Des@mares

 

Sei que já é noite

Mas nada posso fazer

Se um daltônico sol marrom

Insiste em queimar e fazer cinzas

De tudo que existe em min(as)

Sinto que o que era incerto em mim

Já se queimou na quarta-feira

Mas nada posso fazer

Se meu sangue é vermelho quando o quero azul

Se minha pele é branca quando a quero negra

Se meu olho é amarelo quanto o quero verde

Para verdejar a colina gelada

E desaguar des@amores, cibernéticos dissabores

 



Escrito por Evandro Alvarenga às 21h30
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Brasileiros terão nova arma na luta contra corrupção

Sancionada pela Presidenta Dilma Roussef em novembro/2011 a lei 12.527 entre em vigor no próximo dia 16 definindo como regra o acesso e deixando o sigilo na exceção

No próximo dia 16 de maio entrará em vigor a chamada Lei de Acesso à Informação – LAI. Com ela o Brasil dará mais um importante passo para a consolidação do seu regime democrático, ampliando a participação cidadã. Com ela o país fortalecerá os instrumentos de controle da gestão pública.

Com a Lei 12.527 sancionada em 18/11/2011 o Brasil regulamenta, enfim, a Constituição Federal de 1988. Garantindo ao cidadão o exercício de seu direito de acesso à informação, o país cumpre também compromissos assumidos perante organismos da comunidade internacional como ONU e OEA, em vários tratados e convenções. Dentre eles o Tratado das Nações Unidas contra a corrupção que pede medidas para aumentar a transparência nas administrações públicas.

Até agora o artigo 5º, inciso XXXIII determinava que “todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestados no prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado”.  Mas como não existia a LAI, não havia regulamentação e assim, sucessivamente os governos mantinham a cultura do segredo, vivenciada antes da nova Constituição. A gestão pública, pautada pelo princípio de que a circulação de informações representava riscos, mantinha e até criava novos obstáculos para que as informações fossem disponibilizadas.

Com a Lei de Acesso os agentes públicos são levados a tomar consciência de que a informação pública pertence ao cidadão e cabe ao Estado provê-la de forma tempestiva, compreensível e atender com eficácia às demandas da sociedade. A cultura de acesso formará um círculo virtuoso, pois a demanda do cidadão passa a ser vista como legítima; o cidadão pode solicitar a informação pública sem necessidade de justificativa; criará canais eficientes de comunicação entre governo e sociedade, com regras claras e procedimentos para a gestão das informações. Além disso, os servidores serão permanentemente capacitados para atuarem na implementação da política de acesso à informação.

A partir do dia 16 de maio, todo órgão público de todos os poderes (executivo, legislativo e judiciário) e entes federativos (União, Estados e Municípios – exceto os que tenham menos de 10 mil habitantes) serão obrigados a manter um SIC - Serviço de Informações ao Cidadão. Esse SIC deverá atender imediatamente o pedido de informações de quem quer que seja, sem pedir a justificativa do pedido. Caso a informação solicitada ainda não esteja disponível o atendimento deverá acontecer no prazo de 20 dias, prorrogáveis por mais 10 dias, com devidas explicações ao solicitante. Além de um balcão para atendimento presencial em todos os órgãos públicos, a população terá o SIC eletrônico pelo qual poderá fazer seus pedidos.

Todos os órgãos públicos deverão manter um sítio na internet que deverá disponibilizar proativamente um mínimo de dez ítens com informações que resumam as atividades do órgão. Deverão estar no "site" das entidades públicas detalhes como o nome de todos seus servidores e funcionários terceirizados, a agenda dos seus dirigentes máximos, os gastos da entidade, seus contratos, convênios e licitações. Essas informações serão centralizadas em um menu identificado por baner e link com o nome "acesso à informação".

Um exemplo - Se alguém quiser saber o quanto um determinado servidor (prefeito, governador, ministro ou outro) recebeu num determinado mês com diárias de passagens, para onde ele viajou e com que objetivo, poderá fazê-lo até sem perguntar. Tais informações serão obrigatórias para todas as entidades no link obrigatório. Isto valerá também para organizações não governamentais (ONGs) e outras entidades que recebem recursos federais, como hospitais e fundações.

As exceções agora serão informações sigilosas, sob guarda do Estado que dizem respeito à intimidade, honra e imagem das pessoas. Essas ficam protegidas por um prazo de cem anos e só podem ser acessadas pelos próprios indivíduos e, por terceiros, em casos excepcionais previstos na Lei, como o caso de investigações e procedimentos judiciais. As outras informações que são classificadas como sigilosas, são as consideradas imprescindíveis à segurança, à vida e à saúde da população, ou do Estado (soberania nacional, relações internacionais, atividades de inteligência). Essas serão classificadas em três níveis: Ultassecreta – com prazo de 25 anos, renováveis por uma única vez; Secreta, com prazo de 15 anos, sem renovação e a Reservada, durante de 5 anos, também sem renovação.

Além disso, as autoridades da administração pública autorizadas a determinar essa classificação deverão reavaliá-la periodicamente. E quando isso não ocorrer o sigilo cairá, deixando as informações disponíveis. Assim, tudo que não for classificado como sigiloso, com sua devida justificativa, será, automaticamente,  de acesso livre.

No âmbito do Governo Federal, a iniciativa começou a ser implantada em 2004, como o portal  www.transparencia.gov.br, levando todos os órgãos a disponibilizar em seus endereços eletrônicos informações sobre suas ações. Com esta orientação e seguindo os treinamentos oferecidos pela CGU - Controladoria Geral da União, alguns órgãos como a ANTT, o DNIT e outros já disponibilizaram em seus “sites” o "Acesso à Informação", mesmo da vigência da lei. É uma forma de se adaptarem ao novo paradigma. Neles os brasileiros já podem usufruir de informações governamentais que nunca ficavam disponíveis e até eram negadas sob qualquer pretexto.

Em outros países da América Latina como Chile e Uruguai, que já criaram suas leis de acesso a informação, o serviço é mais demandado por cidadãos de elevado grau de instrução. No Brasil, espera-se que todo brasileiro conheça a nova lei e use seu direito. Conhecer as ações das gestões públicas é um forte instrumento para que a sociedade consiga se prevenir contra a corrupção.

