 JOSÉ, O DIOTA E O BBB “Tudo bem, eu reconheço que estou ficando velhinho. Mas não sou do tipo ranzinza, que reclama de tudo, que acha que só as coisas de antigamente eram boas etc e tal. Acho que sou até moderninho...”. Disse-me José, logo na primeira conversa que tivemos sobre o projeto de redigir suas memórias.
Primeiramente, o achei um tipo chato mesmo. Alguém que, aos 50 anos de idade, contrata um jornalista para redigir e possivelmente publicar sua biografia, sem ser uma figura pública de renome, um artista famoso, ou uma dita celebridade, seria, no mínimo, excêntrico ou... Mas estava precisando de grana, por isto topei a empreitada, evitando conceitos.
Rompida a barreira inicial, passei a achar que José era a personificação de O Idiota, de Dostoiévski. Depois ele se transformou em algo entre Dom Quixote e Sancho Pança da obra de Cervantes. Passada a fase em que o comparei com Pedro Camacho – o novelista, criado por Vargas Lhosa em Tia Júlia e o Escrevinhador, passei a vê-lo como uma pessoa interessante.
Logo já o considerava um dos caras mais simples, mais honestos, mais controversos, mais libertários, mais divertidos, mais irônicos, mais sérios e mais comuns que conheci. Gastamos quase um ano discutindo as linhas gerais do projeto. Ele me forneceu documentos e contatos de parentes, amigos e outras referências. Só depois eu faria o registro dos relatos dele.
Mas antes que fizesse isso, José simplesmente me pagou pelo trabalho feito e pediu que abortasse o projeto. No entanto, ele se tornou um grande amigo e passamos a nos encontrar para jogar conversa fora, ir ao estádio de futebol, ao cinema, ou mesmo para beber caipirinha, ou cachaça.
Hoje, José é para mim uma dolorosa saudade, além de um projeto pessoal. “E agora: JOSÉ!” Quero que seja assim, com dois pontos e exclamação, o título do livro que entre lágrimas escrevo nas horas vagas. Quero homenagear meu grande amigo, que queria morrer dentro de um teatro ou de um cinema, “a procura de si mesmo”, ele adorava enfiar esta frase final do livro que mais gostava do português Saramago em quase tudo.
Meu amigo José era tão fantástico que tanto desejou isso, que acabou morrendo na platéia de um teatro. Seis anos após nosso primeiro encontro, ele fechou os olhos para este mundo, bem no final da encenação de “Auto da Ilha Desconhecida”, que ele mesmo adaptara do texto do outro José – o Saramago, para seus amigos do Movimento dos Sem Teatro.
O livro, assim como esta crônica, será uma homenagem a todas as pessoas maravilhosas (puras, honestas, controversas, libertárias, divertidas e sérias) que deixamos de conhecer e por isso são ficção na nossa na vida. Principalmente àquelas com as quais deixamos de conviver, diariamente, por causa de programas imbecis da TV, como o tal “BBB – Bestial e Brutal Banalidade”, conforme a definição daquela saudosa ilha desconhecida, que insisto em chamar de José!
Eu não assisto ao BBB nem mesmo para falar mal. Mas me sinto agredido toda vez que abro um jornal ou um site de notícias e vejo publicados, como se fatos noticiáveis fossem, os relatos e fotos do que acontece lá na casa do... grande irmão Brasil. Por isso compartilho um link para a poesia de cordel de Antônio Barreto, cuja obra é mais uma que merecia ocupar espaços na TV:
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Escrito por Evandro Alvarenga às 21h37
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O fiasco Em “O que a vida quer é coragem”, o jornalista Ricardo Batista Amaral comenta, na página 49 do livro lançado em dezembro, um fato da época em que nossa presidente Dilma Roussef era militante de esquerda, ligada à organização Colina. O fato que me chamou a atenção, é o que ficou conhecido pelos próprios militantes como o “Fiasco de Guanhães”. Trata-se de uma das ações comandadas por Ângelo Pezzuti e Jorge Nahas, responsáveis por angariar fundos para o grupo revolucionário. Segundo o texto de Amaral, “no dia 23 de agosto de 1968, viajando em dois carros com placas frias, vestindo fardas da PM adquiridas legalmente por um sargento companheiro... seis militantes da Colina cercaram um jipe da Secretaria da Fazenda na estrada para a cidadezinha de Guanhães”. A organização cuja sigla remetia ao relevo de Minas e aos guerrilheiros na montanha, estava então com apenas 5 meses de existência. Aquela que foi sua primeira ação expropriatória “teria sido um sucesso não fosse um detalhe: naquele dia, o jipe da Pagadoria não transportava um centavo sequer, apenas papéis sem valor”. Mas não é o fato que só conheci agora, tantos anos depois, que me chama a atenção. É como ele foi chamado pelos militantes! “O que é isso companheiro?” Provavelmente você queira me perguntar. Antecipo-me: “o fiasco de Guanhães” é o que me motivou a escrever esta crônica. Somos uma cidade com nome indígena, uma justa homenagem, certamente. Mas onde estão os achados históricos que mostrem mais sobre os Guanahans? Perdidos! Então, seríamos o fisco da tal tribo “que corre” como o próprio rio Guanhães? Aliás, o rio na atual situação geográfica está quase todo no município de Dores, nosso antigo distrito. No aprazível Prado das crônicas de Márcio e do saudoso Roberto Drummond, somos para sempre “São Miguel y Almas de Guanhães”. Mas nosso santo arcanjo nada mais é que uma imagem resgatada das cinzas da Capela de Nossa Senhora do Rosário, destruída pelos silvícolas. Por outro lado, o ouro das minas das Almas, do Graipu e do Candonga se foi rapidamente. Ficou apenas o brilho distante do minério, agora de ferro, alimentando especulações e ganâncias. Antes mesmo da nova era de investimentos, já temos até joalheria roubada com estardalhaço no centro da pacata cidade e problemas ambientais assustadores. Seríamos o fisco da exploração desordenada? Um candidato a vereador na cidade disse-me há poucos dias que “a política local está idêntica ao futebol mineiro. Ou se é Galo, ou...” Continuamos como na época da dita dura vida política dos tempos de Arena e MDB. Seremos o fisco da democracia? Não gosto de lamentar nossas mazelas. Prefiro buscar na minha terra o que ela tem de bom. Por isto apelo a nossa capacidade de reflexão. O que podemos fazer para deixar der ser um fiasco? Esperar que a chuva cesse, que o sol surja, que Deus nos agracie com exploradores generosos? Que o criador tire de nós o medo de ser derrotados e a pecha de “corredores”? Como possível resposta, ou caminho para ela, sugiro a frase do escritor e historiador baiano Jacob Gorender, dita na prisão à Dilma Roussef. O autor de “Combate nas Trevas” disse à companheira nos porões da ditadura militar que os torturava: “cuidado, só você pode se derrotar.” Para quem precisa de mais incentivos para tomar as rédeas do próprio destino, nada melhor que a leitura do livro “o que a vida quer é coragem”. Que já traz no título uma frase de Guimarães Rosa, citada pela torturada Dilma, no dia em que se tornou a primeira mulher presidenta do Brasil. A mineira suportou, superou e transformou o fiasco de sua própria prisão. Ouça a música de Paulinho da Viola que Dilma ouvia na prisão: <iframe width="560" height="315" src="http://www.youtube.com/embed/cQdyMPLfyiA" frameborder="0" allowfullscreen></iframe>
Escrito por Evandro Alvarenga às 21h15
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A palangana dourada
