Meu erro (Minha Tribo sou eu)

Apenar de ter nascido em terras outrora habitadas pelos índios Guanahans, não me considero membro de nenhuma “tribo”. Talvez seja por isto que erro muito por aí.

Erro até naquilo que gosto de fazer e que me proponho a fazer com gosto. Erro até naquilo que considero o canal artístico entre minha realidade e meu sonho, ouvindo o que minha alma dita.

Talvez seja por isto que errei na última crônica. Errei sozinho, dentro desta minha tribo que sou eu. Então, antes que alguém de qualquer tribo reclame. Peço desculpas.

Errei quando citei a frase “pobre de quem não é cacique nem nunca vai ser pajé” como sendo de um maranhense, Chico César. Em primeiro lugar, Chico César não é maranhense e sim Paraibano. Para completar o trecho que citei nem é do grande paraibano. Na verdade é de ZECA BALEIRO, aí sim, um maranhense. Ave Zeca Baleiro!

Não tenho justificativa pra meu erro, mesmo que minha tribo seja eu e que ninguém de outras tribos tenha me cutucado ou condenado pelo fato. Assim, eis a letra de toda a canção "Minha Tribo sou Eu" do grande Zeca Baleiro , para quem souber a melodia se deliciar:

Eu não sou cristão/ Eu não sou ateu/ Não sou japa/ Não sou checano/ Não sou europeu/ Eu não sou negão/ Eu não sou judeu/ Não sou do samba nem sou do rock/ Minha tripo sou eu

Eu não sou playboy/Eu não sou plebeu/Não sou hippie hype skinhead/Nazi fariseu A terra se move/ Falou Galileu Não sou maluco nem sou careta/ Minha tribo sou eu

Ai ai ai ai ai /ié ié ié ié ié/ Pobre de quem não é cacique/ Nem nunca vai ser pajé

Por falar em meu erro, talvez ele tenha sido “crer que estar ao seu lado bastaria”... Opa! Isto é da banda brasiliense Paralamas do Sucesso! É composição do inigualável Herber Viana, nascido em João Pessoa na Paraíba mas criado em Brasília/DF. Então, por favor, comece a semana cantando esta também e não me abandone jamais.

Meu erro ( Herbert Vianna)

Eu quis dizer/Você não quis escutar/Agora não peça/Não me faça promessas...Eu não quero te ver/Nem quero acreditar/Que vai ser diferente/Que tudo mudou...

Você diz não saber/O que houve de errado/E o meu erro foi crer/Que estar ao seu lado/Bastaria!Ah! Meu Deus!/Era tudo o que eu queria/ Eu dizia o seu nome/Não me abandone...

Mesmo querendo/Eu não vou me enganar/Eu conheço os seus passos/Eu vejo os seus erros/ Não há nada de novo/Ainda somos iguais/Então não me chame/Não olhe prá trás...

Você diz não saber/O que houve de errado/E o meu erro foi crer
Que estar ao seu lado/Bastaria!/Ah! Meu Deus!/Era tudo o que eu queria/ Eu dizia o seu nome/Não me abandone jamais... Não me abandone jamais.../Não me abandone jamais...



Escrito por Evandro Alvarenga às 10h10
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Ave Índio Guanahan!

 

Hoje não é dia de índio, mas eu - guanaham de Dores - preciso falar que índio Guanahan quer correr, quer caminhar livre como os cães da aldeia (sem carrocinha), sem lenço, sem documento, como diria o baianíndio Caetano. Até que  “o sol nas bancas de revista” o encha de preguiça e... Mas que bancas? Só existe uma por aqui?

Sem problema! índio guanahan nem quer revista, só quer vista. Vista boa, ampla de toda terra que não tem, mas insiste em proteger com cerca elétrica inclusive.

Quer mais é ser visto. Mesmo que seja numa versão regional do BBB (a porcaria global) em que vale tudo, “só não vale dançar homem com homem e...” mas isto é papo do índio Tim, e Guanahan prefere Maias (Incas não) e oi, e ói...   Acá! Melhor calar. Mas índio não cala.  Fala pelos cotovelos durante as queda constantes das linhas fixas de telefone.

Índio precisa falar senão fica surdo, doente de raiva. Doente iria para hospital. Mas para hospital não vai mesmo!!! A aldeia não “have”. Nem hospital nem hospício, só tem motel e meretrício. Aqui, rima de bêbado também vale. Ave João Gilberto e Tom Zé! Somos todos doidos mesmo!

Índio Guanahan também quer apito, para resolver o trânsito (ou a falta dele). Poder dirigir livremente com CNH comprada, embriagado, em alta velocidade e derrubar quantos postes quiser. Melhor derrubar todos. Poste é coisa de homem branco, de homem banco (aquele decorativo cuja madeira fedia nas praças, no tempo em que chovia na aldeia).

Índio Guanahan quer fazer festa, quer dançar no carnaval, quer ser Pierrô, Colombina... Mas não quer ser festejado, aplaudido. Quer atuar, mas não tem ação, não tem ato, não tem teatro, cinema, livraria, nem CD de jazz. Ave Juarez Moreira e Ithamara Koorax! Hein? Mas tem DVD pirateado dos últimos lançamentos “made in USA”.

Índio Guanahan quer usar roupa de grife nas cerimônias. Mas não quer a pajelança da tribo. Quer ter sua própria religião – tipo bolsa salva-almas - sem as Almas e Migués da Vila. E os pajés brancos que se virem pra batizar, e pra casar índio.  

Sim, índio quer casar, quer casa. Casa, comida, roupa lavada e “green card”, só para curtir a vida numa “good”. A índia Rita (ave Lee!) diria “só pra deitar e rolar...” O Guanhan é cibernético, tem cérebro eletrônico, é internacional.  Pena que não saiba onketá, nem o que é... Ninguém mostrou a ele o canto da Gafurina, nem a dança da chuva que formou a Lagoa Grande. Ninguém nunca falou pra guanahan o que é ser índio nesta aldeia, dita pólo regional.

Índio quer relógio digital com horas invisíveis na avenida, mas não quer piruluto. Quer pipoca, mas milho, nestas “Minas não há mais”. Falta máquina pra plantar, cultivar e colher. Mas há pedra no caminho, daquelas que brilham, como a de Itabira de Drummond, quando lá Minas haviam. Talvez seja, por isto que índio Guanahan tá cheio de marra, sonhando fazer o GM a 4!  Tá de boa e fica na moral fumando cachimbo de crack ou qualquer bagulho, que nunca vende, só consome. Depois some.