Exemplo guanhanense - Se um cidadão em Guanhães, quiser saber do Ministério da Cultura, qual o motivo da falta de repasse de dinheiro para que a Prefeitura possa tocar as obras do Espaço Mais Cultura, mediante convênio assinado com o Governo Federal, será atendido sem restrições. Se esse mesmo cidadão descobrir que há uma pendência fiscal na Prefeitura ou na Câmara de Vereadores, relativa ao mesmo convênio terá direito a ter acesso a tais documentos, seja com cópias ou em formato eletrônico. Há vários dias o “Movimento Quero um Auditório em Guanhães” tenta desvendar o assunto do Convênio entre a Prefeitura e o MC, mas não recebe resposta sobre a pendência existente nos relatórios de cumprimento da lei de responsabilidade fiscal, junto ao Legislativo guanhanense. Com a nova lei, o silêncio do órgão público será punido.

Para manter-se atualizado e conhecer mais sobre a LAI, preparando-se para usar esta poderosa arma na prevenção da corrupção acesse o site http://www.cgu.gov.br/acessoainformacaogov.



Escrito por Evandro Alvarenga às 13h43
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Enquanto Ministério vai inaugurando Espaços Culturais pelo Brasil guanhanenses apenas sonham

Falta de transparência barra construção de Espaço Cultural em Guanhães

 

Prefeitura diz ter se regularizado, mas o Ministério da Cultura não pode liberar verba por causa de erro em documento da Câmara de Vereadores

 

O prazo de um ano do convênio entre o Município de Guanhães e o Ministério que objetiva a construção do Espaço Mais Cultura na cidade continua correndo. Ele tem validade até o mês de dezembro/2012, mas até agora nem sinal da obra tão aguardada, principalmente, pelos artistas da cidade.

O prefeito Oswaldo de Castro já comentou que só começará a construção, quando o Ministério da Cultura liberar os R$ 450 mil da parte federal no convênio. Ele não dará início ao processo licitatório, nem sequer se dispõe a usar a contrapartida municipal no acordo, que é de R$ 112 mil, para iniciar as obras. Há um mês o prefeito nos informou por meio de sua assessoria de comunicação a Prefeitura tinha resolvido a pendência fiscal no CAUC – Cadastro Único de Convênios e que só aguardada a liberação do Ministério.

Mas em consultas diárias ao Cadastro Único de Convênios – o que todo cidadão pode fazer (confira link abaixo), verificamos que Guanhães continua com as duas pendências apresentadas no mês passado. Elas aparecem no item III, referente aos relatórios de Gestão Fiscal (RGF) e o Resumido de Execução Orçamentária (RREO), de acordo com a periodicidade exigida pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Isto quer dizer que Governo Federal continua impedido de repassar a verba ao município.

Procuramos mais uma vez a secretaria de Administração da Prefeitura que nos informou que a regularização do CAUC foi mesmo providenciada no dia 21/03/2012, data do protocolo de recebimento pela Caixa Econômica Federal. “Mas dependemos também da regularização por parte do Poder Legislativo” acrescentou em nota. Baseada em informações da GIDUR (Gerência Regional da Caixa) em Governador Valadares, o texto da Secretaria diz que a Legislativo guananhense “enviou as declarações incorretas, portanto o Município aguarda a Câmara de Guanhães para este objetivo” , diz o texto.

A nota da Prefeitura acrescenta que “a forma de regularização do CAUC mudou este ano, é necessário enviar as declarações de publicação do Relatório de Gestão Fiscal, Declaração de Atendimento aos Limites dispostos na Lei de Responsabilidade Fiscal, Declaração de Publicação do Relatório Resumido da Execução Orçamentária referente ao segundo semestre do ano de 2011 e Declaração do Exercício da Plena Competência Tributária, comprovante de envio para o Tribunal de Contas do Estado comprovante do AR pelo correio ao Tribunal de Contas e as mesmas declarações para a GIDUR”.

Há uma semana enviamos, por e-mail, a informação recebida da Prefeitura para a Câmara de Guanhães.  Também pedimos respostas para as seguintes questões: As declarações enviadas incorretamente já foram corrigidas?  Quando a correção foi protocolada? Caso isto não tenha ocorrido, há previsão para fazê-lo? A Câmara sabia que isto está prejudicando o município, e atrasando a construção de um Espaço esperado pelos guanhanenses e principalmente pelos artistas locais? Porque isto ocorreu? Foi uma simples confusão, ou falha na contabilidade?  Alguém será responsabilizado pelo atraso?

Mas até agora não conseguimos resposta, mesmo tendo falado por telefone com o presidente da casa, vereador Lucimar Pinto e com o vereador Evandro Lott. Também na semana passada o vereador Serginho Figueiredo disse na comunidade “Movimento Quero um Auditório em Guanhães” no facebook que tinha tomado conhecimento da demanda. Mas o silêncio daquela casa de legisladores continua.

Para lamento geral dos artistas regionais e do povo guanhanense, o silêncio dos pedreiros e mestres de obras na rua Josefina Gomes Pimentel - na subida do bairro Recanto da Serra vai durar ainda mais. Seria tudo isso, um movimento estratégico para evitar que a sonhada obra se faça por mãos de “contrários”? Seriam os contrários, os situacionistas e os outros, minério do mesmo quilate?

O fato é que todos eles, sejam do executivo ou legislativo, parecem incapazes de avaliar o quanto toda a região está perdendo com tamanha inércia. Todos seguem desperdiçando a melhor chance de construir o primeiro teatro no município e coroar os esforços de gente, como da jornalista Dyanne Timóteo que nos incluiu no concorrido edital do Ministério da Cultura, no ano de 2010.

 



Escrito por Evandro Alvarenga às 21h24
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OS MANDAMENTOS DO FICHA LIMPA

Nas eleições municipais deste ano, o bicho vai pegar. Para a coisa funcionar, nos termos da novidade lei da ficha limpa, sugiro que políticos e eleitores sejamos todos "ficha limpa". Esses mandamentos são uma base para que, com liberdade e democracia, ninguém fuja da raia do compromisso com a ética, moral e bons costumes.