Por mais ralo que seja o café, há sempre utensílio e circunstância em que se pode sorvê-lo como parte do manjar dos deuses Quando criança considerava a cozinha da casa de minha avó um lugar mágico. Um dia, já na adolescência, buscando a magia perdida, entrei na casa. Que decepção! O cômodo tinha uma prateleira em um canto, com alguns copos e outros utensílios pendurados. Um banco de madeira encostado na parede de frente para o fogão de lenha e para a porta do quintal. Uma porta à esquerda do banco dava acesso à sala e à entrada da casa. Outra porta levava aos três quartos conjugados. As paredes eram brancas com um canto escurecido pela fumaça e o piso de tijolos de barro. Sem a Dind’Inhá, a cozinha era só um lugar rústico. O cômodo era como um sambódromo abandonado. Usando a poesia do compositor Vander Lee, era “Um diário perdido na areia ...” “pista vazia esperando aviões”. A lembrança de um objeto que ficava pendurado na prateleira alimentou minha alma como “o lamento triste das sereias esperando o naufrágio das embarcações”. Uma tigelinha de alumínio com alça comprida, parecida com uma pequena frigideira funda. Era usada por minha avó para retirar a água fervendo da panela e despejá-la no coador de café. “Juraci, pega a palangana pra mim, que vou passar o café”. A frase, que ouvi tantas vezes, ressoou na minha memória como um abre-alas para a folia de momo. Meus pais, irmãos, alguns primos e tios costumávamos ficar no banco e em cadeiras ao redor do fogão. Olhando o fogo na fornalha que fervia a água do café, ouvíamos histórias contadas pelos adultos das quais só me lembro dos fechos dados pela Dindinhá: “Cuá, isto é bobajada à toa”, “Seja feita a vontade de Deus”, “Quem anda com Deus não tem medo de assombração” e tantas outras frases que me acompanham até hoje. O café era servido com quitanda da Tia Zenília. Acho que era o café mais fraco que já tomei, mas tinha um sabor que nunca mais senti. Os copos esmaltados nem sempre eram suficientes para todos e assim, alguém era servido na palangana de alumínio. Nós crianças adorávamos a deferência, casual ou não (nunca vamos saber), de receber o café da dona Inhá Moça naquela caneca especial. Até mudávamos de lugar, para ficar por último, o que nem sempre adiantava, pois às vezes a palangana era entregue aos primeiros. O fato é que havia um tipo de rodízio e cada dia um de nós era premiado com o objeto, sempre de forma intercalada O café dentro dela, fazia que seu interior ficasse dourado e por isto, toda vez que eu era o felizardo dizia aos meus irmãos, “hoje eu tomei café na palangana dourada!” Sentia-me o mais honrado dos nobres. Ao voltar para casa imaginava-me no centro de um cortejo real e dormia como um príncipe. Aos doze anos, quando sofria os tremores e insônias da febre reumática e todos os efeitos horríveis dos medicamentos, passei a receber a visita da minha avó todos os dias pela manhã. Com a desculpa de saber como eu tinha passado a noite, ela levava para mim uma gemada com leite e canela, que ficava ainda mais deliciosa na palangana dourada, que continuava cheia de encantos para o adolescente de então. Hoje, a casa e a cozinha mágica da dona Inhá não existem mais. Mas toda vez que como um pedaço do “pão de Cristo” com frutas cristalizadas, preparado pela minha mãe, é como se recebesse a palangana dourada transfigurada. Tenho a convicção de que ninguém pode tirar de mim e de meus irmãos, o doce legado de Ana Eufrásia Pereira, dona Inhá Moça, ou simplesmente Dindinhá. Há poucos dias, de forma indireta, minha mãe – dona Lucília Eufrásia me ensinou que independente dos percalços deste mundo, viver é sempre uma deliciosa e indecifrável fantasia. Creio que ela é portadora da teoria de vida de minha avó. Falo da teoria não escrita nem defendida que garante que, por mais ralo que seja o café, há sempre utensílio e circunstância em que se pode sorvê-lo como parte do manjar dos deuses. Que você use sua palangana dourada e se sirva de muita saúde, paz e toda a felicidade possível durante este ano de 2012!
Escrito por Evandro Alvarenga às 21h47
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 A estranha cena Uma artista recentemente instigou minha mente propondo, por ocasião das festas natalinas, a montagem de um presépio diferente. Nele os animais seriam representados por seres humanos e os outros personagens seriam representados por animais. Ou seja, Maria, José e o próprio Jesus, naquele presépio inusitado seriam representados por gato, cachorro e ovelha, respectivamente. Mas, poder-se-ia usar outras espécies, de acordo com as preferências do “freguês”. Tentando digerir a ideia com cautela, por saber-me em solo sagrado, tive um sonho com o inusitado presépio. Nele, eu era o jumento. Ao meu lado, uma moça (vaquinha) e outras pessoas representando animais. Diante de mim, o Filho de Deus recém-nascido, representado por uma ovelha... Como quem acaba de chegar num mundo desconhecido o Jumento, diz: “Ora, ora, ora! Por que será que o artista-criador me fez assim, um homem limitado em corpo de jumento? Deixa pra lá... Agora estou com fome. Ah, pelo menos ali tem um capim razoável. Mas tinha de estar tão longe? Sai pra lá, vaca intrusa, eu cheguei primeiro. Amanhã farei uma cerca para garantir a minha plantação. Minha sim, pois eu cheguei primeiro... Que artista, chato! Tudo bem! Fico aqui durante esses dias. Em compensação, assim que passar esse período de Nata, demarcarei toda a plantação de capim que eu conseguir e ai de quem tentar me impedir... Mas afinal, alguém pode me dizer por que esta gata e este cachorro tanto paparicam esta ovelha folgada? E o que a dona ovelha está fazendo na manjedoura onde deveria ser colocada a minha comida? Já resolvo isso...” O jumento-homem tanto fez que conseguiu criar com os animais “maiores” uma guerra santa contra os animais menores (gato, cachorro e ovelha em destaque no presépio). Os bichos-humanos lutaram com suas armas secretas, até conseguirem retirar a ovelha da manjedoura e expulsar os bichos menores do lugar de destaque no presépio. Depois fizeram uma festa para comemorar uma nova era, na qual, já não terão mais de reverenciar o Cordeiro da manjedoura. Não precisarão deixar de evoluir e prosperar segundo seus próprios conceitos. Poderão conquistar novos capinzais, montanhas, mundos inteiros. Aliás, para garantir o capim de seus filhos, agora poderão buscar toda riqueza, poder e ostentação que quiserem, sem qualquer peso na consciência. Na nova era, o céu, ou o teto da gruta do presépio não seria mais o limite. Depois de algum tempo eles dominaram e estragaram a gruta inteira. Algumas espécies de plantas e animais deixaram de existir. Sentindo medo do fim, buscaram um ritual para atrair prosperidade. Rejeitaram a proposta da cabra de enfeitar a casa com uma manjedoura. Isto iria gerar uma adoração inadequada de um objeto. Depois de tantas propostas rejeitadas, eu - o jumento-homem-líder decretei: “A partir de agora, aqui no meu reinado, digo, meu presépio, na última semana do ano será montada uma árvore, do tipo que nunca se viu por aqui. Para atrair dias melhores, a árvore será de tamanho médio e terá folhas de capim. Sobre as folhas de capim (que serão coladas na árvore), será aspergida uma boa quantidade de grãos de açúcar. Ao final da semana que passa a ser denominada Natal da Prosperidade, a árvore será oferecida em um banquete e todos os animais devem se deliciar”. A cada ano, a comemoração do nascimento de Cristo ficava mais luxuoso, mais requintado e adquiria significados mais diversos... A cada novo sentimento de incompreensão, a cada vazio sentido, novos costumes eram acrescentados e depois regulamentados em lei. Eu, jumento-homem-líder entendi, enfim, que esta era minha missão: fazer com que as festas natalinas fossem cada vez mais maravilhosas, até que ninguém mais se lembrasse da estranha cena que é uma criança nua dormindo numa manjedoura, rodeada por animais, dentro de uma gruta fria e úmida. Acordei assustado no meio da noite. Abri bem os olhos. A TV ligada mostrava uma festa com pessoas bebendo e se presenteando ao som de “hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa...” E pensei: essa comemoração capitalista não será mais, para mim, o Natal do meu Salvador! Voltei a dormir e, ao amanhecer, acordei com uma vontade incontrolável de ler “a estranha cena” na bíblia e cantar bem alto: “...bendito seja o Cordeiro!” Continue refletindo: “Deus inventou a liberdade: o diabo, a gaiola”. “O que a mente não vê os olhos não enxergam”. – (Frei Betto, em Minas do Ouro – Ed. Rocco – 2011) JESUS NASCEU! SEJA FELIZ HOJE E SEMPRE!
