A verdade

Ainda menina, muito antes de descobrir que tinha o mesmo nome de uma flor tão bela quanto rara, que floresce milagrosamente entre as rochas geladas dos Alpes, Edelweis tinha uma atração enorme pelas plantas. Adorava se debruçar sobre o peitoril da varanda da casa na fazenda onde nascera, para admirar as árvores no alto da montanha distante, que em contraste com o céu azul, formavam as mais diversas formas.

A verdade é que aquelas árvores mandavam mensagens preciosas para a alma da menina, hoje mulher, mãe e avó, mas sempre menina. Ela nunca contou para ninguém, mas eu descobri que aquelas árvores lhe ensinaram a não se preocupar com o tempo, essa coisa imbecil que os homens inventaram.

Vivendo na fazenda, ela aprendeu a ler numa escola rural. Rapidamente se apaixonou pela leitura. Num belo dia de sol, ela fazia seu dever de casa quando ouviu um chamado. Correu à janela. Olhou o abacateiro que ficava bem ao lado do pequeno riacho. Sairia em disparada ao encontro dele se a mãe não lhe dissesse que primeiro tinha de estudar a lição para a prova do dia seguinte.

Edelweis não conseguia resistir ao chamado do abacateiro. Pegou o livro e saiu lendo, caminhando lentamente. Nem notou a cadela Leda fazendo festa para a dona que chegava ao quintal. As galinhas que corriam e cacarejavam não tiveram a menor chance com ela, naquele momento. Só tirou os olhos da leitura quando ficou a menos de um palmo do tronco do abacateiro.

Não sei ao certo, se a árvore era muito grande, ou se ela era muito pequena. Mas acredito que eram os dois bem opostos em suas dimensões. Rapidamente ela subiu no abacateiro. Lá no alto, acomodou-se no galho, que já era o seu cantinho. Bem confortável, conversou um pouco o abacateiro. Depois, abriu o livro e em voz baixa leu para ele. Queria ensinar a ele tudo o que ela precisava saber para a prova.

Sentia-se tão bem, que não viu o tempo passar. Na verdade, ela já não fazia muito caso do tempo. Adormeceu ali. Ela nunca falou para ninguém que enquanto dormia foi alimentada com a seiva da árvore amiga. Nunca comentou nada sobre as maravilhas que descobriu naquele dia. Mas ninguém entenderia mesmo...

Ao ouvir seu nome gritado e a cadela Leda latindo desesperadamente, acordou e antes que se lembrasse onde estava e o que era, fez um teste forçado da força da gravidade terrestre. Por sorte, seu corpo caiu no pequeno riacho. Fora o susto, e fora o trabalho que teve para secar o livro, ficou tudo bem.

Edelweis já era professora quando a ouvi falar, sobre a queda do abacateiro. Mas sua narrativa era focada no fato de ter muita facilidade para dormir. Segundo ela, já dormira até na apavorante cadeira do dentista.

Eu, precisava  ouvir outra fonte. Mais exatamente, o abacateiro do qual ela caiu. Demorou, mas consegui encontrá-lo. Ao invés de me contar a história de Edelweis, do seu ponto de vista, ele preferiu contar-me sua própria história, pela qual, aliás, o editor não se interessou.

Em resumo, o abacateiro disse-me que ali, ao lado do pequeno riacho, deu muitos frutos, acolheu muitas famílias sob sua sombra, foi desfolhado, podado várias vezes. Mas nunca precisou lutar contra o tempo. Sabia que há espaço para todas as coisas debaixo do céu: para saúde, para dor, para alegria, para tristeza, para florescer, dar frutos... “Minhas raízes sempre conseguiram alimento e água fresca, nesta terra que é de todos. Sempre tive chuva, sol, inverno, verão... tudo em seu tempo,” comentou o abacateiro.

Insisti que me falasse sobre a menina Edelweis. Que minha matéria era outra. Precisava saber como ela caiu de tão alto sem se machucar. Ele resistiu um pouco, depois comentou que naquele dia a menina estava aprendendo a ser árvore. Como era pequenina, primeiro aprendia a ser folha. Durante a aula prática, ela se assustou com alguma coisa e se desprendeu do galho. “Mas ela não caiu, como as pessoas e as coisas caem. Ela foi levada pelo vento até o riacho como as outras folhas fazem quando se vão”, acrescentou.