MANDAMENTOS DO POLÍTICO FICHA LIMPA

Amar a cidade e seu povo antes de todas as coisas - quem ama cuida e atua com justiça;

Não usar o nome do eleitor em vão e ter atestado de bons antecedentes;

Guardar o patrimônio natural, histórico e cultural contra todos os males;

Honrar a população, ouvindo-a e prestando bons serviços de educação, saúde, segurança, infraesturura e lazer;

Não matar trabalho nem o direito dos trabalhadores;

Não pecar contra a honestidade, a Constituição Federal, as leis municipais e os direitos universais da humanidade;

Não roubar e fazer tudo sem desviar, sem se apropriar e sem desperdiçar o dinheiro dos cofres públicos;

Não levantar falso testemunho contra seus concorrentes em campanha;

Não desejar a cadeira do próximo, não nomear nem indicar seus parentes para elas;

10º Não cobiçar os bens alheios nem os públicos e ser transparente em seus atos administrativos.

 Quem não segue os mandamentos,meu voto não receberá!

(continua)



Escrito por Evandro Alvarenga às 12h45
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OS MANDAMENTOS DO FICHA LIMPA (2ª parte) 

MANDAMENTOS DO ELEITOR FICHA LIMPA

1º Amar a cidade e a si mesmo - quem ama cuida, vive sem corrupção e não vota em suspeitos;

2º Não usar o seu título de eleitor em vão e só votar em candidato de caráter ilibado, capaz e de bons antecedentes;

3º Guardar o patrimônio natural, histórico e cultural, cobrando propostas e exigindo ações de candidatos e eleitos;

4º Honrar os concidadãos e os eleitos, fiscalizando, acompanhando e participando das decisões dos governantes;

5º Não matar seu direito de votar, e só votar pensando no bem comum, depois de analisar todas as fichas e propostas;

6º Não pecar contra a honestidade, não vender seu voto nem trocá-lo por quaisquer favores ou benefícios pessoais;

7º Não roubar, não se apropriar, não desviar, nem forçar o voto de ninguém;

8º Não levantar falso testemunho nem em campanha, nem para conseguir benefícios em órgãos públicos;

9º Não desejar a cadeira do próximo, nem tomar o lugar de quem chegou antes nas filas – isso já é corrupção;

10º Não cobiçar os cargos alheios, nem aceitar promessas de cargos feitas por qualquer candidato.

O eleitor ficha limpa ajuda a limpar a cidade!

 



Escrito por Evandro Alvarenga às 12h34
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Um barraco barroco para Juarez Moreira*

 

Uma vez, em um poema dolorido de saudade, escrito num solitário inverno de Santa Catarina, mencionei os “barracos barrocos de Guanhães”. Creio que nunca mais usei esta expressão. Nem sequer tentei explicá-la. Talvez ela permaneça mesmo como simples palavra solta ao vento sul.

Mas por que mesmo me lembrei dela? Ah! É que ouvindo hoje um antigo disco do instrumentista guanhanense Juarez Moreira, pensei na terrinha e tal expressão me surgiu como a água que brota de novo na serra cumprindo seu ciclo. Reparei que não sabia o nome da música, uma das minhas preferidas, que me trouxe tal lembrança. A curiosidade tardia me revelou: ela é a quinta faixa do disco “Bom Dia”, entitulada “Baião Barroco”... Aí, o lé chegou no cré...

Será que ao compor tal música, o filho do "goleiro Rivadávia" (conforme o saudoso Roberto Drummond) pensava na sua já quase sesquicentenária cidade natal? Pelo ritmo, acredito que não. Mas para mim, ela foi e continuará sendo fruto da saudade dos nossos barracos barrocos.

Alguém me disse certa vez que o poema escrito é como filho parido, por mais traços que tenha da mãe, nunca será ela. Ou seja, o que o artista cria (guardada a propriedade intelectual) passa ser de todo aquele que foi tocado pela arte produzida.

Também não sei se alguém mais sente o mesmo que eu ao ouvir tal música. O que eu sinto? Uma doce lembrança da infância. Uma vontade doída de ir para qualquer lugar, sempre pela rua do Pito, de conversar com a Mulatinha (agora no Asilo), de correr para o futuro com a Terra Guanahan do Vander Santana.

Sinto fome e sede de nossa estrada/história real e ânsia de vômito por tanta história imposta, por tanta injustiça engolida com elas. Sinto vontade de rezar na Igreja Matriz de São Miguel e Almas e de me acabar nos bailes da União Operária. Saudade de uma “princesinha” dita do nordeste, que na verdade está no centro-leste de Minas Gerais.

Sinto na pele a delícia da neblina do inverno guanhanense e a poeira cósmica que polui terrenos desmatados pela ganância. Sinto medo de que minha terra natal seja enfim, apenas um meio para a evolução financeira da espécie de gente que nela manda. Fico dividido entre o céu da pedra da Gafurina e o inferno do Graipu poluído estancado sem poder chegar no mar.

Ouço o Baião Barroco do Juarez Moreira e sinto vontade de entrar na simplicidade acolhedora dos barracos do Alvorada, do Vermelho, do Pito, do Aod Pereira... Mas sinto, ao mesmo tempo, medo de destruí-los com os cavalos de aço que a droga faz cavalgar livremente pelas calçadas da cidade.

Sinto vontade de ser um deus para consertar tudo, mas temo não ser um que salva, apenas mais um que condena e joga tudo isso no entorpecente pó do esquecimento, para que ninguém mais sinta algo que não seja aquilo que o capitalismo consumista nos impõe na onda do “...tudo a ver”, ou do “a gente se vê por aqui”.

Sinto enfim, alegria e tristeza por ser o que sou - tudo e nada aprisionados num corpo, que deseja céu, mesmo que seja o céu dos morros do Cruzeiro ou do Quartel.

 

 

 

*Título inspirado em “Uma Valsa Brasileira para Juarez Moreira”, uma homenagem musical de Flávio Henrique e Antônio Carlos Bigonha (um conterrâneo de Ary Barroso) a Juarez Moreira.