Escrito por Evandro Alvarenga às 17h58
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Há quase quatro anos, um amigo que se diz “Lost” nas gerais de Guanhães informou-me que a cidade perdera um de seus mais ilustres moradores de rua. “O nosso doido preferido: Luquinha”, disse ele. Mesmo quem nunca foi contemplado com uma “pedrada” do Luquinha, certamente já ouviu histórias sobre suas perseguições a um alvo humano (ou desumano?) que nunca conseguiu atingir. O amigo questionou em seu e-mail sobre quem vai conter os ânimos das criancinhas que insistem em perambular pelas ruas centenárias da cidade, se “o Luquinha não pode mais pegar ninguém”? Sinceramente, eu não sei. Aliás, continuo não sabendo de muita coisa da minha cidade natal. Mas a notícia me deixou triste, mesmo discordando da louca preferência do amigo Lost, pelo novo encantado. Com todo respeito ao falecido, ele não era um dos meus loucos preferidos. Tenho uma lista enorme antes dele. Aliás, se há uma coisa da qual o guanhanense e habitantes de quase todos os municípios das Gerais não pode se queixar é da falta de loucos pela ruas, pelas repartições, pelas casas... Com toda modéstia, o meu louco número um, sou eu mesmo! Qual o outro louco ousaria deturpar uma frase bíblica para afirmar que feliz é a cidade em que os loucos são os senhores? Eu afirmo. E digo mais: esse é nosso problema! Os loucos não são senhores de nada nas nossas cidades. Estou falando dos loucos de verdade (de amor, de corpo, alma e coração) que são radicalmente diferentes dos “normais” loucos por dinheiro, por poder, por aparências... Entre meus preferidos estão o profeta Gentileza do Rio de Janeiro, a internacional Olímpia de Ouro Preto; a vaidosa Mulatinha... mas a minha top ainda é a Ivone. Aquela alma, quando atormentada, xingava os palavrões mais cabeludos que eu já consegui ouvir na vida, atirava pedras, rasgava as roupas, corria na direção contrária das procissões totalmente nua, como se vestisse o mais santo dos mantos e gargalhava como... como só ela, claro. Ela ainda me visita. Recentemente, depois de presenciar uma irritante reunião em Brasília, fui dormir com tanta raiva que o fiz à moda da Ivone. Não me lembrei de vestir o pijama, nem sequer tomei banho. E num sonho, que parece ter durado toda a noite, ela me apareceu. Sim, aquela doida de pedra que “reinou” nas ruas de Guanhães lá pelos anos 70, no meu sonho, também estava na terrível sessão na capital federal. Irritada como eu, ela subiu no plenário, tirou a roupa e gritou para os “doutores” presentes: “Seu fédaputa, vai tomar no centro do seu rabo! Vai olhá debaixo da saia da fédazunha da sua mãe que ocê vai achar...” Ela atirava papéis, agendas, microfones e pastas para cima dos excelentíssimos presentes. Só se acalmou quando ficou só. Aí, agigantada, saiu cantarolando e gargalhando sobre a cúpula do Congresso Nacional. No dia seguinte, acordei de alma lavada. Acho que foi com ela que aprendi a não enlouquecer de raiva, ou de tristeza. Quem disse que os loucos são sempre alegres? Lembro-me do triste olhar da enigmática Mulatinha, poucos dias depois de dar a luz a um filho de um “figuraça” da cidade. Um Filho que ela só teve na barriga, nunca nos braços. Eu jamais soube se ela tinha a noção exata do que lhe fizeram, nem do que lhe tiraram. Mas pouco tempo depois ela exibia sua vaidade pelas ruas. Mais um pouco e outra gravidez. Mais um filho de outro lúcido santo sem alma e, mais tristeza nos olhos da Mulata. Doido, hein? “Tudo isso acontecendo e eu aqui dando milhos aos pombos” e tentando segurar esta vontade insuportável de me rasgar todo, de atirar pedras e chicotear os conterrâneos, os brasileiros, a raça humana e até o maluco que certa vez chicoteou vendilhões de seu templo e depois se crucificou para salvar esta mesma raça tão desumana... Agora, eu que não tô nem aí, não vou rasgar esta pretensa crônica sem fim, diante de qualquer lucidez ofuscante. Afinal, ela já se rasgou quando foi escrita em março de 2008, nem sequer teve um ponto final. Nem terá. Ela não existe, como não existem este dia e o desesperado brilho autofágico das estrelas, que insistimos em dizer que não ouvimos. “Ora direis ouvir...” "Minas é também um estado de espírito. Pode-se ser mineiro sem ter nascido aqui. Basta manter acesa a desconfiança de que abaixo da superfície alcançada por nossas vistas ou por dentro das situações que nos costuram a vida se escondem preciosos tesouros." (Frei Betto em Minas dos Ouro - Ed. Rocco - 2011).
Escrito por Evandro Alvarenga às 00h12
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Pelas crianças que não entendem nada No auge dos seus 17 anos vividos, José dizia que ficaria feliz se vivesse até cinquenta – idade chamada áurea pelo escrevinhador peruano Mário Vargas Lhosa, no livro em que fala de seus amores por “Tia Júlia”. José era um adolescente e em alguns momentos uma completa criança, para quem se podia cantar o trecho da canção de Erasmo Carlos, “ele é uma criança, não entende nada”. Mas se sentia o “homem que entende tudo”. Pensava que sem os atrativos e a força física da juventude a vida não teria muito valor. Assim vivia intensamente, esforçando-se para realizar seus sonhos até completar meio século de vida e deixar que o Criador se encarregasse do restante. Alguns amigos discutiam, mas acabavam se calando diante de tanta convicção. A turma do esporte o ouvia dizer em certas oportunidades: “Já pensou que trágico não ter condições físicas de jogar futebol, vôlei, nadar todos os dias, sem deixar de aproveitar as noitadas, namorar e curtir a vida louca?” “Que graça tem viver na dependência dos cuidados de alguém, por não ter memória suficiente para se lembrar de tomar um remédio?” Tiquinha, a amiga de caminhadas rumo ao colégio Odilon Behrens, o ouvia rindo baixinho. Teve uma vez em que puxou outro assunto. Estava curiosa em virtude de um causo que ouvira em saber se raspas de unhas misturadas à comida era mesmo um veneno fortíssimo. José também ficou na dúvida. Mas emendou com sua filosofia de vida, que suicídio e assassinato eram os atos mais imbecis da raça humana e continuou falando. “Se for pra viver com rosto e corpo enrugados, impotente, careca e cabelos brancos... prefiro morrer antes de envelhecer! Por isto digo pra Deus que até cinquenta está ótimo!” Mas em suas orações nunca mencionou isto. E com o passar dos anos foi passando o ótimo para 52, 55,60, 65... Agora que lhe faltam cerca de 360 dias para chegar à “cinquentena flor da idade” de Vargas Lhosa, José está preocupado. Pensa em escrever para o padre Saint Clair, pedir conselhos ao pastor Edson e ao doutor José Rodrigues e ainda conversar com algum rabino ou um espiritualista. Apesar de ser um homem, está se sentindo uma criança que não entende nada. Ficou desesperado ao admirar uma foto antiga da rua do Pito – seu caminho para a escola, publicada no facebook dos grupos de conterrâneos. A foto lhe trouxe à memória os casos que a amiga Tiquinha narrava durante as caminhadas de mais de meia hora até o colégio. Numa deliciosa manhã de inverno de 1977, em que a neblina cobria toda a cidade de Guanhães a amiga contou experiências de pessoas que diziam coisas sem pensar e depois eram cobradas, justamente pelas descuidadas palavras ditas. Os casos ficaram na névoa do tempo, mas a moral das histórias daquele dia, de repente, brotou tão clara como as fontes de águas na pedra da Gafurina. “Quando a gente fala os anjos que nos acompanham, nos ouvem e se eles dizem amém... aí fica tudo registrado no céu!” Como quem destroi pegadas e pistas, José apagou a foto que acabara de copiar do facebook, mas a frase de sua amiga continua ecoando em sua mente. Então pede a Deus que, se caso os anjos tenham dito amém para suas frases juvenis sobre a vida, “por favor, faça com eles deletem tudo!” Hoje ele quer é viver, mesmo que fique sem cabelos, sem pernas... mesmo que seja chamado de velho gagá, quer completar 50, 60, 70, 80, 90... Aleluia, 100 anos de vida! Vive repetindo isto bem alto, tentando cutucar os anjos! José teve a mirabolante ideia de me pedir para escrever uma crônica, numa tentativa de influenciar as redes celestiais de proteção das eternas crianças que não entendem nada. Pediu para eu não me esquecer de dizer que quer a eterna companha dos amigos e dos familiares, que está extremamente feliz com o que já viveu e espera muito dos próximos anos, mesmo sob ameaças de secas e tempestades. Quantos serão e se ficará gagá ou não, isto segundo ele, Deus proverá! Identificado com o inocente pedido prometi e agora cumpro. A pessoa que, de coração, puder afirmar que não é uma criança e entende tudo, ao contrário de José (e de mim), que nos atire a primeira pedra, não curta isto. Quem não puder fazê-lo então curta, comente e compartilhe este blog com todas as redes sociais e até celestiais. Assim seja! “Envelhecer é a coisa mais moderna desta vida” – Arnaldo Antunes
Escrito por Evandro Alvarenga às 21h37