Índio Guanahan não assume, mas já sumiu do mapa do centro leste. Sumiu não, fugiu para o centro nordesde. Achou mais chique, mais político. E não quer mais votar, cansou! Quer ser votado, mas nesta aldeia de São Miguel e Almas, pobre de quem “não é cacique nem nunca vai ser pajé...” Ave César! Digo, Chico César um índiomaranhense!***

Ave índioguanahan “forever, and ever” na nossa alma guanhanense!

 

***Errei. Leia a próxima crônica acima, de 08/02/10



Escrito por Evandro Alvarenga às 19h11
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É... ?*#£*#£¢¬& #$#*£?

 

Há pouco mais de um mês, tentando me livrar das mensagens que se replicavam a partir de um endereço eletrônico que uso, recebi a sugestão do amigo Lost para mudar minha senha de acesso. Ele não se mostrou muito “lost”, pois achou para meu problema, uma solução imediata. Alterei os tais códigos o problema sumiu! Funcionou! Em seguida saí de férias.

Graças a Deus, neste período fiquei longe do mundo digital e bem ligado na real, no bom da vida: família, amigos, cidade natal, turismo ecológico, doçuras de Minas, cachoeiras, jardins, conversas na praça ao luar... Mas o que é bom, dura muito pouco!

Com o fim das férias, voltei da viagem para a rotina. Em casa, antes de retornar ao trabalho, tentei verificar as mensagens eletrônicas acumuladas em meu computador, mas tinha esquecido a senha... Sem tempo de me lembrar dos processos de recuperação dela, fui trabalhar.

Já no serviço, ao entrar na rede em que fico conectado diariamente, uma mensagem automática na telinha do micro me informou que minha senha de acesso estava expirando. Tudo bem! Criei outra senha e a anotei, pois não confio muito na minha cabeça em momentos como esse. No dia seguinte, percebi que a senha anotada não funcionava. Acho que antes de anotá-la já a havia esquecido e registrei os códigos errados. Fiquei o dia todo sem trabalhar aguardando os especialistas, para poder ter acesso à parte do meu trabalho.

O meu chefe que, havia se esquecido de me desejar bom retorno ao trabalho, e de me cumprimentar apareceu na minha frente. “Assim não dá! Como é que você conseguiu se esquecer de uma coisa que você mesmo criou em menos de 48 horas?”

Eu pensei, pensei... O chefe insistiu e repetiu a pergunta quase automaticamente.  “Como você conseguiu se esquecer? Heim? Diga-me como. Como?” Diante dos gritos, dele, resolvi não arriscar. Para evitar reprimendas maiores, pensei mais um pouco e só depois respondi: “Sinceramente, não consigo me lembrar de como consegui...” Ele me interrompeu dizendo um monte de coisas que inclusive, não me lembro mais...

Então, já que não consegui me lembrar nem mesmo de como me esqueci a tal senha, resolvi fazer um decreto, do qual espero não me esquecer.  A partir de agora fico terminantemente proibido de me lembrar dos... dos... dos “trem” que não me levam a... a... a “coisa” nenhuma. Aliás, do que eu ia falar nesta crônica perdida mesmo? ###...

 

Para que ninguém se esqueça que a vida é bela deixo uma foto da misteriosa vegetação no topo da Pedra da Gafurina (Guanhães/MG).



Escrito por Evandro Alvarenga às 17h53
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Liberdade ainda que seja sempre

Gostaria muito de poder dar um monte de bons conselhos, no momento em que um ano novo começa. Gostaria mesmo de fazer uma ligação prática para que tudo aquilo que desejo aos amigos e parentes se tornasse realidade. Gostaria de poder ensinar o caminho da paz, da tranqüilidade...

Mas por mais que me aprofunde na sabedoria divina, por mais que leia os sagrados ensinamentos de todas as religiões... Nunca serei capaz, sequer de ensinar com perfeição, quanto mais de colocar alguém no caminho “certo”. Mas gostaria muito. Sei que muita gente é como eu.

Apesar de toda minha incapacidade fico feliz por ver muita gente se superando pelas mais diversas trilhas e sendo feliz ao fazer seus caminhos. Eu me sinto assim. Tenho a impressão de fazer meu caminho, apesar de saber que tantos já passaram por ele. Continuo caminhando, graças a Deus, e o faço com uma felicidade incomensurável.

Desejo a todos um ano novo muito bom, mas sinceramente não tenho parâmetros para considerar um ano melhor ou pior que outro. Dos quarenta e sete que já vivi, foram todos fantásticos. Talvez por isto não acredito que entre os que virão, algum não seja, pelo menos, bom. Só posso agradecer a Deus, por permitir que meu coração bata feliz, seja acelerado correndo atrás de uma bola de futebol, tênis ou vôlei, seja devagar numa mesa de cirurgia.

Isso eu gostaria que todas as pessoas tivessem. Queria que elas pudessem ser felizes, seja no meio de uma multidão que festeja, seja no isolamento de um quarto de hospital. Seja no seio da família amada, seja na solidão de um deserto que abrasou seu coração em algum momento da vida. Como não consigo dar a receita disso, fico frustrado.

Porém, continuo feliz. E talvez tenha algo que possa sugerir para o ano de 2010, mesmo sabendo que as fases da vida, não se dividem em grupos de 365, de trinta, ou de sete dias... Sim há algo!

Quero sugerir, que a partir de agora, de amanhã ou do primeiro dia do novo ano, sejamos livres! Creio que a melhor forma de viver e amar a vida é se libertando dos medos, dos rancores, das mágoas, dos preconceitos, do consumismo, da falta de fé, do excesso de fé, da incompreensão, da intolerância, da prepotência, do orgulho...

Tomara que nenhum de nós esteja engaiolado demais pela mídia consumista, pelas regras desumanas da lei, ou pelas normas da burocracia e das tradições e costumes, a ponto de não ter mais lembrança da beleza da liberdade. Tomara todos nós, ainda saibamos viver simplesmente, sem depender excessivamente do dinheiro, de um carro novo todo ano, de um eletrônico, ou de outro ser humano. Então libertemo-nos já!

Talvez seja difícil, afinal, como diria Rubem Alves: “Gaiola (nenhuma) gosta de passarinho solto batendo asas.” Mas eu acredito também como o inspirado poeta, que “os passarinhos engaiolados jamais se esquecerão da beleza que é cantar em liberdade.” Por isto sugiro: liberdade já! Agora, amanhã, no próximo ano... Libertas quae sera sempre!

“Para a liberdade Cristo nos libertou; permanecei, pois, firmes (na liberdade) e não vos dobreis novamente a um jugo de escravidão” (Gálatas 5:1)

Um ótimo ano para você!



