
Por do sol em Santarém sob a lente de Antônio Pugás
O Fotógrafo Há muito tempo esperava estar num lugar especial como aquele, num momento exato como aquele. Apesar de passar os dias fotografando de tudo para agências de notícias, registrar o por do sol na orla fluvial de Santarém era mais que um lazer. Era um raro prazer. As pessoas caminhando no calçadão, a brisa, o movimento frenético de cargas e descargas, embarques e desembarques em barcos de todos os portes acrescentavam detalhes na composição da imagem. Mas seu foco estava mais além. Suas lentes miravam a imensidão das águas azuis do rio Tapajós, o céu com várias nuvens e entre elas a bola avermelhada do sol que, com a umidade do ar, se ficava mais opaca. Diante do tripé que sustentava a câmera, ele se dividia entre o visor e a paisagem real. Um clique, outro. Um ajuste na abertura, uma troca de lentes e outro clique, e outros em seqüência. Registrou, passo a passo, o mergulho do sol na escuridão desconhecida da noite. Se pudesse, o fotógrafo mergulharia junto, talvez para iluminar a virada de sua vida. Mas quem não gostaria de iluminar o amanhã, tão incerto e obscuro? “É estranho que as melhores coisas da vida sejam tão efêmeras”, lembrou-se da frase que ouvira na passagem de um outro momento especial. Enquanto conferia as imagens registradas ali mesmo, uma jovem parou diante de seu equipamento fotográfico e lhe disse em tom autoritário: “Faça uma foto minha, que esta cidade não tem nada melhor para nos oferecer”. Ele estranhou, mas literalmente obedeceu. Orientou o posicionamento dela e clicou duas vezes. Sem dizer mais nada a moça saiu rapidamente. “Os loucos são mesmo os donos do paraíso...” pensou com sua costumeira ironia. Desmontou o equipamento e saiu para jantar. Depois retornou ao hotel e deixou as malas prontas para viajar no dia seguinte. Tomava café quando atentou para uma notícia veiculada pela emissora local de televisão, sobre o suicídio de uma moça de 17 anos de idade, com gravidez recente. Ela teria se atirado no rio Tapajós com uma pedra presa ao pescoço. Seu corpo foi encontrado com um bilhete impermeabilizado por plástico, com a enigmática frase: “Esta cidade não tem nada melhor para nos oferecer”. A reportagem mostrou depoimentos de pessoas que de outro barco assistiram a cena trágica. Um senhor de semblante triste disse que a moça se atirou nas águas quase junto com o por do sol. A matéria terminou com uma foto da jovem suicida ainda não identificada. Pela foto mostrada, o fotógrafo teve a certeza de que se tratava da mesma pessoa que parou diante de sua câmera, quase exigindo ser fotografada no dia anterior. Intrigado, foi conferir a foto em sua câmera. Pegou o laptop transferiu para ele os registros. Em dois deles, lá estava a moça. Notou que no fundo das imagens havia dois barcos e, na segunda, algo tocando as águas. Direcionou o “zoom” na primeira. Havia um corpo caindo do barco puxado por uma pedra. Voltou a imagem para o tamanho normal. A moça aparecia em primeiro plano com seu rosto enigmático, no fundo a mancha escura ao lado do barco. O registro foi praticamente na hora do por do sol. O fotógrafo guardou os equipamentos e seguiu para o aeroporto. Ao chegar em casa, horas depois, apagou os dois registros, como quem apaga provas de um crime. Muito cético não comentou o episódio com ninguém. Preferiu evitar que alguém dissesse que havia fotografado um fantasma, uma santa ou coisa do gênero. “Acho que ouvi histórias demais sobre as mocinhas encantadas pelo Boto Tucuxi,” pensou. Em seguida decidiu apagar também de seu computador todas as belas fotos daquele fim de tarde em Santarém. Preferiu guardá-las somente na sua própria memória, como as inúmeras lendas amazônicas que ouvira nos últimos dias. Guardou consigo a esperança de que, em algum dia, a luz que ilumina suas fotos clareiem também o seu destino, que ainda é como uma noite irritantemente escura. 