Escrito por Evandro Alvarenga às 10h36
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Pesadelo de um primeiro de abril

No último dia primeiro de abril, um sindicalista resolveu fotografar as ruas esburacadas e sair com um carro de som, reclamando da inoperância da prefeitura de sua cidade. Por implicância do destino, foi parar numa rua, onde estava o todo poderoso administrador. Que não gostou daquilo... (isto é uma redundância burra deste cronista. Afinal, qual político que gosta de ser criticado e ainda mais em público?)
Antes que o mal se espalhasse, o prefeito resolveu agir. Não exatamente contra os buracos ou contra os problemas da cidade, e sim, contra a má, agressiva, injuriosa e caluniosa manifestação. Houve bate-boca, e quebra-quebra... Sim há provas do quebra-quebra. Foi gente parar no hospital e a máquina fotográfica dos que acompanhavam o sindicalista apareceu quebrada na delegacia.
Onde aliás, foi relatado tudo. Inclusive que era primeiro de abril. O prefeito disse que para se proteger do ataque pisoteou a arma, que ele achou que era máquina... ou melhor, a máquina que ele pensou que era arma... Ah! Como não há provas do que ele pensou, então evitemos o detalhe.
Mas cabe lembrar que ele pediu desculpas e devolveu a, digamos, “coisa” um pouco danificada. Mas quem mandou o sindicalista usar equipamento tão requintado? Essas, digamos, “coisas” modernas fazem de tudo. Telefonam, filmam, fotografam, e, quem garante que aquela não poderia atirar também como um revólver ou uma metralhadora? Assim, o homem escolhido pelo povo para resolver os problemas municipais, não poderia ser tão desleixado e colocar em risco sua segurança pessoal. Isto seria praticamente um atentado contra a escolha dos eleitores.
Como era mesmo primeiro de abril, o fato, se é que foi mesmo um fato e não um boato, pode ainda gerar polêmica, ou não. Mas isto aqui, também não é uma matéria jornalística e sim uma quase crônica de opinião. Então, vou mudar tudo, a partir de agora.
Ah! Se eu fosse o sindicalista desta história... sabe o que eu faria? Convidaria um grupo de amigos, faríamos faixas, cartazes... coisas que manifestantes adoram carregar e os espalharíamos pelas ruas, pelas escolas municipais, pelos postos de saúde e pelas praças. Nas faixas e cartazes colocaríamos frases assim: “O povo feliz jamais será agredido”; “o povo agradece pelos buracos tapados”; “as crianças da cidade estão felizes com suas escolas bem equipadas e seus professores bem pagos”; “os artistas locais agradecem pelo apoio”; “estive doente e fui bem atendido no hospital”; “tivemos fome e sede e nos saciaram”; “os ex-desempregados agradecem o trabalho recebido”...
Com tais faixas distribuídas, eu sairia com o carro de som convidando a população para comparecer ao ato público de agradecimento em frente da prefeitura. Quem ousaria não comparecer? Quem não se incluiria entre o povo totalmente feliz e agradecido com seu administrador? No dia marcado, primeiro de abril, a história seria ser registrada em duas versões, pelos jornalistas de plantão.
Primeira versão: diante de uma praça totalmente vazia, o sindicalista ligou o som e pediu desculpas ao prefeito. Disse que a população não era ingrata, como estava parecendo. Disse que alguns faltaram ao ato por motivo de força maior, já que ficaram perdidos nos buracos das ruas. Pediu que fosse abonada a falta de outros que estavam doentes, ainda aguardando atendimento médico em um posto qualquer. Enfim, cancelou o ato de agradecimento por falta de quorum, ou melhor, por falta de agradecidos e conseqüentemente, do que agradecer.
Segunda versão: Diante de uma multidão feliz e dançante o sindicalista agradeceu a todos pela presença. Em cima do trio elétrico pediu que cada grupo balançasse sua faixa, seu cartaz e que todos gritassem bem forte o seguinte coro de agradecimento ao prefeito: “um, dois, três, quatro cinco mil, nós te desejamos um feliz primeiro de abril”.
Final comum para as duas versões: No dia seguinte, domingo 02 de abril, sem novos danos (fora os causados pelos buracos e carências diversas), sem novos feridos (fora os atingidos pela demagogia e pela mosca azul do poder) todos continuaram felizes para sempre (principalmente o eleito), até que resolveram acordar deste pesadelo.

Republico este texto de 2006, em homenagem aos conterrânes que sonham coisas boas e criaram a comunidade Ficha Limpa Guanhães 2012 no Facebook para defender seus direitos de eleitores do futuro melhor.



Escrito por Evandro Alvarenga às 22h12
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Pouco me importei com a cor dos teus olhos

Nem quis saber com que olhos vias a cor

Mesmo assim defini vias, inúmeras vias

Para vir, ou para não vir

Ao teu encontro, meu encanto

Meu desencontro com a razão

 

Nunca soube o tipo da tua pele

Mas pelejarei, mesmo sem abraços

Lutarei sem cansaço

Até poder tocar teu braço

E sem estranhos embaraços

Misturar-me a tuas teimas, tuas teias,

Abrir-te minhas veias, adormecer em teus seios

 

Eu nem ao menos perguntei teu nome

Nem sequer tu o disseste

Mas vivo de olhos arregalados

Pro infinito de te ver de mar

De te ver de azul marejada

E doar-te meus ais, adocicar meu sal, sentir-me são

Vivo de olhos arregalados

Pro eterno de adormecer em ti e sonhar

Sem nunca saber ao certo

Quantos céus têm tuas estrelas



Escrito por Evandro Alvarenga às 11h33
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Os terroristas de Ruralópolis

 

“Ele sempre foi um minino tão bom... nem tô acriditano que ele fez alguma coisa coisa errada”. Lamentou Ruth, ao lado do carro da polícia estacionado em frente da casa de sua vizinha, dona Luzia. Um rapaz que passava de bicicleta parou. Ouviu algumas suposições e se enturmou: “Ah! Esse cara era meio maluco... vivia com a cara enfiada nos livros. Esse negócio de ler demais confunde as ideia!”