Escrito por Evandro Alvarenga às 20h29
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Texto Republicado, a pedidos:

 

Um sonho estranho

 

Uma artista recentemente instigou minha mente propondo, por ocasião das festas natalinas, a montagem de um presépio diferente. Nele os animais seriam representados por seres humanos e os outros personagens seriam representados por animais. Ou seja, Maria, José e o próprio Jesus, naquele presépio inusitado seriam representados por gato, cachorro e ovelha, respectivamente. Mas, poder-se-ia usar outras espécies, de acordo com as preferências do “freguês”.

Tentando digerir a mensagem, mas com cautela por saber-me em solo sagrado, tive um sonho com o inusitado presépio. Nele, eu era o jumento. Ao meu lado, uma moça (vaquinha) e outras pessoas representando animais. Diante de mim, o Filho de Deus recém nascido, representado por uma ovelha...

Como quem acaba de chegar num mundo desconhecido o Jumento, diz: “Ora, ora, ora! Por que será que o artista-criador me fez assim, um homem limitado em corpo de jumento? Deixa pra lá... Agora estou com fome. Ah, pelo menos ali tem um capim razoável. Mas tinha de estar tão longe? Sai pra lá, vaca intrusa, eu cheguei primeiro. Amanhã farei uma cerca para garantir a minha plantação. Minha sim, pois eu cheguei primeiro... Que artista, chato! Tudo bem! Fico aqui durante esses dias. Em compensação, assim que passar esse período de  Natal,  vou demarcar toda a plantação de capim que eu conseguir e ai de quem tentar me impedir... Mas afinal, alguém pode me dizer por que esta gata e este cachorro tanto paparicam esta ovelha folgada? E o que a dona  ovelha está fazendo na manjedoura onde deveria ser colocada a minha comida? Já resolvo isto...”

O jumento-homem tanto fez que conseguiu criar com os animais “maiores” uma guerra santa contra os animais menores (gato, cachorro e ovelha em destaque no presépio). Os bichos-humanos lutaram com suas armas secretas, até conseguirem retirar a ovelha da manjedoura e expulsar os bichos menores do lugar de destaque no presépio.

Depois fizeram uma festa para comemorar uma nova era, na qual, já não terão mais de reverenciar o Cordeiro da manjedoura. Não precisarão deixar de evoluir e prosperar segundo seus próprios conceitos. Poderão conquistar novos capinzais, montanhas, mundos inteiros. Aliás, para garantir o capim de seus filhos, agora poderão buscar toda riqueza, poder e ostentação que quiserem, sem qualquer peso na consciência. Na nova era o céu, ou o teto da gruta do presépio não seria mais o limite.

Depois de algum tempo eles dominaram e estragaram a gruta inteira. Algumas espécies de plantas e animais deixaram de existir. Sentindo medo do fim, buscaram um ritual para atrair prosperidade. Rejeitaram a proposta da cabra de enfeitar a casa com uma manjedoura. Isto iria gerar uma adoração inadequada de um objeto. Depois de tantas propostas rejeitadas, eu - o jumento-homem-líder decretei:

A partir de agora, aqui no meu reinado, digo, meu presépio, na última semana do ano será montada uma árvore, do tipo que nunca se viu por aqui. Para atrair dias melhores, a árvore será de tamanho médio e ter folhas de capim. Sobre as folhas de capim (que serão coladas na árvore), será aspergido uma boa quantidade de grãos de açúcar. Ao final da semana que passa a ser denominada Natal da Prosperidade, a árvore será oferecida em um banquete e todos os animais devem se deliciar”.

A cada ano, o Natal da Prosperidade ficava mais bonito, mais chique... A cada novo sentimento de infelicidade, um novo costume era acrescentado e depois regulamentado em lei. Eu, jumento-homem-líder entendi, enfim, que esta era minha missão: fazer com que as festas natalinas fossem cada vez mais maravilhosas, até que ninguém mais se lembrasse da pobreza que é uma gruta e uma manjedoura.

Acordei assustado no meio da noite. Abri bem os olhos. Respirando fundo pensei: Meu Deus, que sonho louco! Voltei a dormir e de manhã acordei com uma vontade incontrolável de cantar bem alto: “...bendito seja o Cordeiro!”

FELIZ NATAL!



Escrito por Evandro Alvarenga às 16h43
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Por do sol em Santarém sob a lente de Antônio Pugás

 

O Fotógrafo

Há muito tempo esperava estar num lugar especial como aquele, num momento exato como aquele. Apesar de passar os dias fotografando de tudo para agências de notícias, registrar o por do sol na orla fluvial de Santarém era mais que um lazer. Era um raro prazer.

As pessoas caminhando no calçadão, a brisa, o movimento frenético de cargas e descargas, embarques e desembarques em barcos de todos os portes acrescentavam detalhes na composição da imagem. Mas seu foco estava mais além. Suas lentes miravam a imensidão das águas azuis do rio Tapajós, o céu com várias nuvens e entre elas a bola avermelhada do sol que, com a umidade do ar, se ficava mais opaca.

Diante do tripé que sustentava a câmera, ele se dividia entre o visor e a paisagem real. Um clique, outro. Um ajuste na abertura, uma troca de lentes e outro clique, e outros em seqüência. Registrou, passo a passo, o mergulho do sol na escuridão desconhecida da noite. Se pudesse, o fotógrafo mergulharia junto, talvez para iluminar a virada de sua vida. Mas quem não gostaria de iluminar o amanhã, tão incerto e obscuro?

“É estranho que as melhores coisas da vida sejam tão efêmeras”, lembrou-se da frase que ouvira na passagem de um outro momento especial. Enquanto conferia as imagens registradas ali mesmo, uma jovem parou diante de seu equipamento fotográfico e lhe disse em tom autoritário: “Faça uma foto minha, que esta cidade não tem nada melhor para nos oferecer”.

Ele estranhou, mas literalmente obedeceu. Orientou o posicionamento dela e clicou duas vezes. Sem dizer mais nada a moça saiu rapidamente. “Os loucos são mesmo os donos do paraíso...” pensou com sua costumeira ironia. Desmontou o equipamento e saiu para jantar. Depois retornou ao hotel e deixou as malas prontas para viajar no dia seguinte.

Tomava café quando atentou para uma notícia veiculada pela emissora local de televisão, sobre o suicídio de uma moça de 17 anos de idade, com gravidez recente. Ela teria se atirado no rio Tapajós com uma pedra presa ao pescoço. Seu corpo foi encontrado com um bilhete impermeabilizado por plástico, com a enigmática frase: “Esta cidade não tem nada melhor para nos oferecer”.

A reportagem mostrou depoimentos de pessoas que de outro barco assistiram a cena trágica. Um senhor de semblante triste disse que a moça se atirou nas águas quase junto com o por do sol. A matéria terminou com uma foto da jovem suicida ainda não identificada.