Escrito por Evandro Alvarenga às 22h42
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O trauma III - Um ponto final Cris: _ Esta é sua última chance. Tom: _ Boa noite pra você também... Cris: _ Ah! Sempre esqueço que você é a formalidade em pessoa. Tom: _É questão de educação, pelo menos entre os civilizados... Cris: _ Tá azedo, é? Pede ao garçom mais três caipirinhas que melhora... Tom: _Azedo nada. Pelo contrário, tô até disposto a dar aula de boas maneiras. Garçom, uma cerveja pra ela, por favor! Cris: _A cerveja tudo bem, mas não quero aula nenhuma. Só quero aproveitar este encontro casual para lhe dizer que precisamos resolver, ou por um ponto final... Tom: _Mas antes do ponto final, é bacana dizer bom dia, boa noite, como fazem os franceses... Ah! Que saudade eu tenho de Paris! Cris: _ Você esteve lá? Tom: _Várias vezes... Cris: _ E sem mim... pra piorar, nunca me falou? Tom: _”Moi... Ne me jugez pas par le moment. Je suis, principalement l’avant et l’après moi...” Cris: _Se me falou foi em francês, ou em russo. Em português você nunca me falou que esteve na França. Tom: _Há muito mais coisas silenciosas entre mim e você que mal podemos imaginar... Cris: _É a vida! Mas já vem você com este teatrólogo de nome esquisito... Tom: _(rindo) Mas quem está dizendo sou eu. Esta é apenas uma frase de efeito minha. Não tem nada de Shakespeare. Mas tudo bem, só queria dizer que você não sabe nada sobre mim. Cris: _Mas eu sei como você fica piradão na cama! Tom: _Assim como eu não sei nada sobre você... fora dos lençóis, é o que digo. Cris: _Ah! Meu caro, de MUÁ, só eu sei. E você nem precisa saber mais do que já sabe. Tom: _Além dos lençóis, nunca passamos de um caso casual... Cris: _ Se dependesse de mim, seríamos sempre eternos e perfeitos amantes. Tom: _Talvez seja por isso que não somos. Cris: _ Como assim? Tom: _Os amantes perfeitos precisam muito mais do que sexo. Precisam se amar, para se amar, precisam se conhecer ao máximo. (continua abaixo)
Escrito por Evandro Alvarenga às 09h09
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O truama III - Um ponto final (continuação) Cris: _Ué, não vai citar o autor da bela frase? Tom: _Pelo que eu saiba, ninguém nunca escreveu isto. Cris: _ Puxa! Estou impressionada! Já transei com um poeta e não sab... Tom: _Ah... E com quem você não transou, afinal? Cris: _ Também não precisa ofender! Tom: _Desculpa, não foi esta a intenção. Cris: _Tudo bem... Até gosto deste seu ciúme. Tom: _Não tô com ciúme. Nós nem temos mais nada um com o outro. Cris: _ Mas quando terminamos foi por causa do seu ciúme... Tom: _Não exatamente! O lance é que nunca achei legal, nem muito higiênico, compartilhar uma mulher com 3, 4... sei lá quantos caras eram... Cris: _ Mas agora não tenho ninguém. Tom: _Da minha parte, continuará sem ninguém pelo resto de sua vida. Cris: _Cara! Não precisa jogar praga... Tom: _Eu disse, “da minha parte”. Ou seja, comigo não vai rolar mais. Pode colocar seu alvo diante de outra seta. (Ela dá uma gargalhada) Tom: _Qual a graça? Cris: _Você é muito sarcástico! Outro cara, certamente diria pra eu apontar minha seta pra outro alvo. Tom: _É que prefiro fazer uma abordagem mais sexual, que é o seu forte! Cris: _Hum... Pelo menos isso você reconhece: o meu forte! Tom: _Nunca neguei, suas qualidades. Aliás, eu já disse que