 

João que estava ali, desde que os policiais entraram na casa reagiu: “Qual é? Você nem conhece o José. Ele sempre joga bola com a turma da rua. É gente boa! Ocê vem dizer que ele é maluco, só porque gosta de estudar? Santa ignorância!”

 

“Mas ele anda com uma turma muito estranha. Ruralópolis inteira sabe que a turma dele vive aprontando nas madrugadas e vai saber o quê?” Disse Kalu - a fofoqueira do bairro. “Se não fosse maluco, maconheiro ou sei lá o quê não tava agora metido com a polícia...” emendou o rapaz da bicicleta.

 

“O que que há hein? Sua bicicleta quebrou foi? Não é melhor seguir seu caminho, em vez de ficar dando palpite errado?” Esbravejou João, que não aguentava mais atuar como advogado do vizinho diabo.

 

O grupo de curiosos já contava com mais de trinta pessoas. Um afirmou ter visto José chegando naquela madrugada, carregando machado e foice, ou enxada e pá “não deu pra ver bem”. Ouvindo isso e mais o pedaço de outra conversa sobre o número de irmãos de José, a fofoqueira do bairro já saiu espalhando para toda a comunidade que “o filho da D. Luzia esquartejou sete pessoas nesta madrugada usando machado e foice e a polícia arrombou a casa dos pais pra levar preso o rapaz!”

 

Quando os dois policiais saíram. José calmamente saiu atrás deles e quando ia entrar na viatura, ouviu a vizinha Ruth: “Ô minino porque ocê foi fazer uma coisa dessas?”  “Tá tudo bem dona Ruth! Só fiz o que era preciso fazer, só isso”, ele tentou explicar e saiu sorrindo com os policiais...

 

Antes do meio dia, ao retornar, José encontrou o muro de sua casa pichado! “Covarde”, “assassino”, “terrorista” “vergonha da cidade” e outras provocações que ele nem quis ler. Também não se deu ao trabalho de reclamar. Entrou em silêncio e deu alguns telefonemas. Pouco depois, chegaram vinte e um rapazes e moças. Vieram com tinta, rolos e material de pintura fazendo algazarra. Lost, que se dizia o mais normal do grupo berrou no portão: “Sai logo daí, seu terrorista duma figa, nós vamos te mostrar com quantas sementes se faz uma floresta!” Os outros riram, depois cantaram parabéns pra José.

 

Kalu de uma varanda observava tudo, sem entender por que eles cobriam as pichações no muro da casa. Dos vizinhos, apenas João se aproximou e acabou auxiliando o trabalho do grupo. Dona Ruth, que vira tanta gente pichando a casa, durante a manhã, agora se limitava a rezar em seu quarto, pela família de “descabeçado minino”.

 

No começo da noite, a família chegou de Dores de Guanhães, onde tinha ido visitar parentes. A mãe ainda dentro do carro percebeu o muro todo branco. Antes de contarem a José sobre a curta viagem, perguntou sobre a novidade da pintura e ouviram toda a história maluca daquele dia. O pai encerrou o assunto antes de ir dormir citando Guimarães Rosa para os filhos: “Viver é negócio perigoso!”  (Continua)



Escrito por Evandro Alvarenga às 19h24
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Os terroristas de Ruralópolis (2ª parte)

 

Uma semana depois da história dos “plantadores da madrugada” ter sido mostrada na televisão, José e seus amigos foram homenageados pela Câmara de Vereadores. Mandaram até afixar faixas diante da casa dele, mencionando o grande ato de amor à natureza – o orgulho da cidade. Quando outra matéria na TV mostrou que “os plantadores solidários de Ruralópolis”, às escondidas, replantaram boa parte das áreas devastadas da região, a Câmara decidiu que a pracinha em construção perto da casa de José seria chamada de Praça dos Plantadores.

 

Um artista local doou a escultura que foi instalada no ponto central da praça. Em metal cromado, ele esculpiu uma imensa meia-lua e sobre ela duas figuras humanas. Uma segurando uma arvorezinha, feita de arame retorcido e colorido. A outra com uma pá apoiada no solo lunar.

 

Militão, o fazendeiro que denunciou José por roubo e invasão de propriedade, impedido de cortar as árvores que “os terroristas fizeram crescer lá no pasto”, colocou homens armados para proteger seu terreno, principalmente nas encostas e nas margens dos rebeirões ainda não atacadas. Numa noite, um dos vigias, atirou e matou Luel – o rapaz que conseguia as mudas e Leila a moça que fazia os planos de ação do grupo. Pouco tempo depois, com enorme sentimento de culpa, José foi morar na capital de outro estado, juntamente com toda sua família. Nunca mais voltou à Ruralópolis e o grupo virou lenda.

 

A televisão informou que o acidente tinha sido “provocado pelos 22 invadores do movimento dos sem árvore”. Eles teriam mirado os vigias com objetos parecidos com espingardas. Um dos vigias se assustou e disparou. Numa sonora o fazendeiro Militão, de óculos escuros, disse: “É lamentável, foi um acidente muito triste e cruel. Estou muitíssimo chateado. Mas estou dando toda assistência à família dos jovens acidentados”.

 

Hoje, os mais jovens nem sabem que outrora, alguém, na calada da noite, arborizava as encostas desmatadas na região, com madeiras de lei.  Tentava replantar as matas siliares e cuidava das mudas até se tornarem árvores. Aliás, “ninguem em Ruralópolis tem mais tempo para devaneios de poetas e artistas lunáticos, ou para pensar no passado, pois é pra frente que andamos”, como disse o próprio prefeito Militão no dia de sua posse. A cidade só pensa na chegada das mineradoras. Vive a espectativa de se tornar o novo eldorado do minério de ferro.