Pela foto mostrada, o fotógrafo teve a certeza de que se tratava da mesma pessoa que parou diante de sua câmera, quase exigindo ser fotografada no dia anterior. Intrigado, foi conferir a foto em sua câmera. Pegou o laptop transferiu para ele os registros. Em dois deles, lá estava a moça. Notou que no fundo das imagens havia dois barcos e, na segunda, algo tocando as águas. Direcionou o “zoom” na primeira. Havia um corpo caindo do barco puxado por uma pedra.

Voltou a imagem para o tamanho normal. A moça aparecia em primeiro plano com seu rosto enigmático, no fundo a mancha escura ao lado do barco. O registro foi praticamente na hora do por do sol.

O fotógrafo guardou os equipamentos e seguiu para o aeroporto. Ao chegar em casa, horas depois, apagou os dois registros, como quem apaga provas de um crime. Muito cético não comentou o episódio com ninguém. Preferiu evitar que alguém dissesse que havia fotografado um fantasma, uma santa ou coisa do gênero.

“Acho que ouvi histórias demais sobre as mocinhas encantadas pelo Boto Tucuxi,” pensou. Em seguida decidiu apagar também de seu computador todas as belas fotos daquele fim de tarde em Santarém. Preferiu guardá-las somente na sua própria memória, como as inúmeras lendas amazônicas que ouvira nos últimos dias. Guardou consigo a esperança de que, em algum dia, a luz que ilumina suas fotos clareiem também o seu destino, que ainda é como uma noite irritantemente escura.

 

                             



Escrito por Evandro Alvarenga às 22h42
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O trauma III  - Um ponto final

 

Cris: _ Esta é sua última chance.

Tom: _ Boa noite pra você também...

Cris: _ Ah! Sempre esqueço que você é a formalidade em pessoa.

Tom: _É questão de educação, pelo menos entre os civilizados...

Cris: _ Tá azedo, é? Pede ao garçom mais três caipirinhas que melhora...

Tom: _Azedo nada. Pelo contrário, tô até disposto a dar aula de boas maneiras. Garçom, uma cerveja pra ela, por favor!

Cris: _A cerveja tudo bem, mas não quero aula nenhuma. Só quero aproveitar este encontro casual para lhe dizer que precisamos resolver, ou por um ponto final...

Tom: _Mas antes do ponto final, é bacana dizer bom dia, boa noite, como fazem os franceses... Ah! Que saudade eu tenho de Paris!

Cris: _ Você esteve lá?

Tom: _Várias vezes...

Cris: _ E sem mim... pra piorar, nunca me falou?

Tom: _”Moi... Ne me jugez pas par le moment. Je suis, principalement l’avant et  l’après moi...”  

Cris: _Se me falou foi em francês, ou em russo. Em português você nunca me falou que esteve na França.

Tom: _Há muito mais coisas silenciosas entre mim e você que mal podemos imaginar...

Cris: _É a vida! Mas já vem você com este teatrólogo de nome esquisito...

Tom: _(rindo) Mas quem está dizendo sou eu. Esta é apenas uma frase de efeito minha. Não tem nada de Shakespeare. Mas tudo bem, só queria dizer que você não sabe nada sobre mim.

Cris: _Mas eu sei como você fica piradão na cama!

Tom: _Assim como eu não sei nada sobre você... fora dos lençóis, é o que digo.

Cris: _Ah! Meu caro, de MUÁ, só eu sei. E você nem precisa saber mais do que já sabe.

Tom: _Além dos lençóis, nunca passamos de um caso casual...

Cris: _ Se dependesse de mim, seríamos sempre eternos e perfeitos amantes.

Tom: _Talvez seja por isso que não somos.

Cris: _ Como assim?

Tom: _Os amantes perfeitos precisam muito mais do que sexo. Precisam se amar, para se amar, precisam se conhecer ao máximo.

(continua abaixo)



Escrito por Evandro Alvarenga às 09h09
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O truama III - Um ponto final

(continuação) 

Cris: _Ué, não vai citar o autor da bela frase?

Tom: _Pelo que eu saiba, ninguém nunca escreveu isto.

Cris: _ Puxa! Estou impressionada! Já transei com um poeta e não sab...

Tom: _Ah... E com quem você não transou, afinal?

Cris: _ Também não precisa ofender!

Tom: _Desculpa, não foi esta a intenção.

Cris: _Tudo bem... Até gosto deste seu ciúme.

Tom: _Não tô com ciúme. Nós nem temos mais nada um com o outro.

Cris: _ Mas quando terminamos foi por causa do seu ciúme...

Tom: _Não exatamente! O lance é que nunca achei legal, nem muito higiênico, compartilhar uma mulher com 3, 4... sei lá quantos caras eram...

Cris: _ Mas agora não tenho ninguém.

Tom: _Da minha parte, continuará sem ninguém pelo resto de sua vida.

Cris: _Cara! Não precisa jogar praga...

Tom: _Eu disse, “da minha parte”. Ou seja, comigo não vai rolar mais. Pode colocar seu alvo diante de outra seta. (Ela dá uma gargalhada)

Tom: _Qual a graça?

Cris: _Você é muito sarcástico! Outro cara, certamente diria pra eu apontar minha seta pra outro alvo.

Tom: _É que prefiro fazer uma abordagem mais sexual, que é o seu forte!

Cris: _Hum... Pelo menos isso você reconhece: o meu forte!

Tom: _Nunca neguei, suas qualidades. Aliás, eu já disse que você é sexo, sexo, sexo e uau!... Não tem essa de droga, sexo, muito menos rock in roll...

Cris: _Êpa!

Tom: _Isto é um elogio...

Cris: _Caralho! Mas eu sou muito mais que isso.

Tom: _Comigo, pelo menos, foi bastante, mas foi só isso.

Cris: _Por quê?

Tom: _Não sei. Questão de química, talvez.

Cris: _ Eu sempre te amei muito.

Tom:_ Não confunda amor e sexo!

Cris: _Você tá me deixando traumatizada. Acho que vou procurar um analista.

Tom: _Ué! Você não diz que o traumatizado sou eu?

Cris: _Acho que este mal pega...

Tom:_Êta ferro! Não acredito que você aprendeu isto na faculdade de psicologia...

Cris: _Mas eu nem me formei em psicologia...

Tom: _Nãaaao? Até hoje?

Cris: _Eu mudei de curso, no segundo período. Fui pra matemática. Acho que sou mais exatas...

Tom: _Foi uma pena, na psicologia você teria se conhecido melhor.

Cris: _ Eu já me conheço o bastante.

Tom: _ Moi, ne me jugez pás par le...