Depois o abacateiro me contou inúmeras histórias daquele quintal, das aves que fizeram ninho em seus galhos, sobre a natureza e até sobre a fantástica fase em que terra era forma e vazia. Mas pediu off. Na verdade ele sabia que os editores dos jornais, não se interessam mais por nada que não pareça bélico ou capitalista. Tentando traçar um perfil do abacateiro, perguntei se ele tinha medo de ser atingido pela queda de um avião como aquele da TAM. Ele me disse que nada que voa causa medo às árvores.

Indaguei se ele tinha confiança nas autoridades do país, ele respondeu com a pergunta: “eram as autoridades aviões?” Eu quis saber se ele conhecia um avião. Ele me contou a verdade sobre o trágico acidente que me intrigava, através de outra história, que pediu para não ser publicada. Eu prometi que nada escreveria sobre a verdade. Preferi não abandonar a ética por um furo no jornalismo sensacionalista.

Mas quem ficar muito curioso que vá procurá-lo. Não é da natureza dos abacateiros ou de árvore recusar-se a falar a verdade, ou a ouvir quem quer que seja. O escritor José Mauro de Vasconcelos descobriu isso em seu “Pé de Laranja Lima”. Quem não se interessa pelo que uma reles árvore pode lhe dizer, não precisa de verdade alguma.

“As árvores são sagradas. Quem sabe ouví-las descobre a verdade.” (Hermann Hesse)



Escrito por Evandro Alvarenga às 18h20
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                                                     O bilhete

 

José passava em frente de uma casa lotérica, quando num impulso estranho entrou na pequena loja. Leu um cartaz que anunciava 18 milhões para o ganhador da mega-sena. Sem perguntar nada para ninguém pegou uma cartela e marcou cinco números. Aí teve dúvida. Conferiu com a moça do caixa quantos números deviam ser marcados numa aposta simples. 

Marcou os seis números sem fazer qualquer ligação com datas, idades, ou sem pensar em seqüência de pares e ímpares. Olhando o quadro com os sessenta números, fez o seu jogo optando pela marcação como um teleguiado. Depois registrou a aposta, pagou e saiu com o bilhete na mão.

Até o centro de Taguatinga, dois minutos de caminhada, não pensara em nada de interessante. Também não tentou descobrir qual o motivo de seu súbito interesse por jogos daquele tipo. Mal chegou ao ponto e viu seu ônibus parando. “Acho que hoje é meu dia!” Entrou no lotação, feliz, pois aquilo nunca acontecera com ele. Sempre que usava a linha Taguatinga/Rodoviária Plano Piloto, aos sábados à tarde, esperava no mínimo uns vinte minutos na parada. “Será que alguma nova política de transporte público já foi aplicada no Distrito Federal e eu não sei?” Ironizou José.

Deixou a ironia de lado. Pagou os três reais pela passagem, sem pensar no abuso que era tal valor, comparado aos preços e à qualidade do serviço de qualquer grande cidade brasileira. Acomodou-se num dos poucos lugares disponíveis. Logo na arrancada, o veículo fez um barulho enorme. Ele então constatou que continua tudo velho e estragado no transporte público do DF e que vai levar muito tempo para algum governador conseguir limpar a porcaria que o ex-governador Roriz, em seus três mandatos, fez na Capital Federal planejada por Lúcio Costa, para materializar um sonho de Dom Bosco.

A rapidez do ônibus, era mesmo uma coincidência. Só isso. Pouco depois, tirou o bilhete da loteria do bolso da calça. Resolveu guardá-lo num lugar mais seguro. “Já pensou se ganho e perco o bilhete?” Pensando assim, colocava o bilhete num bolso interno da jaqueta que carregava na mão, quando um rapaz apressado deu-lhe um esbarrão. José ficou irritado com o susto. Nem notou que o rapaz estava passando mal.