você é sexo, sexo, sexo e uau!... Não tem essa de droga, sexo, muito menos rock in roll... Cris: _Êpa! Tom: _Isto é um elogio... Cris: _Caralho! Mas eu sou muito mais que isso. Tom: _Comigo, pelo menos, foi bastante, mas foi só isso. Cris: _Por quê? Tom: _Não sei. Questão de química, talvez. Cris: _ Eu sempre te amei muito. Tom:_ Não confunda amor e sexo! Cris: _Você tá me deixando traumatizada. Acho que vou procurar um analista. Tom: _Ué! Você não diz que o traumatizado sou eu? Cris: _Acho que este mal pega... Tom:_Êta ferro! Não acredito que você aprendeu isto na faculdade de psicologia... Cris: _Mas eu nem me formei em psicologia... Tom: _Nãaaao? Até hoje? Cris: _Eu mudei de curso, no segundo período. Fui pra matemática. Acho que sou mais exatas... Tom: _Foi uma pena, na psicologia você teria se conhecido melhor. Cris: _ Eu já me conheço o bastante. Tom: _ Moi, ne me jugez pás par le... Cris: _Você já disse isso... pra que repetir se acha que não vou entender mesmo? Tom: _Esta sim é uma citação de um poeta, Manoel Affonso de Mello. Quer dizer: “Não me julgue pelo instante. Eu sou principalmente o antes e o depois de mim”. (cotinua abaixo)
Escrito por Evandro Alvarenga às 09h07
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O trauma III - Um ponto final (continuação) Tom: _Talvez, eu tenha te julgado apenas por momentos... Aliás, nós fizemos isto, um com o outro. Cris: _Escreve esta frase pra mim? Também em francês... Tom: _Tá (Escreve em um pequeno bloco que tira do bolso). Pronto, eis a frase... Cris: _ Muá... (Antes que ela tente, ele lê junto com ela) Tom:_ Nê mê jujê pá, par le momán. Jê suí prinspalman laván ê laprê muá. Cris:_ E sobre nós dois? Tom:_Não há mais “nós dois”... Cris: _ É triste, mas...parece que tinha de ser assim... Tom: _ (Sugerindo um brinde): Aujourd’ hui, ici, un point finale pour nous! Hoje, aqui, um ponto final para nós! Cris: _(Brindando): _ Vários anos depois, um ponto para nós... Tom: _ On point FINALE! Cris: _É! Um ponto final! (Bebem e se calam enigmaticamente, por um instante. Levantam-se ao mesmo tempo) Cris: _ Que merda! (Já saindo) Tom _ Que bosta! (ele fica de costas pra ela) Tom: _Maintenant, nous sommes, principalement, l’aprés nous! Cris: _Isso mesmo: Agora, nós somos principalmente o depois de nós! Tom: _Uai... Você entende francês? (ainda de costas) Cris: _Há muito mais coisas silenciosas entre nós, que mal podemos imaginar! Tom: _ C’est la vie! Cris: _ É! A vida... Tom:_ Então... (pensa em correr ao encontro dela) Cris:_ ...é um barco de bosta que navega num oceano de urina... Você dizia: então? (pensando em se virar pra ele) Tom: _ Então... Garçom a conta! Quase me esqueci... é a vida! (volta pra mesa) Cris: _Então... Adeus! Tom: _Adeus... então! Ela vai embora. Ele deixa o dinheiro na mesa e sai do bar cantando melancolicamente. Tom: _Adeus ano novo, feliz ano velho, que tudo se finalize no ano que já morreu... Putz... Ô, ô Cris, volt... Cris: (ela ansiosa reaparece diante dele, sorridente)_Sim... Tom:_Eu me esqueci de escrever o nome do autor daquela frase, é Manoel Affonso de Mello... (anota e entrega pra ela). Cris: _Ah! Manoel Affonso de Mello... Foda-se o autor. Foda-se, você, Tom, suas frases e todos os seus autores, imbecis! (ela rasga o papel e sai decepcionada). Tom: _Caraca! Que tica esquisita... mui esquisita!