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 As almas gêmeas nas torres Antes de viajar para o arraial de São Miguel e Almas do Aricanga, o padre Honório foi alertado por outros clérigos que naquele lugar as almas eram inimigas de missas e de sacerdotes. Disseram a ele que o nome do povoado se devia justamente às assombrações que se instalaram nas duas torres da capela que abrigava a imagem do Arcanjo Miguel. Também falaram da selvageria dos índios que, em um de seus ataques, queimaram a ermida de N.Sª do Rosário, a primeira do povoado. Um que acabara de deixar a batina disse ao jovem que “o Arcanjo deveria viver muito ocupado na região, tentando aliviar as brigas, os candongas e os mexericos nas minas de ouro”. Talvez por isto, nunca ouviu suas fervorosas orações e as assombrações se sentiam donas da capela. Para todos eles, padre Honório disse apenas que “quem anda com Deus não tem medo de assombração” e aceitou de bom grado a missão de visitar e se responsabilizar pela obra de Deus no promissor arraial. Mas antes de celebrar sua primeira missa na capela de São Miguel, ele conversou com moradores e até com José Coelho da Rocha, um dos fundadores do arraial. Ninguém sequer mencionava as assombrações. O fundador, que no passado, ainda criança resgatou a imagem do Arcanjo da capela do Rosário atacada pelos índios Guanahans e se tornara seu devoto, até se irritou com a pergunta do padre. Alegou que o problema se devia à falta de vocação genuína dos padres que o Arcebispo da Bahia designava para celebrar ali. “Desde quando almas penadas podem morar na casa de Deus, reverendo? Aqui não tem nenhuma assombração!” Depois da afirmação do sacristão Baltazar, padre Honório celebrou tranquilo sua primeira missa no povoado. Com alegria percebeu que os fiéis ali eram de uma generosidade ímpar. Até pedrinhas de ouro foram ofertadas ao representante do reino de Deus. Três semanas depois, durante a missa da última sexta-feira do mês de agosto, o animado sacerdote ouviu vozes vindas das torres. Elas gritavam com ele o tempo. Até trocou algumas orações da missa tridentina. A beata dona Regina Augusta que se vangloriava de saber de cor toda a missa em latim, notou alguma coisa diferente. Mas depois até parabenizou o novo sacerdote, pela brilhante pronúncia do latim. Quem realmente notou o que aconteceu foi Baltazar, que quase puxava a batina do padre toda vez que ele olhava para trás na direção das torres. Mas ficou calado, pois nunca ouvia nada, como nas outras vezes quando os padres anteriores diziam ouvir. Além do mais, gostou da reação do padre Honório que parece ter suportado as almas, sem pânico e sem que as pessoas percebessem. Logo depois da missa, viu o padre subir numa das torres, munido de crucifixo, água benta e seu livrinho de orações. Ficou sozinho na sacristia esperando e rezando com medo de que mais um sacerdote resolvesse desistir do Arraial. Durante algum tempo ouviu a voz suave, destemida e brava do reverendo falando em latim e em português, como se celebrasse uma missa especial dentro de uma das torres. Depois viu que ele, sem aparentar desespero, subiu na outra torre onde cumpriu o mesmo ritual. Quando retornou à sacristia, padre Honório ainda rezava pelos mortos. “Ipsis, Dómine, et Ómnibus in Christo quiescéntibus, locum refrigérii, lucis et pacis, ut indúlgeas, deprecámur. Per Christum Dóminum nostrum...” Parou antes do “Amen” ao ver o sacristão dormindo na cadeira perto da porta. Pensou em lhe dar um susto, no entanto apenas o acordou educadamente e disse-lhe que já deveria estar em casa. “O que elas disseram?” Baltazar Perguntou, sem cerimônia e ouviu outra pergunta: “Do que você está falando?” “Desculpe, reverendo, mas é que os outros padres diziam que as assombrações... as... vozes, que só eles ouviam, exigiam a destruição das torres desta capela, sob ameça de não deixa-los mais que celebrar aqui”. “Mas aqui não tem nenhuma assombração! Não foi isto que o senhor me disse há algumas semanas na minha primeira visita?” “Mas pra mim não existe mesmo... eu nunca as vi nem ouvi! Ninguém daqui nunca ouviu, só os padres... e... o último, o padre Joaquim não dizia nada mas ficou meio doido e foi expulso quando organizava um mutirão para derrubar as torres...” “Quer dizer que ele queria destruir a casa de Deus? Mas tudo bem Baltazar, eu vou fazer justamente o contrário, vou ampliá-la, não se preocupe. No dia que o problema for sanado eu lhe conto. Agora pode ir pra casa. Deus o abençoe!”
Continua...
Escrito por Evandro Alvarenga às 23h25
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 As almas gêmas nas torres (2ª parte) Em suas visitas aos moradores, padre Honório passou a falar insistentemente da necessidade de uma igreja maior, para receber o número crescente de pessoas que chegavam à cidade. Argumentava com tanto ardor que não demorou muito e as torres foram retiradas, sob o pretexto de ampliação do templo e as vozes se calaram para sempre. Padre Honório, cumpriu sua promessa e contou a Baltazar como se livrara do incômodo durante as missas. As assombrações, segundo ele, eram as almas de um casal de mineradores apaixonados que foram assassinados na porta da capela, anos atrás. Eles aproveitavam o dia de folga das bateias na extração do ribeirão Graipu e esperavam um padre para fazer o casamento deles. Baltazar disse que a história do casal era conhecida em toda a região. Os donos dos garimpos sempre falavam da “tragédia”, aos trabalhadores que chegavam. “Então, essa não é só uma história para amansar os burros de carga...” Admirou-se o sacristão. O casal apaixonado era acusado de levar ouro escondido sob as unhas e entre os cabelos. Por isto foram barbaramente executados por desconhecidos e sepultados como indigentes sem qualquer reconhecimento de parentes. Segundo o relato do padre Honório, as duas almas buscando o caminho para o céu, entraram na igreja e subiram as escadas das torres, sem saber que elas eram fechadas em cima. Com medo de descer e se aproximar do inferno, só admitiam sair de lá, para o alto. Para piorar a situação dos apaixonados, eles haviam subido em torres diferentes. Ela ficou na torre do lado do ribeirão Bonsucesso e ele na outra, do lado da rua do Areião e não podiam se aproximar. Logo eles que morreram juntinhos, apunhalados pelas costas e ficaram conhecidos entre os moradores como os ladrões entrelaçados. Pouco antes de morrer, bem velhinho, padre Honório repetiu a história para seu sucessor, o primeiro pároco do município. Pediu que sempre rezassem pelas almas gêmeas injuriadas e assassinadas por gananciosos mineradores. Orientou ao novo pároco para que os sinos da futura matriz de São Miguel e Almas de Guanhães repicassem sempre que alguém morresse na região. Isto afastaria as almas da majestosa torre e indicariam aos bem-aventurados o caminho do céu. Em 1905, a beata Regina Augusta, que tanto trabalhara pela construção da nova igreja de São Miguel já tinha falecido também e nem pode usar o vestido de rainha que guardava para a ocasião. Sua filha Ana Augusta, no entanto vestiu o belo traje e fez questão de homenageá-la. Depois da celebração subiu na torre e gritou louvores em latim: “Omnis honor et glória per ómnia saécula saeculórum” e “Deo grátias”. O filho do sacristão Baltazar, quase desmaiou de susto. Mas reconheceu rápido a voz de sua paixão secreta, que logo se tornaria sua esposa. Na nova igreja nenhum padre foi incomodado por assombrações. Muito maior e mais bela ela foi construída com uma só torre altíssima. Nela foram instalados majestosos sinos doados pela família de Henrique Bastos. As almas gêmeas unidas e felizes, com o passar dos anos foram esquecidas. Nem no nome da atual cidade de Guanhães aparecem mais. Os relatos do padre Honório também se perderam e nenhum dos escritores que se debruçaram sobre a história do município, como Inocêncio Soares Leão, jamais pode citá-los. Mas segundo um bisneto do sacristão Baltazar, a marca das almas gêmeas ficou indelével na cidade. É que para se livrar do casal de almas aprisionadas, padre Honório teve de improvisar uma cerimônia de casamento. Quando concordou em ficar quieto até que as torres pudessem ser retiradas, o casal pediu: “queremos ir embora unidos na lei de Deus”. Para homenagear a união deles o sacerdote prometeu na reforma, unir as torres da igreja. Um descendente de Baltazar - que guarda o segredo do padre Honório - diz que a nova igreja de N. Sª do Rosário, cujas obras aconteceram entre 1904 e 1909 no Alto do Rosário, era projetada com duas torres. No entanto, fortes chuvas destruiriam suas primeiras paredes e a construção jamais avançou. Porém, é bom que se diga, nunca vimos o projeto. Hoje percebo que os templos da cidade de Guanhães, o de N.Sª da Soledade no cemitério, o de N.Sª do Carmo – recentemente restaurado, a moderna Catedral e o da recente Paróquia de N. Sª Aparecida no bairro do Pito, todos têm uma só torre, como o da Matriz. “Yo no creo em brujas”, mas sou obrigado a deixar uma dúvida no ar: seriam fatos os boatos das almas gêmeas que uniram as torres da cidade? Homenagem ao bicentenário do alvará régio do Príncipe D. João VI, que permitiu o início da construção da capela de São Miguel e Almas do Aricanga em 26 de janeiro de 1811.