 

O vigia envolvido no chamado acidente de Luel e Leila, que agora é vereador, líder da maioria que apóia seu antigo patrão e atual Prefeito, conseguiu aprovar um projeto de lei para transformar a Praça dos Plantadores, em Praça dos Mineradores. Ele teve a brilhante idéia, quando soube que alguns moradores daquele bairro, tinham feito uma faxina noturna na praça que há anos não recebia qualquer atenção da Prefeitura. “Deixaram brilhando a praça dos terroristazinhos... mas aquela lua ridícula não ficará lá muito tempo”, pensou. Justificou seu projeto como um incentivo aos novos e promissores tempos. O projeto da nova praça não prevê área verde. Ela será toda pavimentada em concreto. No ponto central, no lugar da antiga escultura, haverá um bloco de concreto com cinco metros de diâmetro revestido com minério de ferro.

 

Logo, logo Ruralópolis não terá mais qualquer monumento em homenagem a plantadores de sonhos. Certamente aquele pau-brasil no alto da serra que se vê do centro da cidade, não ficará lá por muito tempo. O trator que o derrubar não vai notar a plaquinha de metal cravada no tronco da madeira vermelha. Mas pode ser que alguém encontre aquela placa e leia a frase e os 22 nomes nela gravados. “Luel, Leila, José, Lost, Débora, Renata, Beto, Marconi, Tatiana, Carmem, Roni, Viviane, Síntia, Carlos, Wilker, Alexandre, Cibele, Josiane, Leandro, Everaldo, Regiane, Vítor. Somos o MSA, porque verdejar é preciso, morrer não é urgente!”. Mas sem tempo para devaneios, certamente a jogará no lixo, como um lixo qualquer. Ou será que não?

 

Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma Flor do nosso jardim e não dizemos nada. Na segunda noite, Já não se escondem; pisam as flores, matam o nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, Já não podemos dizer nada.”  "(Vladimir Maiakóvski)



Escrito por Evandro Alvarenga às 19h18
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O porto seguro daquele que corre

A sensação de liberdade quando o impulso final dado por seus pés o lançou da alta rocha foi indescritível. Quando a força da gravidade o empurrou para baixo na direção do mar, ele gritou de alegria. O quase velho José se sentia a criança que outrora saltava da ponte sobre o ribeirão Graipu. Naqueles segundos de queda, quando seu rosto recebia as lufadas do vento e seus olhos contemplavam o mar - cada vez mais próximo, ele foi ao infinito.

Foi como uma nave transpondo galáxias, buscando seu Planeta Água, seu país, seu porto seguro, seu lar. Sabia que não havia nenhuma garantia de retorno, quando se lançou. Ainda assim, saltou no universo, como todo mineiro, levando “minas” dentro de si. Como, Roy Bates – o andróide de Blade Runner, José também viu coisas inacreditáveis. Mas agora, quando seu corpo estava prestes a entrar na água, todos esses momentos passaram por sua mente “como lágrimas na chuva”.

Se detalhada, a sensação do instante em que o corpo em queda livre mergulha na água salgada do mar preencheria um livro. José prometeu a si mesmo, tentar fazê-lo algum dia. Seu corpo se tornou mais leve, mas continuava afundando. Ainda estava distante do fundo quando sentiu uma pancada na cabeça e tudo se apagou. Onkotô? Perguntou baixinho várias vezes. Diante do absoluto silêncio, gritou até perder a noção de todas as coisas.

Quis continuar gritando, quis se debater, quis morrer. Sua alma barroca pensou em se chicotear, em ficar como a imagem do “Senhor Morto” da igreja Matriz de São Miguel. Quis se libertar, voar, quis ir pra Minas... “José?” Ouviu seu nome, de repente. Preparou-se para ouvir a parte assustadora do poema de Drummond, “Minas não há mais...” Mas o que ouviu foi o comentário irônico do médico: “Esses mineirinhos invadem as praias, pensando que o mar é o riacho da própria fazenda e nos dão trabalho em pleno domingo”.

“Se já mergulhei no rio Guanhães e na Lagoa Grande, porque não o faria no mar azul de Floripa?” Indagou José, mirando a filha que ternamente o olhava, aliviada. Como se nem estivesse num hospital, José tentou ignorar o médico que, no entanto, sorriu assustado. “Não me diga que senhor é guanhanense?” “Digo que sou, sim... por acaso há algum mal nisso?” Reagiu o irritado José. O médico sorriu e calmamente respondeu que “o único problema é que somos conterrâneos”. Mas antes de ter de tecer o novelo da história de seus familiares na cidade onde nasceu, o médico concluiu: “Mas agora, senhor quase náufrago, trate de descansar. Amanhã, quando acordar terá alta e poderá ancorar no seu porto seguro.”

José morava em Brasília há muitos anos. No entanto, ao ouvir o médico dizer que poderia buscar seu porto seguro, só pensou em sua cidade natal. Dormiu sonhando com sua adaptação do filme de Ridley Scott. Era um pássaro andróide atravessando velozmente inúmeras galáxias, esquivava-se das colônias interplanetárias em chamas até chegar são e salvo em São Miguel y Almas de Guanhães, como diriam Márcio Prado e Roberto Drummond.

É para lá que a alma de José retorna nos momentos de angústia. Volta atraída pelo aroma dos laranjais em flor e da terra molhada na rua do Pito; pelo perfume da missa das cinco ao lado de D.Jupira; pelo cheiro da quitanda de tia Zenília, da empadinha da Stael saindo do forno de lenha. Volta pensando na gemada com canela da DindInhá, no doce de figo de D.Lucica, nos licores da tia Naná...

E de lá que vem o som da banda do seu Du; do alto-falante do Cine São Miguel tocando “Airport Love Theme, anunciando o início da sessão; do canto dos galos no terreiro do Seu Juca; da bênção de padrinho Arnaldo e madrinha Duzita; das rezas de D.Duninha, DonAlice e Raimunda do Miguelão. É de lá que vem a voz da Mariinha cantando “monamú monbém mafêmi” enquanto lava roupa na fonte da Fazendinha; a voz do seu Lau e de seu Zico de Olinda gritando leilão nas noites de novena.