Escrito por Evandro Alvarenga às 09h02
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José, o jardineiro africano Houve um tempo em que José acreditou, a despeito de sua pele branca e cabelos claros, que seus ancestrais fossem negros e africanos. Sua crença se baseava no fato de que qualquer referência àquele continente – história, gente, costumes, cultura, dores, alegrias – tocava diretamente sua alma. Hoje, José ainda acredita e sente tudo da mesma forma, apesar de ter se distanciado das questões da Mama África. Como um jovem que deixou suas raízes, atraído pelas brilhantes luzes do horizonte, ele ainda tem saudades da negritude que não ostenta na pele. Está agora como um filho pródigo, que só longe da casa do pai, se conscientiza do que ficou para traz, identificando melhor suas origens. José crê também que descende de um jardineiro, que costumes e habilidades específicas lhe foram transmitidos geneticamente. Crê que sua alma é de jardineiro, mesmo não tendo sequer um pequeno canteiro para cultivar, da mesma forma que nunca teve o continente africano sob seus pés. Anseia tanto pela primavera, que parece mesmo um jardineiro diante do canteiro sem rosas. Sabe que as roseiras sofrem com tantos espinhos expostos, sem poder exalar perfume algum e sem as cores maravilhosas de suas pétalas. Outro dia, eu disse a José que o que ele precisa é de uma prévia do verão, para se sentir distante da secura do inverno e não exatamente da estação das flores. José disse, emblematicamente, “pode ser que sim, pode ser que não”. Ele sabe que minha idéia não resolve nem esclarece nada. Continua com o forte desejo de que chegue logo a primavera. Que o clima mude. Que a paisagem seja outra. Que os horizontes tenham permanentemente aquele por do sol, que na África jamais assistiu. Que este velho mundo enfim, dê lugar a um mundo novo, imune a mudanças de estações. E que seja bem melhor do que possa acreditar ser possível... “e será”, diz ele. Algo lhe diz, que não basta cuidar do jardim da sua alma. Mesmo que seus olhos daltônicos nunca tenham visto uma flor com toda suas nuances e exuberância de cores, continua acreditando que sua estação virá. Que ela será uma obra prima, vera, primeira e única. Mas é preciso transcender. Por mais que se pode, se adube, se regue, José não ouve o reggae da estação das flores. Ouve apenas a voz de Tim Maia insistindo que “é primavera!” Como amigo, eu digo a ele que, de fato, desde a noite do dia 22 de setembro já é... Porém, sua africana alma de jardineiro continua sem flores e continua esperando a primaveril aurora transcendente. Alma gêmea de José, eu, enfim o compreendo, sinto que transcender é preciso. Por não ser mais poeta, saio calado sob a chuva, chutando as poças d’água pelas ruas de Bras-ilha, minha “Terra dos Homens”. Aqui, como diria Antoine de Saint-Exupéry todos “esperamos a aurora como um jardineiro espera a primavera.”
Escrito por Evandro Alvarenga às 09h17