Escrito por Evandro Alvarenga às 23h19
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O que eu queria ser  Outro dia acordei às sete da manhã e, como sempre, foi só abrir os olhos para pensar nas coisas que teria de fazer durante o dia. Nada demais, nem de menos, apenas a velha rotina: alguns compromissos profissionais, uma ida ao cinema, e afazeres domésticos. Notei que meu dia era muito comum. Mesmo sabendo que as coisas inesperadas é que incrementam os dias, imaginei que tudo podia ser diferente. E se eu não fosse exatamente quem sou? Durante todo o dia, analisei as possibilidades de fazer determinada coisa sendo outra pessoa, tendo outra profissão, outra aparência, outro corpo, outra personalidade. Ao tomar café imaginava ser um médico que logo depois estaria num hospital... Descartei o pensamento. Durante a reunião de pauta pensei e se eu fosse uma mulher, justamente a chefe da editoria de Cidade? Antes mesmo de gozar a delícia de ser o que ela é, fui destinado a uma cobertura de emergência, de maneira nada democrática pela editora. Então mudei de idéia! Chegando à rua onde um prédio de cinco andares ainda queimava, falei com o comandante da operação do Corpo de Bombeiros. Vi a correria dos soldados do fogo divididos entre o apagar das chamas e a retirada de pessoas feridas. Nem quis imaginar meu dia, caso fosse um bombeiro. Excluí também das minhas opções, ser uma das sessenta e duas vítimas do incêndio. Fechei a matéria viajando na maionese. No final do dia, já tinha considerado a possibilidade de ser político, policial, ladrão, arquiteto, engenheiro... Já no cinema pensei, porque eu não sou Marco Nanini, Milton Gonçalves, Mateus Nasthergaele ou outro grande ator? Porque então não sou um cineasta como Helvécio Ratton, Lars Von Trier, ou Alan Parker? Que tal ser uma daquelas ditas celebridades que nada acrescentam? Na lanchonete entendi que ser uma celebridade estava fora de questão. Já voltando para casa o pensamento da manhã ainda me movia. Eu poderia ser banqueiro, mágico, gigolô, psicólogo. Eu poderia ser um alto funcionário... Porque não sou um pastor, um rabino, uma mãe de santo, o Pelé, o Obama, a Dilma, o bispo anglicano Desmond Tutu, ou Padre Saint Clair (que recomendou aos fiéis a leitura das “Crônicas do Evandro” em plena missa de 23 de outubro)? Entrei em casa pensando em como seria minha vida se eu fosse o Panteleão de Vargas Lhosa, ou o idiota príncipe Míchkin de Dostoievski; o desamparado José de Drummond ou o sonhador Zezé de José Mauro de Vasconcellos, diante do pé de laranja lima; ou ainda, o Alex da “Laranja Mecânica” ou andróide Roy Batty do “Blade Runner”... Liguei o aparelho de som e ouvi a voz de Cássia Eller cantando uma música de Péricles Cavalcante. Tive a impressão de que ela roubara meus pensamentos daquele dia. O final da canção dizia: “E não há nenhuma outra hipótese que eu não considere, mas o que eu queria mesmo ser é a Cássia Eller”. Quando fui dormir agradeci a Deus pelo meu dia de rotina. Sentia uma alegria quase imbecil... Foi maravilhoso constatar que, mesmo não sabendo o motivo, tudo o que eu queria mesmo ser é o Evandro Alvarenga. Tomara que você que me lê, seja sempre feliz por ser quem é: um indivíduo único como um cristal, indecifrável como o universo e simplesmente insubstituível no planeta Nós!
Escrito por Evandro Alvarenga às 18h47
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 Minha sorte Queria montes de montanhas só para Min(as) E montanhas de Minas, todas inteiras, só para mim Para poder ter brilho intenso nos olhos, Caminhando ao lado de Inconfidentes profetas do Aleijadinho Entre tantos barracos Barrocos de Guanhães, Mas apenas desfruto da liberdade ainda que tardia De todas as bandeiras revolucionárias... Queria musicalidades gerais de Pedras Azuis No Clube da Esquina de Horizontes Belos E Skankarar dissonantes ultra-modernas Levando-as a Uakti - um lugar longe daqui, Como um dJ Quest, um Vander vestindo Lee Num Romântico Balaio, entre e Regina, Marina e Ana Ou como Pato em proFUndo lago, armando Tizumbas pra Ceumar Tenho apenas a alma Clara e o coração de Tianastácia em disparada Num Tambor Grande a procura de Sepultura... Queria definir novas angulações nesta terra de Hermano em Salgado Êxodo, inventando cais como Alebastos Para negociar com Helvécio por Amor à Cia dos Bonecos que dançam, Em pleno Batismo de Sangue do Frei Betto nas Pequenas Histórias. Queria ter um novo Corpo Para descobrir Onqotô (bailando entre os Pederneiras?) Um corpo que Giramundo e baila no eterno Galpão Como anjo Gabriel nas Vilelas teatrais de todos os brasis, Mas eu apenas vejo cores desbotadas na Rua da Amargura, Vivo numa brasilha, sem Candongas, sem Sertão, Veredas ou Rosa... Sorôco, jamais ousaria querer ser musicalmente divino e Ter na voz Mil tons em cada Nascimento Para cada semente da frutífera Horta dos Borges, Tiso e Venturini Eu sou apenas um MST - caçador de minha arte teatral, Sou Eagle, sou King ao ouvir o som de Zíer, Santana e Lott Navego o Bonsucesso, com o sonoro barco dos Moreiras, Que das Nuvens Douradas dizem Bom Dia para o mundo. Sou o bom índio Guanahan trajando Roupa Nova, Pra sair na Marujada de Zico de Olinda Sou “Aquele que corre” de Dores queimado sem GEL nem carrancas, Conheci as letras com Pio Nunes, Padre Café, Behrens e Getúlio Herdei de Néria e Risoleta O apreço pela música de Seu Du e da banda Santa Cecília Nas tempestades rezei o credo de Inhá Moça com Duque, Magelas, E calcei as sandálias de Dom Felippe e do alvinegro Serafim Por isso não quero ser eterno, como Drummond Que doou para o mundo, a riqueza literária da Ita-bira do caminho, Não ouso promover Furacões em plena Sexta-feira, Como Roberto, mas queria ser cronicamente correto Neste Prado – palavra de Márcio! Cuá! Não lamento minha sorte, nem choro um Cruzeiro perdido. Uma vez, até morrer, sou aprendiz da poesia itinerante, Que insiste em bater à minha porta quando canta o Galo. Daltônico, sou aprendiz das cores de Mara e de Clóris, Estampadas nas flores de Nazinha e nas pedras das ruas de Júlio Quisera ouvir e desenhar a música do Graipu, como se Berto fosse... Faço cera, diante da pietá e dos anjos de Miguel y sinto as Almas Sem Xavante nem Pena Branca, tão confusas quanto eu. Entrego a confusão para Arrumação com flor de Laranjeira E mineiramente, abro a casa inteira, Quem sabe, você que me visita compartilhe minha sorte E possa se abrigar num bom mistério em minha humilde morada. Quem sabe até encontre uma empadinha, uma luminária, Um tira gosto de banana frita, uma cachaça, um Pito, Um minério cultural, enfim nesta, Minha Candonga poética, sem porta, janela nem parede.
