigante obra de arte no cemitério de Guanhães em Minas Gerais. Aquela estátua angelical me impressionou muito. Talvez isso tenha acontecido devido à circunstância em que a conheci. Aquele era o meu primeiro contato com a morte. Estava ali para o sepultamento de meu irmãozinho de seis meses. Pode não ter sido por isso, mas a imagem ficou gravada em minha mente como a representação da própria garota, vítima de queimaduras múltiplas. Então, passei boa parte da infância evitando, sempre que possível, brincar com fogo. Demorou um pouco para eu me aventurar na beira do fogão onde minha mãe fazia doces celestiais em tachos enormes. Eu adorava ver as misturas borbulhando. Gostava mais ainda de ser o contemplado, entre a meia dúzia de irmãos, para rapar o tacho. E chegou o dia em que, em tais circunstâncias me esqueci da estátua. O anoitecer na fazenda era para mim uma coisa do outro mundo. As montanhas se derretiam no horizonte, faziam surgir formas inusitadas nas silhuetas das árvores. Algumas eram autênticos monstros, contra os quais era preciso lutar com o apoio de luz de lamparinas e lampiões. Ou seja, o fogo era inevitável e a imagem da menina queimada acabou virando cinza. Enfim, tive coragem de pegar vaga-lumes, colocá-los em vidros e fazer lampiões sem querosene. Tive mais coragem ainda para produzir as fantásticas rodas de fogo, girando buchas de palha de aço incandescente e correndo ensandecido pelo terreiro. Às vezes tinha castigo por produzir tal maravilha. Principalmente quando acabava com o estoque de bombril da dispensa. Nas noites frias da adolescência adorava conversar e ouvir histórias em volta de uma fogueira no canto da rua. Já adulto, ateei fogo em muito papel e creio que até em muitas lembranças, e coisas que nem precisavam ser queimadas. Mas apesar de ter me esquecido do anjo queimado, nunca tive maiores problemas com queimaduras. Espero inclusive que um dia meu corpo seja levado ao crematório de um necrotério, sem qualquer cicatriz de queimadura. Mas qual o motivo de lembrar disso agora? É que, do nada, reencontrei a menina, ou seja, o anjo de mármore do cemitério de minha infância, sem sequer ter ido a Guanhães. Ele está na foto acima! Não se trata mais do túmulo de uma menina, mas de uma belíssima obra de arte, falo da foto agora. Um maravilhoso registro feito pelo fotógrafo* profissional. Ao vê-la na tela do meu computador, chorei copiosamente. Não pela menina, cuja desventura continuo sem saber se era real, nem pelo menino que o tempo vai queimando em mim, mas por constatar, na fotografia, que o garoto Evandro ainda tem minha alma. E que eu ainda tenho medo de perdê-la nas fogueiras da vida. Imagino que seja assim também com você e, a julgar pelos “clics” cheios de vida, também com o artista Alessandro Bastos. *Para conferir a arte fotográfica de Alessandro Bastos acesse: http://mineirin.multiply.com
Escrito por Evandro Alvarenga às 10h30
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O último “Pois no dia em que ocê foi embora, eu fiquei sozinho no mundo, sem ter ninguém, o último homem no dia em que o sol morreu” (Lenine) Outrora a vida se traduzia como massa algo feito de som e de fúria. Agora a vida é apenas um resto, é silêncio, é caos. Mas o que importa? A quem isso interessa, senão a ele, o último? Só a ele, interessa buscar calor, num planeta resfriado. Só a ele interessa buscar luz na escuridão cósmica. Só a ele importa saber que sua nave terra ainda gira. Que seu planeta ainda tateia a Via Láctea buscando alimento energia... A mim, a você, a nenhum de nós, nada mais... Nem mesmo o fato de sermos passado, ou a possibilidade de descobrir, enfim, o que vem depois da morte, nos importa mais. Já não há para quem contar. Já não há com quem dividir a alegria de ter acreditado em algo bem fundamentado. Também não há ninguém a quem culpar por não ter trilhado caminhos outros. Nem sequer, lamento há. Outrora ainda me indisporia até com meu próprio Deus, tentando resolver tudo a meu jeito. Talvez tenhamos mesmo feito isto e chegamos ao fim tentando evitá-lo. Mas isso tudo são águas passadas, são rios que se secaram. Não existem mais! Mas o que se poderia lamentar? O fato de não ter sido o último? Se o sol também morreu, resta ao último homem apenas o desespero de se imaginar isolado, por não se saber, simplesmente, o último. Como chegou a tal situação? Será que disputou espaços com todos os outros seres? Será que aniquilou toda a vida do planeta ou apenas aceitou que os outros se destruíssem? Será que pensa que tudo poderia ser diferente? Mas, já disse: nada disso me interessa. Eu não sou ele. O último é ele. A ele então todas as glórias de ainda restar quando nada mais é. A ele as batatas! Batatas recheadas de lembranças. Do dia em que nasceu. Do dia em que andou. Do dia em que falou e ouviu a primeira canção. Do dia em que conheceu sua alma gêmea. Do dia em que amou de verdade. Do momento em que conheceu a dor, a angústia, o medo. Do dia em que teve medo de ficar só. Só, não precisa mais sentir saudade da solidão. Ela será sua companheira para sempre. A mim, nem sequer me importa a extensão do “para sempre”. Afinal, não sou eu o último homem no dia em que o sol morreu.
Escrito por Evandro Alvarenga às 16h23
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BRASIL, Centro-Oeste, TAGUATINGA, TAGUATINGA SUL, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, French, Arte e cultura, Esportes AIM -
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