Cris: _Você já disse isso... pra que repetir se acha que não vou entender mesmo?

Tom: _Esta sim é uma citação de um poeta, Manoel Affonso de Mello. Quer dizer: “Não me julgue pelo instante. Eu sou principalmente o antes e o depois de mim”.

(cotinua abaixo)



Escrito por Evandro Alvarenga às 09h07
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O trauma III  - Um ponto final

(continuação)

Tom: _Talvez, eu tenha te julgado apenas por momentos... Aliás, nós fizemos isto, um com o outro.

Cris: _Escreve esta frase pra mim? Também em francês...

Tom: _Tá (Escreve em um pequeno bloco que tira do bolso). Pronto, eis a frase...

Cris: _ Muá...  (Antes que ela tente, ele lê junto com ela)

Tom:_ Nê mê jujê pá, par le momán. Jê suí prinspalman laván ê laprê muá.

Cris:_ E sobre nós dois?

Tom:_Não há mais “nós dois”...

Cris: _ É triste, mas...parece que tinha de ser assim...

Tom: _ (Sugerindo um brinde): Aujourd’ hui, ici, un point finale pour nous! Hoje, aqui, um ponto final para nós!    

Cris: _(Brindando): _ Vários anos depois, um ponto para nós...

Tom: _ On point FINALE!

Cris: _É! Um ponto final!

(Bebem e se calam enigmaticamente, por um instante. Levantam-se ao mesmo tempo)

Cris: _ Que merda! (Já saindo)

Tom _ Que bosta! (ele fica de costas pra ela)

Tom: _Maintenant, nous sommes, principalement, l’aprés nous!

Cris: _Isso mesmo: Agora, nós somos principalmente o depois de nós!

Tom: _Uai... Você entende francês? (ainda de costas)

Cris: _Há muito mais coisas silenciosas entre nós, que mal podemos imaginar!

Tom: _ C’est la vie!

Cris: _ É!  A vida...

Tom:_ Então... (pensa em correr ao encontro dela)

Cris:_ ...é um barco de bosta que navega num oceano de urina...  Você dizia: então? (pensando em se virar pra ele)

Tom: _ Então... Garçom a conta! Quase me esqueci... é a vida! (volta pra mesa)

Cris: _Então... Adeus!

Tom: _Adeus... então!

Ela vai embora. Ele deixa o dinheiro na mesa e sai do bar cantando melancolicamente.

Tom: _Adeus ano novo, feliz ano velho, que tudo se finalize no ano que já morreu... Putz... Ô, ô Cris, volt...

Cris: (ela ansiosa reaparece diante dele, sorridente)_Sim...

Tom:_Eu me esqueci de escrever o nome do autor daquela frase, é Manoel Affonso de Mello... (anota e entrega pra ela).

Cris: _Ah! Manoel Affonso de Mello... Foda-se o autor. Foda-se, você, Tom, suas frases e todos os seus autores, imbecis! (ela rasga o papel e sai decepcionada).

Tom: _Caraca! Que tica esquisita... mui esquisita!



Escrito por Evandro Alvarenga às 09h02
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José, o jardineiro africano

 

Houve um tempo em que José acreditou, a despeito de sua pele branca e cabelos claros, que seus ancestrais fossem negros e africanos. Sua crença se baseava no fato de que qualquer referência àquele continente – história, gente, costumes, cultura, dores, alegrias – tocava diretamente sua alma.

Hoje, José ainda acredita e sente tudo da mesma forma, apesar de ter se distanciado das questões da Mama África. Como um jovem que deixou suas raízes, atraído pelas brilhantes luzes do horizonte, ele ainda tem saudades da negritude que não ostenta na pele. Está agora como um filho pródigo, que só longe da casa do pai, se conscientiza do que ficou para traz, identificando melhor suas origens.

José crê também que descende de um jardineiro, que costumes e habilidades específicas lhe foram transmitidos geneticamente. Crê que sua alma é de jardineiro, mesmo não tendo sequer um pequeno canteiro para cultivar, da mesma forma que nunca teve o continente africano sob seus pés.

Anseia tanto pela primavera, que parece mesmo um jardineiro diante do canteiro sem rosas. Sabe que as roseiras sofrem com tantos espinhos expostos, sem poder exalar perfume algum e sem as cores maravilhosas de suas pétalas.

Outro dia, eu disse a José que o que ele precisa é de uma prévia do verão, para se sentir distante da secura do inverno e não exatamente da estação das flores. José disse, emblematicamente, “pode ser que sim, pode ser que não”.

Ele sabe que minha idéia não resolve nem esclarece nada. Continua com o forte desejo de que chegue logo a primavera. Que o clima mude. Que a paisagem seja outra. Que os horizontes tenham permanentemente aquele por do sol, que na África jamais assistiu. Que este velho mundo enfim, dê lugar a um mundo novo, imune a mudanças de estações. E que seja bem melhor do que possa acreditar ser possível... “e será”, diz ele.

Algo lhe diz, que não basta cuidar do jardim da sua alma. Mesmo que seus olhos daltônicos nunca tenham visto uma flor com toda suas nuances e exuberância de cores, continua acreditando que sua estação virá. Que ela será uma obra prima, vera, primeira e única.

Mas é preciso transcender. Por mais que se pode, se adube, se regue, José não ouve o reggae da estação das flores. Ouve apenas a voz de Tim Maia insistindo que “é primavera!”

Como amigo, eu digo a ele que, de fato, desde a noite do dia 22 de setembro já é... Porém, sua africana alma de jardineiro continua sem flores e continua esperando a primaveril aurora transcendente. Alma gêmea de José, eu, enfim o compreendo, sinto que transcender é preciso.

Por não ser mais poeta, saio calado sob a chuva, chutando as poças d’água pelas ruas de Bras-ilha, minha “Terra dos Homens”. Aqui, como diria Antoine de Saint-Exupéry todos “esperamos a aurora como um jardineiro espera a primavera.”



Escrito por Evandro Alvarenga às 09h17
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Qenqossô ou Qenqotô?

 

Quando digo que eu sou qualquer coisa, talvez seja por um recurso linguístico apenas, ou falta de costume de usar outro verbo. Digo que sou, contando com a possibilidade de mudar o tempo do verbo para o passado e para o futuro de acordo com a conveniência. Mas será que o eu que fui, é o mesmo que hoje diz “sou”? Será que serei, num futuro mais distante, o que sou hoje? E até quando serei o que sou, ou que fui?

Então o que fui, o que sou e o que serei podem ser diversas coisas, mesmo que abrigados no mesmo corpo. A expressão “eu sou” deveria ser usada apenas pelo Deus que segundo o livro de Êxodo se apresentou a Moisés como “eu sou aquele que sou”. Aquele que não sofre mutações nem se submetido às questões do tempo, do espaço, da convivência, da lei de ação e reação. Aquele que não está, não foi nem será, mas é onipresente, onisciente e onipotente.