Horas depois, saindo do Teatro Dulcina, rumo à Rodoviária, ainda com cenas do espetáculo assistido na cabeça, lembrou-se do bilhete. Não o encontrou na jaqueta. “Aquele filho da puta me esbarrou e ainda roubou...” Não conseguiu se lembrar de palavrões suficientes para o cara que levara sua sorte.

Imaginou o anúncio de que o prêmio da mega-sena saiu para um apostador de Brasília. Desesperado, procurou o bilhete, como quem acaba de perder a carteira com todos os documentos. Checou na carteira, nos bolsos da calça, da camisa e nada. Olhou novamente nos bolsos da jaqueta e aliviado encontrou a cartela, bem dobradinha entre o bolso furado e o forro do agasalho.

Guardando o bilhete em lugar mais seguro, teve medo de assalto, coisa com a qual nunca se preocupara. Sempre andou sem tal preocupação pelas ruas de qualquer cidade que passava, seja Guanhães, Belo Horizonte, Florianópolis, São Paulo ou Rio de Janeiro. Mas agora ele carregava a esperança de ficar milionário sem fazer força. “Ninguém vai levar de mim o meu prêmio”. Para ele os sinais, ou o comportamento repentino daquele dia eram o prenúncio da premiação.

Chegou em casa cansado de se esquivar de pessoas “estranhas” e de usar caminhos mais longos, evitando ruas repentinamente “suspeitas” para ele. Também estava apressado e assustado. Quase neurótico, com o cuidado de proteger sua fortuna. Já era tarde, o sorteio já deveria ter acontecido. Ligou o rádio, buscando notícias. Até que ouviu um locutor anunciando o resultado.

Anotou os números sorteados. Antes de conferir o seu bilhete, agradeceu a Deus por ter chegado em casa a salvo e por ter protegido a sua sorte naquele dia. O agradecimento, no entanto, era uma espécie de pedido disfarçado. Era como uma criança levada, tentando provar para o Papai Noel que se comparara muito bem durante o ano.

O primeiro número sorteado estava em sua cartela, o segundo também... E foi só. Os outros quatro números do sorteio, nem sequer se aproximavam dos que ele marcara. José ficou imóvel no sofá por algum tempo, como quem recebe uma notícia trágica, sem poder reagir. Depois procurou um livro e foi ler...

Precisava encontrar alento nos braços da literatura. Não se tratava de consolo pelo prêmio não ganhado, mas para o que acabara de sentir. Precisava de alento contra o medo - o perigo que ameaça a humanidade. O perigo de perder o firme fundamento das coisas que se esperam. O medo de que nos subtraiam a esperança e tudo aquilo que usamos como símbolos dela.

José guardou o bilhete não premiado para se lembrar de que nem todos os caminhos levam a Roma. Ele precisava, no entanto, manter a certeza de que algum guarda-roupa poderia levá-lo a Nárnia. Mesmo sabendo que para tal caminho não há pistas palpáveis, só um elo invisível, improvável, e sem qualquer explicação científica ou prognósticos numéricos.



Escrito por Evandro Alvarenga às 19h01
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Os pés da passageira

Ao contrário do que muitas mulheres pensam, nem todo homem gosta de vê-las sobre sandálias ou sapatos de saltos absurdamente altos. Eu, particularmente acho tal modismo uma asneira que nada acrescenta à beleza feminina, muito pelo contrário.

Mas vamos ao fato desta crônica. Saindo do trabalho depois das 21 horas na sexta-feira agitada como todos os dias daquela semana, peguei o metrô quase vazio. Senti que no final de semana nem precisaria praticar o que o escritor João Ubaldo Ribeiro em seu espaço especial no jornal O Globo deste oito de julho, chamou de “ralaxogozismo”.

A música altíssima que ouvia no tocador de mp3 me afastava um pouco da realidade. Afinal quem precisaria dela numa hora daquelas? Além do mais, sou partidário da idéia que se a música é boa deve ser ouvida a todo volume. Foi ouvindo o filho do Bob Dylan cantando “Josephine” que me acomodei no fundo do vagão. Tão logo sentei, preguei os olhos nos pés da passageira, acomodada na cadeira de frente para mim. Falo logo dos pés, pois as sandálias de saltos finos e altíssimos não me interessaram como era de se esperar, por mais bonitas que fossem.