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Qenqossô ou Qenqotô? Quando digo que eu sou qualquer coisa, talvez seja por um recurso linguístico apenas, ou falta de costume de usar outro verbo. Digo que sou, contando com a possibilidade de mudar o tempo do verbo para o passado e para o futuro de acordo com a conveniência. Mas será que o eu que fui, é o mesmo que hoje diz “sou”? Será que serei, num futuro mais distante, o que sou hoje? E até quando serei o que sou, ou que fui? Então o que fui, o que sou e o que serei podem ser diversas coisas, mesmo que abrigados no mesmo corpo. A expressão “eu sou” deveria ser usada apenas pelo Deus que segundo o livro de Êxodo se apresentou a Moisés como “eu sou aquele que sou”. Aquele que não sofre mutações nem se submetido às questões do tempo, do espaço, da convivência, da lei de ação e reação. Aquele que não está, não foi nem será, mas é onipresente, onisciente e onipotente. O amigo J. Graças mostra isto nas suas pinturas. Em algumas, através da luminosidade focada, imutavelmente, em um lado das telas, retrata o que sente, e acima de tudo o que vê e sente com os olhos da fé. Em suas telas há um “comando maior”, “um controle absoluto”. Tenho uma na memória, justamente a que ilustra este texto. Nela a fonte oculta em um jarro, aparentemente de barro, enche outros jarros que se transbordam, gerando a cascata, que alimenta o rio. Através desta imagem, encontro o famoso “Eu Sou”, sem limites temporais. Por mais que façamos jarros para guardar água para os dias de seca, ou que organizemos sistemas de distribuição do líquido da vida, não o podemos gerar. Por mais que nos julguemos líderes, reis, maiorais, e mesmo que “estejamos”, não somos, não seremos fonte de vida, nem sequer de garantia de vida. Na verdade não somos nada. Ao contrário dos costumes das instituições, das situações, que criamos para ter a sensação de comando e domínio, nada está absolutamente sob nossa direção absoluta. Qual instituição, religiosa, civil, científica, filosófica ou militar pode garantir qualquer situação, a despeito das intempéries climáticas, das ações de outras instituições e do próprio tempo? Penso que nunca deveria dizer: “eu sou Evandro”, “eu sou saudável”, “eu sou bonito”, “eu sou graduado”, “eu sou rico”, “eu sou chefe” “eu sou dono”... Deveria optar sempre pelo verbo estar, pois eu apenas estou Evandro, saudável, bonito, graduado... Por mais que armazene o que recebi, jamais serei fonte. Estou apenas jarro de barro, que pode se quebrar e portanto nem sei se estarei jarro, talvez, apenas barro ou pó. A fonte é! Quem é, É! O que É, não muda, não deixa de ser. Tal estado não passa. Sei que estou jarro, estou lutando para ter água (ou a vida), herdar a mim mesmo, herdar a terra que sou e que voltarei a ser. Isto, digo que sou: Terra, pó, apenas uma nanopartícula do universo, criação daquele que É tudo e que faz do pó, jarro de carne e osso. Não importa se o coloco no centro, na esquerda, na direita, no alto ou em baixo das telas que pinto com a vida que levo. Ele sim, o “Eu Sou” é eternamente. Por mais que isso me aflija, dele dependo, como dependo dos que estão como eu, partículas felizes ou não, levadas pelo vento da música divina. Escritor, blogueiro, jornalista, funcionário público, ator, encenador, jarro que ainda não se quebrou. Ou melhor, poeira cósmica que ainda não retornou às origens. Como perguntaria o bom mineiro que existe em mim: qenqossô? A questão deveria ser: qenqotô? Pode ser que isso ajude a responder aos amigos que insistem em me perguntar algo que julgo bem complexo como “pronqovô”, na boa intenção de me indicar caminho seguro... Aliás, o que é o caminho se não o ato de caminhar? O que é a segurança senão uma vontade de não ser apenas uma metamorfose ambulante em busca de ser, ao invés de apenas estar? Bem, antes que isto chegue noutra praia, muito além do alcance dos olhos meus, fico por aqui, perguntando diferente, mas ainda sem a resposta para ela: Qenqotô?