O amigo J. Graças mostra isto nas suas pinturas. Em algumas, através da luminosidade focada, imutavelmente, em um lado das telas, retrata o que sente, e acima de tudo o que vê e sente com os olhos da fé. Em suas telas há um “comando maior”, “um controle absoluto”. Tenho uma na memória, justamente a que ilustra este texto. Nela a fonte oculta em um jarro, aparentemente de barro, enche outros jarros que se transbordam, gerando a cascata, que alimenta o rio. Através desta imagem, encontro o famoso “Eu Sou”, sem limites temporais.

Por mais que façamos jarros para guardar água para os dias de seca, ou que organizemos sistemas de distribuição do líquido da vida, não o podemos gerar. Por mais que nos julguemos líderes, reis, maiorais, e mesmo que “estejamos”, não somos, não seremos fonte de vida, nem sequer de garantia de vida. Na verdade não somos nada.

Ao contrário dos costumes das instituições, das situações, que criamos para ter a sensação de comando e domínio, nada está absolutamente sob nossa direção absoluta. Qual instituição, religiosa, civil, científica, filosófica ou militar pode garantir qualquer situação, a despeito das intempéries climáticas, das ações de outras instituições e do próprio tempo?

Penso que nunca deveria dizer: “eu sou Evandro”, “eu sou saudável”, “eu sou bonito”, “eu sou graduado”, “eu sou rico”, “eu sou chefe” “eu sou dono”... Deveria optar sempre pelo verbo estar, pois eu apenas estou Evandro, saudável, bonito, graduado... Por mais que armazene o que recebi, jamais serei fonte. Estou apenas jarro de barro, que pode se quebrar e portanto nem sei se estarei jarro, talvez, apenas barro ou pó.

A fonte é! Quem é, É! O que É, não muda, não deixa de ser. Tal estado não passa. Sei que estou jarro, estou lutando para ter água (ou a vida), herdar a mim mesmo, herdar a terra que sou e que voltarei a ser. Isto, digo que sou: Terra, pó, apenas uma nanopartícula do universo, criação daquele que É tudo e que faz do pó, jarro de carne e osso.

Não importa se o coloco no centro, na esquerda, na direita, no alto ou em baixo das telas que pinto com a vida que levo. Ele sim, o “Eu Sou” é eternamente. Por mais que isso me aflija, dele dependo, como dependo dos que estão como eu, partículas felizes ou não, levadas pelo vento da música divina.

Escritor, blogueiro, jornalista, funcionário público, ator, encenador, jarro que ainda não se quebrou. Ou melhor, poeira cósmica que ainda não retornou às origens. Como perguntaria o bom mineiro que existe em mim: qenqossô? A questão deveria ser: qenqotô?

Pode ser que isso ajude a responder aos amigos que insistem em me perguntar algo que julgo bem complexo como “pronqovô”, na boa intenção de me indicar caminho seguro... Aliás, o que é o caminho se não o ato de caminhar? O que é a segurança senão uma vontade de não ser apenas uma metamorfose ambulante em busca de ser, ao invés de apenas estar? Bem, antes que isto chegue noutra praia, muito além do alcance dos olhos meus, fico por aqui, perguntando diferente, mas ainda sem a resposta para ela: Qenqotô?



Escrito por Evandro Alvarenga às 17h05
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O chuvaréu    

 

José acordou mais cedo, diferentemente dos outros dias, em que era difícil abrir os olhos e deixar a cama. Neles, com a obrigação de se arrumar rapidinho para ir para a escola, acordar era complicado. Não que tivesse algo contra as aulas, pelo contrário. Ele mesmo não sabia explicar a preguiça, se gostava tanto do ambiente escolar.

Desta vez, misteriosamente, ninguém precisou chamá-lo. Entrou na cozinha. Disse um enrolado “bença mãe” e ouviu dela o comentário mais inesperado: “Pode voltar pra cama, tá chovendo demais e pelo visto, ninguém vai poder sair de casa hoje.”

Nem mesmo o padre Magelinha, com sua distribuição de balinhas durante os divertidos sermões sobre as maravilhas do céu, conseguia alegrar tanto José. “O chuvaréu não vai deixar ninguém ir prá escola!” Com o fogo de um novo convertido, repetiu a boa nova aos sete irmãos espalhados nas trevas dos inúmeros quartos do casarão. 

Diante de tão clara luz, até os mais novos, Antônio, Tetê, Cidinha e Giovani, que nem estudavam ainda, despertaram sem esforço e com alegria. Todos buscaram perspectivas próprias da tempestade olhando da varanda, ou da escada da entrada. Não havia muitos relâmpagos nem trovões, o que deixava o aguaceiro menos assustador e menos interessante para eles.

Discutindo sobre como a escola ficaria, chegaram à cozinha. Tomaram café com leite. Comeram a deliciosa quitanda da tia Zenília, juntos, como se fosse um dia de domingo. Sem pressa, sem medo de sujar o uniforme da escola. Aliás, José, como os irmãos menores, nem sequer tirou o pijama de flanela... Mas a Maria, devidamente uniformizada queria ir para o colégio, de qualquer jeito. Protestou muito durante o café, mas como foi proibida, resmungou até se deixar levar pelas nuances de um novo dia.

Os oito irmãos acharam, rapidamente, a melhor forma de aproveitar a folga, com as limitações impostas pelo “chuvaréu”. As meninas, comandadas pela romântica Cássia, queriam brincar de passar anel, mas com a resistência do Desinho, desistiram. Então, dois grupos se formaram.

As “Luluzinhas” se revezaram saltitantes pelas seis janelas do quarto maior. Depois, com bonecas nos braços, resolveram fazer um batizado. Chamariam a mãe, ou a Maria Preta, que adorava representar e cantar, para ser o padre na cerimônia. Aos trancos e barrancos foram levando a brincadeira, com um pé na realidade e todos os outros nos sonhos.

Um pouco menos organizados, os “Bolinhas” botaram os oito pés no chão de tábuas da varanda e iniciaram uma partida de futebol com uma bolinha de meia. Os jogadores trocaram as camisas imaginárias várias vezes, até que a melhor escalação de Cruzeiro e Atlético fosse igualmente distribuída. A decisão daquele campeonato mundial entre Galo e Raposa produziu discussões, comemorações e brigas em sequência. Até que um gol de mão, “roubado” na opinião de José, encerrou a peleja e dividiu os atletas, em amigos vitais e inimigos mortais.