Eram pés muito sensuais, mas pareciam pés cansados, como são os pés das mulheres que amam errado um cafajeste atrás do outro. Os dedos longos tinham unhas bem cuidadas, pintadas com esmalte de uma cor quente, “muy caliente”, aliás. Cada unha tinha o desenho de uma minúscula flor, uma espécie de miosótis. Sempre encarando aqueles pés, eu sorri levemente. Os dedos fizeram delicados movimentos.

 “Você vai me destruir, como uma faca cortando as etapas, furando ao redor...” É o que eu ouvia na voz de Vanessa da Mata, quando percebi que os pés tinham se cruzado. Naquela posição os dedos se tocavam quase se entrelaçando. Pareciam pés de uma criança feliz, contando uma história de faz de conta para os amiguinhos.

Pouco depois os pés se balançavam nervosos, como se sentissem medo. Tinham medo da dor que a agulha poderia lhes causar. Mas foram corajosos, enfrentaram o medo e se entregaram. Logo, logo a mãe da menina mostraria a ela o bichinho chato que a incomodava desde a noite passada. Aliviados os pés prometeram que nunca mais se aventurariam descalços pelos quintais da vida.

Mas não eram pés de uma criança. Nem tinha reparado que as sandálias estavam debaixo do banco, agora. Os pés estavam um pouco mais livres, mas continuavam cansados. Praticavam uma espécie de alongamento e acariciavam o piso frisado do metrô. Desejavam uma bacia de água quente com um pouco de sal. Tenho quase certeza que desejavam também ser lavados pelas mãos carinhosas de alguém.

Pareciam os pés de Das Dores, a sambista de um conto publicado pelo Sinergia, em Santa Catarina, já sem as sandálias de sua patroa. Pés de alguém que já andou demais pelo mundo em busca de utopia. De quem intuitivamente sabe que é preciso muita utopia para continuar buscando a tal felicidade que “bate à porta e ainda ri de mim...” como diz a canção que acabara de ouvir.

Os pés pareciam implorar carinho. Dançavam como os sofridos pés das bailarinas, que sabem que se não dançarem, se afogam na realidade, perdem a graça e morrem, sem sequer ter conhecido o céu de um aplauso. Devo confessar que chorei, sem conseguir tirar os olhos daqueles pés. Na verdade, chorei, quando percebi que, rapidamente, se enfiaram na sandália esquisita e já estavam prontos para sair. Não pude deixar que se fossem, assim. Com minhas mãos trêmulas, toquei neles, pedi para me darem uma chance, por favor.

Agarrado a eles eu cantei: “Vem juntar seu calor ao meu! Não te quero ter só nos finais de semana. Os meus dias de feira também são seus... É pra janela de seu olhar, que meu destino aponta... Vem... põe um moletom prova minha companhia... colore meu dia...”

Mas a dona dos pés não gostou da minha interpretação da música de Vander Lee. Deu-me um violento tapa na cara e gritando “tarado”, saiu do Metrô. Uma parada além, uma voz solicitou “a todos os usuários que desembarquem.” Eu, desiludido, obedeci. Relaxei e fui para casa relaxar mais ainda.

Como João Ubaldo, eu também sinto que para nós pobres imbecis sonhadores que vemos coisas belas e estranhas em todas as partes, só nos cabe a primeira parte do “relaxogozismo” proposto recentemente pela ministra do Turismo, afinal ainda não sabemos, sequer, como ficam os pés dos passageiros num avião.

Cheguei em casa, sonhando em colocar os meus pés na “praia do mar”, naquela praia do Madredeus, do Além Tejo, segurando as mãos de Teresa Salgueiro, a dona da incrível voz  que ouvi até dormir.

Esta crônica é dedicada ao meu amigo Beto Guimarães do MST e sua busca incansável... Também ao Wilson Gonçalves, que continua batalhando o conhecimento das coisas... a todos os pés doloridos e insistentes... e em especial, a você que me honra com sua leitura.



Escrito por Evandro Alvarenga às 18h44
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