Escrito por Evandro Alvarenga às 17h05
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O chuvaréu  José acordou mais cedo, diferentemente dos outros dias, em que era difícil abrir os olhos e deixar a cama. Neles, com a obrigação de se arrumar rapidinho para ir para a escola, acordar era complicado. Não que tivesse algo contra as aulas, pelo contrário. Ele mesmo não sabia explicar a preguiça, se gostava tanto do ambiente escolar. Desta vez, misteriosamente, ninguém precisou chamá-lo. Entrou na cozinha. Disse um enrolado “bença mãe” e ouviu dela o comentário mais inesperado: “Pode voltar pra cama, tá chovendo demais e pelo visto, ninguém vai poder sair de casa hoje.” Nem mesmo o padre Magelinha, com sua distribuição de balinhas durante os divertidos sermões sobre as maravilhas do céu, conseguia alegrar tanto José. “O chuvaréu não vai deixar ninguém ir prá escola!” Com o fogo de um novo convertido, repetiu a boa nova aos sete irmãos espalhados nas trevas dos inúmeros quartos do casarão. Diante de tão clara luz, até os mais novos, Antônio, Tetê, Cidinha e Giovani, que nem estudavam ainda, despertaram sem esforço e com alegria. Todos buscaram perspectivas próprias da tempestade olhando da varanda, ou da escada da entrada. Não havia muitos relâmpagos nem trovões, o que deixava o aguaceiro menos assustador e menos interessante para eles. Discutindo sobre como a escola ficaria, chegaram à cozinha. Tomaram café com leite. Comeram a deliciosa quitanda da tia Zenília, juntos, como se fosse um dia de domingo. Sem pressa, sem medo de sujar o uniforme da escola. Aliás, José, como os irmãos menores, nem sequer tirou o pijama de flanela... Mas a Maria, devidamente uniformizada queria ir para o colégio, de qualquer jeito. Protestou muito durante o café, mas como foi proibida, resmungou até se deixar levar pelas nuances de um novo dia. Os oito irmãos acharam, rapidamente, a melhor forma de aproveitar a folga, com as limitações impostas pelo “chuvaréu”. As meninas, comandadas pela romântica Cássia, queriam brincar de passar anel, mas com a resistência do Desinho, desistiram. Então, dois grupos se formaram. As “Luluzinhas” se revezaram saltitantes pelas seis janelas do quarto maior. Depois, com bonecas nos braços, resolveram fazer um batizado. Chamariam a mãe, ou a Maria Preta, que adorava representar e cantar, para ser o padre na cerimônia. Aos trancos e barrancos foram levando a brincadeira, com um pé na realidade e todos os outros nos sonhos. Um pouco menos organizados, os “Bolinhas” botaram os oito pés no chão de tábuas da varanda e iniciaram uma partida de futebol com uma bolinha de meia. Os jogadores trocaram as camisas imaginárias várias vezes, até que a melhor escalação de Cruzeiro e Atlético fosse igualmente distribuída. A decisão daquele campeonato mundial entre Galo e Raposa produziu discussões, comemorações e brigas em sequência. Até que um gol de mão, “roubado” na opinião de José, encerrou a peleja e dividiu os atletas, em amigos vitais e inimigos mortais. Dois foram brincar com carrinhos de rolimã no porão, na área abaixo da escada. Os outros dois encontraram pernas-de-pau penduradas do lado de fora da varanda. Sem permissão para usá-las dentro de casa e sem poder sair na chuva, foram para o porão também. A área foi compartilhada sem maiores problemas pelos grupos, já menos rivalizados. Diante da ameaça de duas Luluzinhas dissidentes do quartão, os Bolinhas se uniram novamente. Raras vezes foram tão parceiros. Rejeitadas pelo povo do porão, as meninas reconquistaram a confiança das companheiras. Outras disputas se desenvolveram, mas na hora do almoço, nenhuma cizânia persistia. Com o apoio da mãe e da Maria Preta, decidiram que todos participariam do batizado das bonecas, que aí sim, teriam pais, mães, padrinhos e madrinhas como mandava o catecismo da professora Assunção. A festa, marcada para o final da tarde, teria sucos, bolo de fubá, chocolate quente e os mágicos biscoitos de chuva. Depois do almoço, a diversão rolou solta por todos os cantos do casarão. Na hora combinada para o batizado, todos haviam tomado banho e vestido roupas parecidas com as de domingo. O batizado foi perfeito. Alguns até rezaram de verdade, junto com o “Padre-Mãe”. A festa foi deliciosa e se transformou num bailinho animado pela Maria Preta, ao som das músicas de Jerry Adriani, Roni Von e The Fevers. José, como os outros irmãos, mal percebeu que a noite chegara e já estavam na cama. Ainda ouviam o barulho da chuva no telhado que, aos poucos, se misturava com o da água na bica do monjolo... José acorda tentando entender por que sonhara com aquilo durante toda a noite. Decide continuar na cama até mais tarde. Resolve também não ir trabalhar. Desliga o celular e vai caminhar no parque. Sem uma intempérie catastrófica, ou uma justificativa tempestuosa para faltar ao trabalho, José resolve aproveitar o dia sem compromisso com nada. Mesmo adulto, ele não entende sua repentina preguiça de ir trabalhar, apesar de gostar do que faz para ganhar a vida... Talvez entenda, mas prefere não deixar transparecer, que é uma eterna criança que se rebela contra o peso das “obrigações” diárias. Admite a urgente necessidade de unificar os grupos do corpo, da alma e do espírito dentro de si, antes que um império qualquer o esfacele por completo. No parque, bota a bola pra rolar, sem se lembrar de mais nada. Depois, quem sabe vá ao cinema, ao teatro, a uma festa e reze agradecido pelas tempestades, que surpreendem a todos os viventes.