Dois foram brincar com carrinhos de rolimã no porão, na área abaixo da escada. Os outros dois encontraram pernas-de-pau penduradas do lado de fora da varanda. Sem permissão para usá-las dentro de casa e sem poder sair na chuva, foram para o porão também. A área foi compartilhada sem maiores problemas pelos grupos, já menos rivalizados.

Diante da ameaça de duas Luluzinhas dissidentes do quartão, os Bolinhas se uniram novamente. Raras vezes foram tão parceiros. Rejeitadas pelo povo do porão, as meninas reconquistaram a confiança das companheiras. Outras disputas se desenvolveram, mas na hora do almoço, nenhuma cizânia persistia.

Com o apoio da mãe e da Maria Preta, decidiram que todos participariam do batizado das bonecas, que aí sim, teriam pais, mães, padrinhos e madrinhas como mandava o catecismo da professora Assunção. A festa, marcada para o final da tarde, teria sucos, bolo de fubá, chocolate quente e os mágicos biscoitos de chuva.

Depois do almoço, a diversão rolou solta por todos os cantos do casarão. Na hora combinada para o batizado, todos haviam tomado banho e vestido roupas parecidas com as de domingo. O batizado foi perfeito. Alguns até rezaram de verdade, junto com o “Padre-Mãe”. A festa foi deliciosa e se transformou num bailinho animado pela Maria Preta, ao som das músicas de Jerry Adriani, Roni Von e The Fevers.

José, como os outros irmãos, mal percebeu que a noite chegara e já estavam na cama. Ainda ouviam o barulho da chuva no telhado que, aos poucos, se misturava com o da água na bica do monjolo...

 

José acorda tentando entender por que sonhara com aquilo durante toda a noite. Decide continuar na cama até mais tarde. Resolve também não ir trabalhar. Desliga o celular e vai caminhar no parque. Sem uma intempérie catastrófica, ou uma justificativa tempestuosa para faltar ao trabalho, José resolve aproveitar o dia sem compromisso com nada.

Mesmo adulto, ele não entende sua repentina preguiça de ir trabalhar, apesar de gostar do que faz para ganhar a vida... Talvez entenda, mas prefere não deixar transparecer, que é uma eterna criança que se rebela contra o peso das “obrigações” diárias.

Admite a urgente necessidade de unificar os grupos do corpo, da alma e do espírito dentro de si, antes que um império qualquer o esfacele por completo. No parque, bota a bola pra rolar, sem se lembrar de mais nada. Depois, quem sabe vá ao cinema, ao teatro, a uma festa e reze agradecido pelas tempestades, que surpreendem a todos os viventes.

Para Seu Juca, Dona Lucica, Edelveis, Edésio, Eliana, Elvira, Evane, Ernani, Everaldo e os sobrinhos todos.



Escrito por Evandro Alvarenga às 13h12
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O Trauma II - Foda-se o rei 

Cris:_Este é o velho Tom de guerra... tão concentrado no meio de uma loja de CDs!

Tom:_Oi Cris! Boa noite! Mas isto aqui também é uma livraria, notou?

Cris:_Eu notei, sim! Aliás, eu noto tudo a minha volta. Ao contrário de você que...

Tom:_Olha eu aí, gente! O tempo passa e eu ainda sou mel na sua boca...

Cris:_Não conseguiu notar que estava sendo observado, seguido há quase uma hora...

Tom:_Sério? Quem afinal me observa com tamanha dedicação?

Cris:_Eu, seu lerdo! Tem mais de uma hora que estou te seguindo aqui nesta... livraria.

Tom:_Mas não tem nem quinze minutos que entrei aqui, só estou dando um tempo até a sessão das nove...

Cris:_Meia hora, uma hora, não importa! O fato é que, é tempo demais pra ficar atrás de você sem ser notada.

Tom:_Mas sinceramente, não te vi. Me desculpa. Estava ouvindo uns CDs...

Cris:_É, só você mesmo, Tom. Mas você ainda compra cd, quando poderia baixar as músicas na internet?

Tom:_Não gosto de pirataria. Além do mais, nada substitui o prazer de pegar o CD, olhar o encarte, as letras das músicas, conferir a ficha técnica...  Olha aqui, você conhece esta cantora, a Camille?

Cris:_Não. Nunca ouvi falar, mas já sei que não gosto dela. Deve ser uma daquelas músicas que só você ouve.

Tom:_Só eu? Quanta honra! Isto quer dizer que fizeram este CD só pra mim???

Cris:_Deixa de ironia... É que são poucas as pessoas que gostam das mesmas músicas que você. Daqui a pouco vai me mostrar um cantor senegalês, um de Honolulu, um tal de Wagner Lee...

Tom:_É Vander Lee...

Cris:_É, sei lá... depois vai falar de tal de Céu...

Tom:_Boa idéia... será que já chegou o cd novo da Céu?

Cris:_Vá você e ela pro inferno...

Tom:_Uau! Que fúria é essa? Já sei, o namorado te abandonou.

Cris:_A fila anda. Mandei ele pastar. Era outro banana, que nem você mesmo!

Tom:_Muito obrigado pela referência fálica... hum...

Cris:_Você é um babaca mesmo! Se acha...

Tom:_O problema é que você não me acha mais, por aí no meio da sua fila, né?

Cris:_Continua aí ouvindo seus cedezinhos vai...

Tom:_Obrigado pela compreensão!

(continua abaixo)



Escrito por Evandro Alvarenga às 15h45
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O Trauma II - Foda-se o rei 

Cris:_Camille!!!  Isto lá é nome de cantora? Parece mais garota de programa...

Tom:_Voltou a falar comigo?

Cris:_Não, tava aqui pensando se você já tem aquele CD do Rei...

Tom:_Do finado rei do pop... “Who’s bad?”

Cris:_Não cara, do único REI...

Tom:_Este eu não conheço!

Cris:_Do Rei Roberto Carlos...

Tom:_kkkkk! Do rei da MPB, Música Popular Breganeja.

Cris:_Da música romântica, poética...

Tom:_Poética???

Cris:_É! Poética, melodiosa, harmoniosa... Escuta! Eu te dou o ingresso e pago o jantar depois, se você for ao show comigo amanhã.

Tom:_Ao show? Que show?

Cris:_Ao maior evento artístico da década! Ao Show dos cinquenta anos do Roberto Carlos.

Tom:_Cinquenta? Mas este cara já deve ter uns 70 ...

Cris:_É Cinquenta anos de carreira!

Tom:_Graaannde bosta!

Cris:_Olha Tom, o jantar depois do show pode ser no lugar que você escolher... do jantar podemos ir...

Tom:_Não vou mesmo! Nem mor-to...

Cris:_Ah! Já sei você tá solteiro de novo... por que não?