“A minha sina, entretanto, é pensar. Tornar possível o desejável – desbancar a hegemonia dos valores econômicos, livrar a cultura da condição de refém do mero entretenimento, reduzir significativamente a exclusão social.” (Frei Betto) Atendendo pedidos eis a nova versão do poema de 1998, aproveito para hoenagear o município de Guanhães pelos seus 136 anos . Ilustração: Foto de 2007 da casa construída pelo meu avô Luiz Guilherme da Silva no começo do século passado na rua do Pito
Escrito por Evandro Alvarenga às 12h21
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O balanço da criação No princípio, o pequeno José acreditava que havia apenas feriados e tudo era muito bom! Depois, na época em que choveu incessantemente por mais de duas semanas, ele criou os não feriados: dias em que os limites das paredes do quarto, da casa, da cerca do quintal se agigantavam. Viu que tudo continuava muito bom! Entretanto, não escondia sua paixão pelos feriados, períodos em que tudo era possível e não havia limites. Neles, seu horizonte se expandia, ultrapassando os limites do imenso quintal, das copas das árvores, dos ribeirões, da rua e das montanhas. Num outro dia, suas irmãs mais velhas lhe ensinaram que podia chover nos feriados e fazer sol nos outros dias. Então, José criou os sábados, os domingos e os juntou aos feriados e não feriados. Esses se misturaram produzindo as mais diversas combinações, que nem sempre ele entendia. E tudo era muito bom! Em um sábado-feriado-de-sol, seu irmão mais velho tentou enganá-lo dizendo que ia chover e que não sairia de casa, mas não conseguiu. José sabia para onde o irmão e os meninos maiores da rua estavam indo e foi atrás. Os garotos, munidos com pregos, martelos e cordas de bacalhau, subiram rumo ao topo da montanha. Para não atrasar a escalada, dois deles dividiam com seu irmão a missão de carregá-lo. Tarefa difícil pois o pequeno, escorregava e insistia em “andar sozinho”. Foi então que ele criou os amigos de fé, os irmãos camaradas, a árvore gigante, o outro lado da montanha e muitas emoções - sem sequer saber da existência de Roberto Carlos. E tudo era muito bom! Enquanto os amigos construíam uma escada improvisada no tronco da árvore com pequenos pedaços de madeira, José se deleitava, pela primeira vez, com a visão panorâmica da rua do Pito, cumpiiiiida toda viiiida. De repente gritos alucinados... Um dos meninos experimentava o imenso balanço montado na árvore. Os outros o empurravam rindo ansiosos pela sua vez. Encantado com a novidade, José descobriu mais um limite estranho para um feriado. Seu tamanho não permitia que ele aproveitasse aquele engenhoso brinquedo. Chorou, pirraçou e nada... “É perigoso procê, você pode cair!” Gritava o irmão. “Se não deixar, eu conto pra mamãe aquilo que vi ocê fazendo outro dia...” Como ficava mais tempo em casa, José sabia o que preocupava os pais em relação aos irmãos mais velhos. E quando descobria uma travessura deles, ficava calado de acordo com suas conveniências. Como ninguém conhecia sua esperteza, às vezes conseguia o queria. Na verdade nem sabia o que diria à mãe, mas não precisou, pois sua chantagem deu certo. A montanha era muito alta. A árvore tinha quase vinte metros e ficava na beira de um barranco de mais de cinco metros de altura. O balanço era feito de uma corda só com uma madeira amarrada na ponta. Assim, o pequeno teimoso foi colocado no balanço, sentado na madeira com a corda entre as pernas. Foi orientado a grudar na corda e não afastar o corpo dela. Era preciso se segurar com as duas mãos na corda e evitar movimentos com as pernas para não escorregar. “Seu irmão vai cair Desinho...” Profetizou um dos meninos. “Vou nada, eu sei segurar!” “Então nem vamos empurrar, basta soltar a corda...” “Uai, se não empurrar o balanço não volta pra cá. Vai ficar parado no meio do buraco...” Então alguém sugeriu usar outra corda para puxar o balanço se isso acontecesse. E lá se foi José... Gritou, pediu desesperadamente para parar... depois, para continuar. Seu corpo tremia. Quanto mais medo sentia, mais se agarrava na corda e mais seguro ficava. “Pode empurrar com fooooorça... Ai, ai, aiiii. Socorruh, uh! Ai que delííiicia!” E assim, ele criou um monte de sensações e o gosto pelas alturas. Era tudo muito bom! Melhor que aquilo, só a visão do alto da pedra da Gafurina, ou o salto de parapente, anos depois, e os giros de montanha russa, que experimentou em sua vida com o passar dos anos. Pouco depois, José criou os dias de semana. Fez a separação definitiva entre dia e noite, domingos e feriados, dias de escola, dias de trabalho e de descanso. Em sua caminhada pelas montanhas da vida, ainda cria coisas para seu mundo, nem que sejam palavras, frases, textos e contextos... No dia 30 de setembro de 2011, descobriu a íris do olho de Deus no céu de Brasília, na bela forma de um halo solar... Nunca quis fazer um balanço da criação de Deus, sempre soube que é tudo muito bom. Pela visão do halo solar, José cantou alegremente por uma semana inteira reconhecendo que o “Eterno Criador é realmente muito bom!” 
Halo solar é um fenômeno meteorológico com efeito ótico semelhante ao de um arco-íris ao redor do sol. Acontece, quando os raios solares incidem nos minúsculos cristais de gelo das nuvens, que funcionam como prismas.