Para Seu Juca, Dona Lucica, Edelveis, Edésio, Eliana, Elvira, Evane, Ernani, Everaldo e os sobrinhos todos.
Escrito por Evandro Alvarenga às 13h12
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O Trauma II - Foda-se o rei
Cris:_Este é o velho Tom de guerra... tão concentrado no meio de uma loja de CDs! Tom:_Oi Cris! Boa noite! Mas isto aqui também é uma livraria, notou? Cris:_Eu notei, sim! Aliás, eu noto tudo a minha volta. Ao contrário de você que... Tom:_Olha eu aí, gente! O tempo passa e eu ainda sou mel na sua boca... Cris:_Não conseguiu notar que estava sendo observado, seguido há quase uma hora... Tom:_Sério? Quem afinal me observa com tamanha dedicação? Cris:_Eu, seu lerdo! Tem mais de uma hora que estou te seguindo aqui nesta... livraria. Tom:_Mas não tem nem quinze minutos que entrei aqui, só estou dando um tempo até a sessão das nove... Cris:_Meia hora, uma hora, não importa! O fato é que, é tempo demais pra ficar atrás de você sem ser notada. Tom:_Mas sinceramente, não te vi. Me desculpa. Estava ouvindo uns CDs... Cris:_É, só você mesmo, Tom. Mas você ainda compra cd, quando poderia baixar as músicas na internet? Tom:_Não gosto de pirataria. Além do mais, nada substitui o prazer de pegar o CD, olhar o encarte, as letras das músicas, conferir a ficha técnica... Olha aqui, você conhece esta cantora, a Camille? Cris:_Não. Nunca ouvi falar, mas já sei que não gosto dela. Deve ser uma daquelas músicas que só você ouve. Tom:_Só eu? Quanta honra! Isto quer dizer que fizeram este CD só pra mim??? Cris:_Deixa de ironia... É que são poucas as pessoas que gostam das mesmas músicas que você. Daqui a pouco vai me mostrar um cantor senegalês, um de Honolulu, um tal de Wagner Lee... Tom:_É Vander Lee... Cris:_É, sei lá... depois vai falar de tal de Céu... Tom:_Boa idéia... será que já chegou o cd novo da Céu? Cris:_Vá você e ela pro inferno... Tom:_Uau! Que fúria é essa? Já sei, o namorado te abandonou. Cris:_A fila anda. Mandei ele pastar. Era outro banana, que nem você mesmo! Tom:_Muito obrigado pela referência fálica... hum... Cris:_Você é um babaca mesmo! Se acha... Tom:_O problema é que você não me acha mais, por aí no meio da sua fila, né? Cris:_Continua aí ouvindo seus cedezinhos vai... Tom:_Obrigado pela compreensão! (continua abaixo)
Escrito por Evandro Alvarenga às 15h45
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O Trauma II - Foda-se o rei Cris:_Camille!!! Isto lá é nome de cantora? Parece mais garota de programa... Tom:_Voltou a falar comigo? Cris:_Não, tava aqui pensando se você já tem aquele CD do Rei... Tom:_Do finado rei do pop... “Who’s bad?” Cris:_Não cara, do único REI... Tom:_Este eu não conheço! Cris:_Do Rei Roberto Carlos... Tom:_kkkkk! Do rei da MPB, Música Popular Breganeja. Cris:_Da música romântica, poética... Tom:_Poética??? Cris:_É! Poética, melodiosa, harmoniosa... Escuta! Eu te dou o ingresso e pago o jantar depois, se você for ao show comigo amanhã. Tom:_Ao show? Que show? Cris:_Ao maior evento artístico da década! Ao Show dos cinquenta anos do Roberto Carlos. Tom:_Cinquenta? Mas este cara já deve ter uns 70 ... Cris:_É Cinquenta anos de carreira! Tom:_Graaannde bosta! Cris:_Olha Tom, o jantar depois