É lá que José vê a cor do vinho do padre Magelinha, dos olhos lindos e sorridentes da madrinha Norma Caldeira. É lá que ouve a preleção do padre Duque nas sessões cívicas do Odilon Behrens, que lê “Os Três Porquinhos” no Pio Nunes de lata. É lá que ele, ainda é o patrício nas aulas de português da professora Ildete Alvarenga, muito mais bela que a “Namoradinha do Brasil”.

Por isso, mesmo que esteja em Porto Seguro, Porto Alegre, Porto Feliz, Porto Velho, Porto Rico ou Portus Cale, o porto-abrigo de seu coração será sempre sua estranha Guanhães, a terra “daquele que corre”, talvez como o próprio rio Gua-nha-nhan, sem saber que seu destino é desaparecer no infinito mar do tempo.

Aos conterrâneos espalhados pelo mundo que, cheios de “minas” no coração, vivem em busca da própria “Face” no “Book” da Terrinha Guanahan.



Escrito por Evandro Alvarenga às 23h55
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Construção de Espaço Mais Cultura em Guanhães tem novo prazo

Brasília, 17/03/2012 – Evandro Alvarenga

Ministério da Cultura diz que a Prefeitura já pode começar a obra, mas só receberá os repasses financeiros da União quando regularizar sua pendência fiscal

O sonho da população de Guanhães de ter um espaço multiuso para eventos culturais ainda não acabou. O convênio assinado entre a Prefeitura e o Ministério da Cultura em dezembro de 2010, tinha validade de um ano, mas foi prorrogado via ofício até 29/12/2012, por recomendação da Consultoria Jurídica do órgão federal.  A informação é da Assessoria de Comunicação do Ministério.

O valor total da obra conveniada é de R$ 562.500,00 e pelo estabelecido no convênio, o Governo Federal pagará R$ 450.000,00 e em contrapartida a Prefeitura investirá R$ 112.500,00. A área reservada para a construção do Espaço Mais Cultura fica próxima à Escola Estadual Odilon Behrens. Mais precisamente na rua Josefina Gomes Pimentel, quase na esquina com a rua Santa Efigênia, logo na subida do bairro Recanto da Serra.

A Secretária de Administração da Prefeitura Waléria B.F. Costa Coelho, informou que da parte do município está tudo certo. “Só dependemos do repasse dos recursos do Governo Federal para licitar a obra”.

Sobre a razão de não ter transferido o dinheiro, a assessoria do Ministério corrigiu a informação da Secretaria. “O repasse não aconteceu ainda por que o município está com restrições no CAUC – Cadastro Único de Convênios”. Trata-se do sistema informações para transferências voluntárias de recursos, que faz parte do SIAFI - Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal.

A Coordenação de Convênios do Ministério da Cultura, por meio de sua assessoria de imprensa acrescentou que com o novo prazo de validade, o documento assinado em 2010 continua valendo e com isso, a Prefeitura de Guanhães pode começar a construção do espaço cultural a qualquer momento. Para isso pode usar a parte que lhe cabe no convênio. No entanto, os recursos federais só serão liberados quando a situação do município junto ao CAUC for regularizada.

A aprovação da proposta de Guanhães, em primeiro lugar entre quase cem municípios que concorreram no edital para o Espaço Mais Cultura em 2010, trouxe ânimo para os artistas da cidade. Foi considerada uma vitória para os componentes do Movimento Cultural Guanahan que se envolveram na elaboração da proposta e do Movimento dos Sem Teatro.  A reivindicação ganhou reforço do Movimento Quero um Auditório em Guanhães. Lançado recentemente no Facebook pelo cantor Dalmir Lott, o novo grupo recebe mais adesões a cada dia.

Diante da notícia da renovação do convênio, a preocupação dos artistas e da comunidade agora é com relação aos prazos. Pela legislação eleitoral, o município precisa começar a obra até 90 dias antes das eleições. O Ministério informou que mesmo se a Prefeitura não conseguir iniciar a construção até o mês de julho/2012, respeitando a lei eleitoral, o convênio continua vigente até 29/12/2012. O prazo também pode ser prorrogado por termo aditivo, caso haja interesse em sua continuidade.

Assim que a Prefeitura receber o repasse financeiro do Governo Federal, a execução do objeto do convênio terá acompanhamento da área técnica do Ministério da Cultura. Por sua parte a administração municipal terá de alimentar o SICONV – Sistema de Convênios com as metas realizadas em cada etapa da execução. O prazo para construção do Espaço Mais Cultura é o mesmo da vigência do acordo.

CONSULTA AO CAUC - Numa consulta ao Cadastro Único de Convênios – o que todo cidadão pode fazer (confira link abaixo), verificamos que realmente a Prefeitura de Guanhães está com duas pendências. Elas aparecem no item III. Para se regularizar é preciso comprovar que fez a publicação de dois relatórios: o de Gestão Fiscal (RGF) e o Resumido de Execução Orçamentária (RREO) de acordo com a periodicidade exigida pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

Em outros quatro itens contidos no CAUC, a comprovação apresentada pela Prefeitura tem validade até a data do fechamento desta matéria: 17/03/2012.  Um deles, o item II, fala da prestação de contas de recursos federais recebidos anteriormente. Vale lembrar que a renovação dos dados do Cadastro é diária. Assim se a prefeitura enviar a comprovação da publicação em um dia, no outro a situação estará regularizada.

https://consulta.tesouro.fazenda.gov.br/transferencias_voluntarias/situacao.asp?cnpj=18307439000127&op=3

Na crônica "Teremos o Espaço para chegar ao ponto", publicada aqui em 15/05/2010, festejei a aprovação da proposta de Guanhães para construção de um Espaço Mais Cultura na cidade. Como quase 2 anos depois nenhuma construção foi iniciada, volto ao assunto. Desta vez, deixando a literatura de lado, e tratando os fatos como fatos, jornalisticamente.



Escrito por Evandro Alvarenga às 11h34
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AGORA

Agora, que o carnaval se foi e que férias não há mais, o ano começou! Diria aleluia! Mas estou desencantado para louvores neste dia. Mais uma vez peco contra o texto bíblico que me diz “em tudo dai graças”. Baterei no peito, certamente, incontáveis vezes por tantas culpas. Sou da raça dos pecadores eternos, por mais que queira ser perfeito.