Tom:_Já disse: Não vou, neim...

Cris:_Eu já tava desconfiada que você não gosta mais da fruta, mesmo!

Tom:_Dessa fruta insossa e podre você sabe muito bem que nunca gostei, nem um pouquinho.

Cris:_Não era isto que me dizia nas nossas horas calientes...

Tom:_Tá doida? Eu to falando da fruta Roberto Carlos...

Cris:_Mas que falta de respeito, com o Rei...

Tom:_Calma, rei não é Deus!

Cris:_Mas você não pode chamá-lo de fruta, podre...

Tom:_E insossa! E olha que estou sendo carinhoso, por respeito aos idosos...

Cris:_Não vai, nem pela companhia...

Tom:_Não vem, não! Se era isto o que você queria desde que resolveu me seguir, já sabe! Não vou a show  nenhum roberto, nem pra receber um cachê de Um milhão! Vai atrás do banana que você CHUTOU. Ou seria “p” no lugar de “t”. Aposto que ele vai...

Cris:_Foi justamente por isto que eu dispensei o otário!

Tom:_Por causa do “p” no lugar do “t”?

Cris:_Não, cara! Foi por que ele não vai ao show comigo...

Tom:_Aleluia! Quer dizer que nem toda a humanidade tá contaminada com esse mal.

Cris:_Se bem que eu acho que ele vai, só que com a mulher dele...

Tom:_Ih! Então o problema é mesmo uma pandemia! O Ministério da Saúde adverte que o vírus RC, mais conhecido como gripe robertina, já se alastrou por...

Cris:_Não entendo toda a sua aversão ao Roberto Carlos...

Tom:_Deve ser a mistura de tudo... Primeiro por que não gosto desses produtos da indústria cultural que nos são enfiados goela abaixo. Cria-se um conceito, paga-se um pouco pra mídia tocar, depois pra repetir, repetir... Com o tempo melhora-se o conceito: de iê,iê,iê, para jovem-guarda, e mais repetição... Muda-se de novo o conceito, mas o produto é a mesma merda! É como coca-cola, quem consome acredita que é bom e indispensável, nem nota que vicia e mata!

Cris:_Tá bom, não precisa armar o palanque de militante anti Mcdonald e fast-food, não! Já li todos seus panfletos.

Tom:_Cá pra nós, o que o RC canta, um monte de cantores como Waldick Soriano, Odair José, Fernando Mendes, José Augusto, Márcio Greik também cantavam... As músicas que ele canta não são diferentes das que Reginaldo Rossi, Falcão, Wando e o Amado Batista cantam...

Cris:_E daí?

Tom:_E daí que nenhum deles é chamado rei por causa disso. Entende? Cá pra nós, a música romântica do Márcio Greik: “Eu já não consigo mais viver dentro de mim. E viver assim é quase morrer. Venha me dizer sorrindo que você brincou, e que ainda é meu, só meu, o seu amor...” Isto pode ser mais legal que as do Roberto Carlos. Que pra piorar tudo é um chato de galocha, boçal, metido... Irk!

Cris:_ Pera aí, na minha opinião, ele não é nada disso. A vida dele mostra...

Tom:_Aliás, se a vida dele tivesse algo tão bom a mostrar, por que será que ele proibiu a publicação de um livro com sua biografia?

Cris:_Ué, por que era uma biografia falsa?

Tom:_Se uma biografia, com dados históricos, pesquisados, com depoimentos, jornalísticamente correta é uma mentira, é por que a história dele é toda falsa! Mas isto também não me interessa! Ele pode ser e fazer o que quiser...

Cris:_É, “do artista importa-me a sua arte”, não é assim que você diz?

Tom:_Do ar-tis-ta, digo eu! Ou seja, do RC não me interessa nem isso.

(continua abaixo)

 



Escrito por Evandro Alvarenga às 15h42
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O Trauma II - Foda-se o rei

Cris:_Eu sempre achei que você tinha um trauma.

Tom:_Sim eu sei disso! Você sempre me dizia. “Você tem algum trauma com carro”...

Cris:_Agora tenho certeza!

Tom:_Bravo! Madame Freud ataca de novo! Agora com as garras da certeza! Que maravilha! Aposto que vai propor uma terapia sexual, que te inclua, para que eu seja curado!

Cris:_Alguém deve ter invadido sua privacidade, quando você ouvia músicas do Rei, e...

Tom:_Na verdade, o tal RC sempre invadiu a privacidade de todos nós...

Cris:_Isto, desabafa, que é bom!

Tom:_Desde que eu me entendo por gente, ele invade as casas dos brasileiros, todos os anos nas noites de natal...

Cris:_Eu sabia! Foi no natal, o seu trauma!

Tom:_Eu queria ficar acordado para ver o Papai Noel chegar, mas ele invadia o ambiente com aquelas músicas chatas na televisão... “quando eu estou aqui...”

Cris:_Que lindo! To até emocionada!

Tom:_”Eu sinto este momento...” E não tinha sono que resistisse. No dia seguinte continuava com a vontade de ver o papai Noel... Restava esperar para o próximo ano...

Cris:_O novo show do Rei...

Tom:_Restava esperar que seu rei morresse no carnaval, em pleno reinado de Momo e que no próximo natal não invadisse mais minha vida!

Cris:_Mas, pelo lado bom! Vc não teve de descobrir que papai Noel não existe de maneira traumática.

Tom:_O pior trauma é ter de ouvir o que não se quer ouvir durante toda a vida. Tipo este seu papo doutora froidiana de araque.

Cris:_Pensa bem: o que seria do mundo sem o Roberto Carlos?

Tom:_Já pensei! Seria perfeito! Ainda mais, que já conheci o mundo com esta desgraça...

Cris:_Caramba! Isto é... é... é pecado sabia?

Tom:_Pecado? Mas desde quando vc é religiosa?

Cris:_Eu não sou, mas... mas... mas o Rei é.

Tom:_Foda-se o rei!

Cris:_Nossa! A menina ficou nervosa, heim?

Tom:_Ah! Vá se fuder também!

Cris:_Uh! Enfim uma sugestão boa... Vai ser antes ou depois do show do rei?

Tom:_Putz! Já disse: Foda-se o rei! (sai)

Cris:_Ei, espera...  (cantando)  “Não suporto mais, você longe de mim! Só quero que você, me aqueça nesse inverno, e que tudo mais, vá pro inferno! Ô u ô! E que tudo mais...”

Tom: (ele grita de longe)_Vá pro inferno!

Cris:_Meu Deus! Ele sabe a letra da música do Roberto!!! Me espera aí...

(Final) (?)

 

 



Escrito por Evandro Alvarenga às 15h37
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