Escrito por Evandro Alvarenga às 22h14
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Do que são feitas as estrelas “Vamos lá sim! O deputado vai ajudar, tenho certeza, ainda mais que somos conterrâneos. E se não ajudar, cuá! Pelo menos não vamos ficar com vontade de ter tentado. Não se pode desacreditar de tudo.” A princípio pensei que ela dizia isto por ser fã de Juscelino Kubitschek e ter uma admiração enorme pela esposa dele, dona Sara. Mas o discurso definitivo dela foi suficiente para me convencer a procurar ajuda do deputado mineiro Vicente Guabiroba. Estava desempregado e cursando uma faculdade particular. Começava o segundo semestre do curso de comunicação e sem emprego teria de abandonar tudo. Procurava trabalho definitivo, mas os tempos eram realmente complicados. “O suor da gente é abençoado por Deus! Todo mundo que luta com honestidade conquista vitória! O errado é que tem gosto amargo pra nós.” Ela, como ninguém, sabia acender as luzes da esperança no coração das pessoas. Acho até que Renato Russo chegou a conversar com ela antes de registrar em uma de suas mais belas canções que “Nosso suor sagrado é bem mais belo que esse sangue amargo...” Eu precisava tentar todas as possibilidades. Queria continuar estudando e justo no momento em que a saudade dos pais e irmãos, deixados em Minas, me maltratava menos, não podia parar. Psicologicamente já estava esgotado, mas devia satisfação moral a ela, que me acolheu como filho logo que cheguei a Brasília, dizendo que “sobrinho e filho é a mesma coisa.” Meu plano inicial quando vim para Brasília era procurar emprego, depois fazer cursinho e tentar vestibular. Mas ela mudou tudo, simplificou e acelerou o processo. “Não! Pelo que sei, a educação em Guanhães está muito bem e você pode fazer vestibular sem cursinho, mesmo que seja para sentir como é...” Eu argumentei que a experiência do vestibular da Federal em Belo Horizonte já era bastante e que não gastaria dinheiro com inscrição de um novo concurso. Não contava que ela fosse colocar em prática sua vocação de anjo. Autoritária, colocou um dinheiro em minha mão e pediu que eu não perdesse o prazo da inscrição. Assim, oito meses depois, estávamos no coletivo rumo à Câmara dos Deputados. Com o orgulho de quem participou da construção, ela me apresentava os detalhes do caminho entre Taguatinga e a rodoviária do Plano Piloto: A Estrada Parque Taguatinga – EPTG; a entrada da residência de Águas Claras - “onde mora o Governador do DF”; a satélite do Guará – “onde mora o meu filho Waltinho”; o Parque Rogério Pitton Farias – “foi inaugurado há cinco anos, com a única piscina de ondas do Brasil”; a satélite do Cruzeiro – “aqui tem muito carioca”; o Setor de Indústrias Gráficas; os palácios da Justiça, do Buriti; a Torre de TVE, o Setor Hoteleiro e o Hotel das Américas – “da família Barbosa onde eu trabalho...” No começo da esplanada lamentou o gramado queimado pela seca. Como se fosse o jardineiro da canção de Flávio Venturini, disse: “Mas deixa pra lá, não tarda mais a primavera!” Entre uma paisagem e outra ela falou dos verões de sua vida, das terríveis noites de tempestades, dos inversos duros e secos que enfrentou e de todas as primaveras que ganhara de presente, quando entendeu que as estrelas brilham mais intensamente para quem sonha com elas. Reconhecia que já tinha muito mais vitórias que merecia. Sabia que muitas batalhas viriam. Conquistas, também. “A gente não pode perder a coragem. Se a situação tá difícil hoje, amanhã muda tudo. Só depende da gente ter coragem nesta vida. Tudo muda, igual a horta depois da chuva e os jardins com a primavera,” dizia. Coincidência ou não, na primavera daquele ano, eu estava empregado e incluído no programa de crédito educativo da Caixa Econômica Federal. Não demorou muito e eu passei a sonhar com o brilho da Capital Federal com orgulho semelhante ao dela. Não demorou muito e eu fui aprovado em alguns concursos públicos e me formei. Não demorou muito e eu já conquistei muito mais vitórias, que mereço. Não demorou muito e ela foi embora. Foi saber do que são feitas as estrelas, diretamente com quem as criou. Mas não me disse se realmente conhecera Renato Russo, Flávio Venturini, Mário Quintana, Cora Coralina e Guimarães Rosa. Não demorou muito e eu compreendi o que o poeta mineiro quis dizer em Grande Sertão Veredas ao afirmar que "as pessoas não morrem, ficam encantadas." O que demorou mesmo foi entender que ela não tinha apenas vocação. Dona Maria da Silva Lara era mesmo Anjo. De uma casta especial de anjos/poetas que vivem como gente simples nesta terra enfrentando dificuldades para nos ajudar a entender, de uma vez por todas, que a vida é bela e que a estação que preferimos sempre volta. Só agora com a chegada de mais uma primavera entendi isso e posso fazer o que há muito me sugere a família Silva Lara. Faço-o com a convicção de que não vai demorar muito e eu também poderei saber do que são feitas as primaveras e as estrelas com as quais continuo sonhando. “ O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem" – Guimarães Rosa “Se as coisas são inatingíveis... ora!/ Não é motivo para não querê-las.../ Que tristes os caminhos, se não fora/ A presença distante das estrelas!” – Mário Quintana “O que importa na vida não é o ponto de partida, mas a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher!” - Cora Coralina
Escrito por Evandro Alvarenga às 10h36
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On voit le soleil Professor Durcelino é linha dura. É o terror do Colégio Estadual Odilon Berhens, em Guanhães. Basta sua figura magra surgir na porta da sala de aula com seus inseparáveis óculos de grossas lentes para o silêncio absoluto tomar conta do ambiente. Ali na sexta série da sala 5, alguns alunos, mesmo no segundo ano de francês, ensaiam baixinho a resposta ao cumprimento que ouvirão logo que o senhor entrar e colocar seus livros sobre a mesa. “Bonjour, monsieur!” Gritaram em coro para a sóbria figura com quem se encontram duas vezes por semana nas aulas de francês e outra na de música. Mas parece que se encontram todos os dias, pois em sua presença a turma parece um batalhão bem coordenado, ou um rígido coral batista tradicional. Por isto o aluno José está tão desesperado ainda fora da sala. Começava a subir a escada quando ouve o cumprimento dos colegas. “Péssimo dia, isso sim... justo hoje que primeira aula é de francês tinha de chover na hora que eu ia sair de casa?” No último degrau, tropeçou, descuidou dos cadernos tentando se equilibrar. O livro de francês deslizou até o primeiro degrau. Voltou pensando que nada mais podia ser pior que aquilo. Logo já ouvia a chamada lá dentro da sala. “Mon Dieu! Je ne suit pás presant...” resmungava a cada colega que era chamado e respondia. “Iolanda” “Jê suit presant”; “João Paulo”, “Je suit present”... Bem na hora, José empurrou a porta: “excuse moi, professeur...” Antes de concluir o pedido ouviu a voz grave do mestre: “Quelle heure est-il monsier José?”. O rapazinho olhou o relógio na parede “Il est sept heure et ...”, “Et... qual a razão do atraso, meu caro?” “A chuva professor...”. O professor olhou para as altas janelas, fez sinal para ele entrar e depois riu com ironia. “Mais, on voit le soleil, monsieur José!”. Aqui, né professor, lá no final do Pito tava chovendo e muito! O professor não prolongou o assunto, mas disse que haveria punição pelo atraso. Enquanto a chamada prosseguiu, José lamentou ter entrado na sala. Preocupado com o anunciado castigo, abaixou a cabeça e começou a rezar. Pediu para Santa Joana D’Arc, um triunfo, naquela situação, naquele dia cruel. Estava prestes a aceitar trocar o pôster sexy da Brigite Bardot da parede de seu em seu quarto, por uma imagem da santa quando o professor interrompeu a oração silenciosa, anunciando o começo da arguição. Pelo atraso, José seria o primeiro. Ele se levantou sem protestar. Estava nervoso, mas tentava demonstrar segurança. O Professor declamou: “Allons enfants de la Patrie...” e pediu que José seguisse dali. Ele disparou: “Le jour de gloire est arrivé! Contre nous de la tyrannie l'étendard sanglant est levé. Entendez-vous dans nos campagnes mugir ces féroces soldats? Ils viennent jusque dans vos bras...” José fez da marselhesa, seu hino pessoal de vitória, contra a tirania das divergências climáticas. Declamou todo o hino... nem sequer ouviu o professor dizendo que podia parar antes da metade. Diante do ímpeto do garoto, o mestre desistiu de interrompê-lo, acompanhou balançando a cabeça em alguns momentos. Prova concluída, José ouviu elogios sobre a boa pronúncia de todas as palavras e sobre a bela interpretação da poesia do hino. Esta última não valia nota, “mas ainda assim é digna de registro”, disse o professor. Calmo, sereno e tranquilo, José concluiu aquele dia, que começou com turbulenta chuva. Durante muito tempo, José só saia da cama após conferir o céu pela janela. Independente do que via, dizia como uma oração: “on voit le soleil”. Quarenta anos mais velho, na manhã do dia 13 de setembro de 2011, José abriu a janela do oitavo andar e ao contemplar a seca paisagem do planalto central relembrou a frase do saudoso professor Durcelino. No jornal, leu que a umidade relativa do ar está entre 10 e 12%, na Capital Federal e que, em diversos pontos do Distrito Federal, os índices de fumaça, por causa das queimadas, chegam a 40mg por metro quadrado, quando o máximo não deveria passar de 20mg... “E tem gente que ainda acende um pito pra fumar,” lamentou. “Há sol e nenhuma nuvem no céu de Brasília. Nem um fiapo de algodão sequer. Mas em Santa Catarina chove e muito”, pensou. Depois balançou a cabeça, resignado, pois desde criança foi orientado a não resmungar contra as forças da natureza. “Como dizia, dona Inhá Moça, minha avó: CUÁ!”