Pensei que na volta ao trabalho seria acometido pelas novidades do “stress pós férias”. Meu pensamento mal sabe da boa saúde que tenho. Mas estou com a sensação de casa roubada. Não encontrei aqui a querida Maria Auxiliadora Coelho Ayala. Uma leitora especialíssima, que, mineiramente, me abriu as portas de sua casa dizendo “na minha família você será acolhido como membro”. Ela se foi com toda sua generosidade antes que eu conseguisse ouvir suas histórias sobre nossa terra Guanahan.

Também não está aqui neste mundo, cada dia mais vazio, o jovem Bruno Sampaio, autor do desenho que ilustra esta crônica e da montagem usada no meu facebook, que me coloca como personagem do filme O Sentinela.  Brunão era um amigo por natureza, um publicitário de 32 anos, apaixonado pela vida... Foi-se, sem que eu pudesse desejar-lhe boa viagem.

Não questiono os desígnios divinos, ou o rumo natural das coisas, no entanto aqui estou eu, sem stress, comendo o que me cabe do feno diário desta rotina de admirável gado novo. “Sinto uma culpa que eu não sei de quê” como o personagem da canção Paranóia, de Raul Seixas, magistralmente interpretada por Edson Cordeiro. Sinto-me quase culpado por viver sem aqueles que se foram.

Se sou, ou não, vigiado e se Deus vê ou não tudo o que eu faço, não importa. Agora só me interessa entender por que navegar é preciso. Não sendo eu o dono da nave, de uma forma ou de outra, sigo ruminando contra a ficção de Adous Huxley, cada vez mais “reality” no apocalítico show da nossa vida.

Preferia não viver tão mecanizado e mesmo que quixotescamente, queria poder confortar os amigos Sheila, Taíza, Iza, Mário e Bruninho. Só sei sentir essa dor que também não sei de quê. Só sei deixar o tempo passar e cicatrizar os cortes que me dilaceraram. Choro ao meu Deus, pelo que não posso compreender.

Penso e escrevo melhor do que falo. Quero crer que isso seja bom, como me dizia a Auxiliadora! Mas continuo com a impressão de que isso não me leva a nada. Se com nosso pensamento recriaremos o mundo, como escrevi no cartaz do Brunão traduzido para o francês, já não sei! De qualquer forma, agora prometo pensar em coisas bem louváveis em memória das estrelas que levaram seu brilho para outro lugar, deixando-me a indagar com Vander Lee: “Em que ilha, em que plano brilhas, como e onde estás, onde vais? Correntezas cheias de incertezas, curvas, quedas, loucos ais... onde vais?”

Agora, tudo o que eu queria era que a gente não fosse feito pra acabar, ao contrário do que diz a canção de Marcelo Janeci, citada na crônica anterior.

 



Escrito por Evandro Alvarenga às 09h51
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Feito pra acabar

Se fosse mulher, teria a desculpa da tal de TPM, mas não sendo, não dava para compreender porque tinha amanhecido tão azedo em plena sexta-feira. Para não afetar ninguém à minha volta, resolvi me manter em silêncio e só responder... Não puxaria um assunto sequer, com ninguém.

No metrô, mergulhei na leitura de Ernest Hemingway, queria acreditar que o sol também se levanta, mesmo em dias de humor nublado. No serviço, enquanto pude me mantive com fones de ouvido. Fiz o que tinha de fazer, mas a reunião que teria às 15 horas me assustava. Até que passou sem maiores danos. Mas em mim, a irritação aumentava. Pensei que tivesse sido atacado por uma espécie de vírus.

O dia parecia interminável e surgiu o convite para uma happy hour... Mas nem isso me animou. Fui andar pelas ruas, com fone no ouvido, ouvia rock, jazz, blues e música brasileira. Tudo me parecia tão estranho. Era como se nunca tivesse ouvido aquelas canções. Pensei no meu próprio poema “o dia em que ela não veio”, mas notei que minha tristeza não era causada pela ausência de poesia, nem por excesso de lirismo.

Entrei numa livraria, procurei Boudelaire – o intérprete perfeito da dor do mundo e das paixões da vida. Talvez ele me levasse a Rimbaud, Verlaine... Se os encontrei, sinceramente não os vi como minha alma deveria vê-los naturalmente.

Queria ir embora de mim, mas tive de enfrentar minha própria noite, como aquele ser abandonado pela imortal amada imaginária.  Há dias em que “o irreparável rói, feito praga inimiga, nossa alma, uma estátua do tédio”¹. Busquei o novo dia e me lembrei que: “Certa vez pude ver, numa cena teatral, Um compósito ser de prata, gaze e luz, Derrubar o enorme Satã; Mas meu coração que o êxtase não conduz É um teatro numa espera vã, Numa espera imortal do Ser de asas de luz.”²

Com a ajuda de Boudelaire ou não, sepultei a sexta-feira pensando em carnaval, sonhando com o renascer da alegria. Mesmo sabendo que depois virão as cinzas, e que certamente me convencerão de que “a gente é feito pra acabar... e isso nunca vai ter fim”³.

¹ e ² - Charles Boudelaire – poema “O irreparável”, na tradução de Delfim Guimarães.

³ - Canção de Marcelo Jeneci/Paulo Neves e Zé Miguel Wisnik

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Escrito por Evandro Alvarenga às 13h13
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Uma casa   

(Ênya Alanis Lacerda Alvarenga)

 

Quero comprar uma casa

Mas uma casa invisível

Que só eu possa ver

Para não me preocupar

Com ladrões

 

Quero uma casa mágica

Que quando eu quiser algo,

Ela me entrega ou me leva ao lugar,

Que abra as portas para mim

 

Quero uma casa musical

Que passe todas as músicas que eu gosto

Quero uma casa carinhosa

Que me faça feliz

Quero uma casa encantada,

Mas encantada por mim.

 

A autora Ênya é minha sobrinha. O poema foi escrito em 2011 quando ela tinha 10 anos de idade e era aluna da centenária Escola Estadual Padre Café, em Guanhães/MG

 



Escrito por Evandro Alvarenga às 11h21
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