(Ao professor Durcelino da Silva Reis. Aos mestres de Guanhães como o próprio Odilon Behrens, Vicente Guabiroba, Thales, Heitor Nunes da Mata, João Pires, Hildete Gualberto Alvarenga, Lourdinha e a todos os outros que com eles aprimoraram o dom de ensinar)
Escrito por Evandro Alvarenga às 23h42
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A avenida fantasiada Acho que era carnaval. Não tenho muita certeza, pois eu era criança. A fantasia e a realidade ainda se misturavam na minha cabeça. Acredito que hoje não mais, pelo menos, não muito mais como outrora. Só sei que naquele dia, a principal avenida de Guanhães amanheceu fantasiada de rio. O prefeito falou na rádio que aquela era uma fantasia estranha, pois a água, além de barrenta não tinha um fluxo definido, mas que tudo “já estava sendo resolvido a contento para o bem de toda a população...” No alto dos meus sete anos, achei tudo muito lindo e teria dado nota dez para a fantasia. Só não dei porque fui excluído do corpo de jurados. Quando me preparava para me juntar ao grupo de moleques que debaixo da chuva incessante nadavam bem em frente ao Fórum Doutor Brito, aplaudindo a inundação, meu pai me segurou pela orelha. “Nem pense nisso!” Eu desobedeci em parte, pois pensei e muito. Como continuo pensando, em me banhar no rio Guanhães, lá em Dores, minha terra natal. Sem poder nadar e experimentar a fantasia da avenida Milton Campos eu não pude dar nota alguma para ela. Fui obrigado a aceitar a decisão da comissão julgadora oficial: Grêmio Recreativo e Escola de Samba Alagados da Estação Chuvosa, nota Zero! O prefeito depois explicou que a fantasia foi confeccionada com material impróprio, por pessoa invejosa. Perguntado se tal pessoa se chamava Tempestade ou Tromba d’Água, ou alguns de seus adversários na Câmara, ele disse que não era de bom tom citar nomes, mas garantiu que os guanhanenses sabiam quem era o autor da coisa. Foi nessa época que descobri que eu não era natural de Guanhães, pois nunca soube exatamente de quem o digníssimo falava. Na rádio, ainda houve quem comentasse sobre as construções irregulares sobre o ribeirão Vermelho. Houve quem falasse de armação de resultados. Mas no final, todo mundo se calou e o fato ficou como um rio que passou em minha vida e me mandei para outros carnavais. Os acadêmicos da molecagem reunidos protestaram. Era tarde demais! Depois que a fantasia se desfez, a avenida foi completamente lavada, como numa autêntica quarta-feira de cinzas. Revoltados contra o escândalo da inédita nota zero, os moleques botaram fogo nas suas próprias fantasias e nunca mais as escolas de samba desfilaram na avenida guanhanense. Talvez por coisa assim, já cantei e lamentei com o Pato Fu, que “em fevereiro tenho que suportar os G.R.E.S” mas na real sinto saudades Guaranis da Águia de Ouro, que sobrevoa o Morro do Cruzeiro. Como consolo tenho a certeza de que as águas do Vermelho, do Almas e do Bonsucesso – Unidos do Graipu, de uma forma ou de outra, formam Correntes e... vão bater no meio do mar. “O mar é um universo perto de nós”, como escreveu o grande mestre português, José Saramago. “A vida é breve, mas cabe nela muito mais do que somos capazes de viver” (José Saramago)
Escrito por Evandro Alvarenga às 21h44
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 Minhas lágrimas pela “guerra pagã”
Neste momento, ainda não sei, como todos que choram a perda de Amy Jade Winehouse, a causa exata da morte prematura da genial diva. Há quem fale da “maldição dos 27”, que já levou tantos nomes da música e, principalmete do rock, como Brian Jones, Jim Morrison, Janis Joplin, Jimi Hendrix e Kurt Cobain. Isto só para falar nos mais famosos e para não alargar a lista para a faixa de 25 e 29 anos de idade. André Barcinski, crítico musical do jornal Folha de São Paulo, comenta que é uma contradição que o rock, surgido nos anos 50 como o primeiro gênero musical voltado especificamente ao público jovem flerte tão freqüentemente com a morte. Concordo com ele, mas inconformado, gostaria de encontrar uma razão para tais olhares fatais e assim poder evitar que outros gênios nos deixem tão cedo. O que leva tanta gente a morrer da mesma maneira, antes até os 30 anos? Será o desafio da vida adulta, de encarar sozinho o mundo, depois de anos sendo adulado e protegido? “Será um período de depressão pós-sucesso?” As perguntas de Barcinski são as mesmas que muitos fazem. O que ouvimos como resposta? Mais perguntas e silêncio. No artigo publicado hoje em seu blog na Folha on Line, André tenta achar explicações. Diz que o “rock é filho do conflito de gerações nos Estados Unidos do pós-guerra, um conflito que só pôde acontecer porque, pela primeira vez na história, adolescentes não tiveram de trabalhar para ajudar os pais. Com dinheiro no bolso e tempo livre, a juventude fez o que nunca pôde: descabelou. Abraçaram rebeldes como James Dean, Marlon Brando, Elvis e Little Richard, e inauguraram a cultura jovem. Tudo, menos ser igual ao papai...” Eu particularmente não creio mais no mito da rebeldia roqueira. Nem sequer creio que a passagem para a vida adulta seja tão depressiva assim. Pensando em Amy Winehouse, flerto com a fatalidade, traduzida em sua canção “Some unholy war” (Uma guerra pagã), na qual ela diz: “Eu lutarei até este final amargo. Apenas eu, minha dignidade e esta caixa de guitarra”. Por não acreditar que alguma guerra possa ser santa, choro o infortúnio da alma de tantas pessoas anônimas que não conseguem se livrar do alcoolismo de outros vícios. O infortúnio de não conseguir guerrear para impedir que mais gente se arme e entre nesse caminho sem volta. De forma mais abrangente, choro o domínio do sistema capitalista em que vivemos, que direciona tanto jovem à forma redonda de se sentir o número 1 vivendo numa boa de copo na mão, mesmo com a barriga vazia e somente fumaça na cabeça. Choro ver mais jovens e adolescentes, roqueiros ou não, embarcando nessa balada sorrindo sem atentar que é o caminho do abismo. Já que as lágrimas não vão me deixar em paz neste sábado e talvez nem no domingo. Deixo a Inglaterra de Winehouse e pouso na Noruega. Encontro ali, mais de noventa jovens vidas ceifadas num encontro do partido trabalhista. Num país tão afastado da violência comum dos dias de hoje, o ato terrorista é ainda mais assustador. E o que dizer dos jovens noruegueses? Tinham pelo menos 27 anos de vida? Eram roqueiros? Ao que tudo indica estavam apenas começando suas vidas, cheios de esperanças e com muito amor e talento... Ah! Melhor não falar em talento hoje. Estou de “volta ao luto” (black to black). Melhor não falar de juventude também. Se continuar virão tantos jovens que partiram tão cedo. Já me lembro-me do José Maurício, um amigo da adolescência, do irmão de fé Eduardo que ainda servia o Exército... e do meu irmãozinho Ernando com quem convivi apenas seis meses, nos anos 70. Se continuar, lembrarei que “Nós apenas dissemos adeus com palavras. Eu morri uma centena de vezes”*. Então, até que eu consiga ver jardins floridos, acho melhor não falar mais nada. Caso os jardins ainda demorem a acabar com este seco inverno, melhor deixar as lágrimas rolarem, só isso. * "We only said goodbye with words. I died a hundred times – Trecho da canção Black to Black de Amy Winehouse. “Você foi pra Londres, quando tinha dezenove anos/ Teve que deixar suas roupas legais, vivendo só de sonhos/ Um homem na luz clara tirou tudo que era seu/ Agora ele está levando sua liberdade pra um destino desconhecido” - Trecho da canção Hey Litle Rich Girl – Letra de Rod Byers e Terry Hall gravada por Amy Winehouse
Escrito por Evandro Alvarenga às 13h46
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