do show pode ser no lugar que você escolher... do jantar podemos ir... Tom:_Não vou mesmo! Nem mor-to... Cris:_Ah! Já sei você tá solteiro de novo... por que não? Tom:_Já disse: Não vou, neim... Cris:_Eu já tava desconfiada que você não gosta mais da fruta, mesmo! Tom:_Dessa fruta insossa e podre você sabe muito bem que nunca gostei, nem um pouquinho. Cris:_Não era isto que me dizia nas nossas horas calientes... Tom:_Tá doida? Eu to falando da fruta Roberto Carlos... Cris:_Mas que falta de respeito, com o Rei... Tom:_Calma, rei não é Deus! Cris:_Mas você não pode chamá-lo de fruta, podre... Tom:_E insossa! E olha que estou sendo carinhoso, por respeito aos idosos... Cris:_Não vai, nem pela companhia... Tom:_Não vem, não! Se era isto o que você queria desde que resolveu me seguir, já sabe! Não vou a show nenhum roberto, nem pra receber um cachê de Um milhão! Vai atrás do banana que você CHUTOU. Ou seria “p” no lugar de “t”. Aposto que ele vai... Cris:_Foi justamente por isto que eu dispensei o otário! Tom:_Por causa do “p” no lugar do “t”? Cris:_Não, cara! Foi por que ele não vai ao show comigo... Tom:_Aleluia! Quer dizer que nem toda a humanidade tá contaminada com esse mal. Cris:_Se bem que eu acho que ele vai, só que com a mulher dele... Tom:_Ih! Então o problema é mesmo uma pandemia! O Ministério da Saúde adverte que o vírus RC, mais conhecido como gripe robertina, já se alastrou por... Cris:_Não entendo toda a sua aversão ao Roberto Carlos... Tom:_Deve ser a mistura de tudo... Primeiro por que não gosto desses produtos da indústria cultural que nos são enfiados goela abaixo. Cria-se um conceito, paga-se um pouco pra mídia tocar, depois pra repetir, repetir... Com o tempo melhora-se o conceito: de iê,iê,iê, para jovem-guarda, e mais repetição... Muda-se de novo o conceito, mas o produto é a mesma merda! É como coca-cola, quem consome acredita que é bom e indispensável, nem nota que vicia e mata! Cris:_Tá bom, não precisa armar o palanque de militante anti Mcdonald e fast-food, não! Já li todos seus panfletos. Tom:_Cá pra nós, o que o RC canta, um monte de cantores como Waldick Soriano, Odair José, Fernando Mendes, José Augusto, Márcio Greik também cantavam... As músicas que ele canta não são diferentes das que Reginaldo Rossi, Falcão, Wando e o Amado Batista cantam... Cris:_E daí? Tom:_E daí que nenhum deles é chamado rei por causa disso. Entende? Cá pra nós, a música romântica do Márcio Greik: “Eu já não consigo mais viver dentro de mim. E viver assim é quase morrer. Venha me dizer sorrindo que você brincou, e que ainda é meu, só meu, o seu amor...” Isto pode ser mais legal que as do Roberto Carlos. Que pra piorar tudo é um chato de galocha, boçal, metido... Irk! Cris:_ Pera aí, na minha opinião, ele não é nada disso. A vida dele mostra... Tom:_Aliás, se a vida dele tivesse algo tão bom a mostrar, por que será que ele proibiu a publicação de um livro com sua biografia? Cris:_Ué, por que era uma biografia falsa? Tom:_Se uma biografia, com dados históricos, pesquisados, com depoimentos, jornalísticamente correta é uma mentira, é por que a história dele é toda falsa! Mas isto também não me interessa! Ele pode ser e fazer o que quiser... Cris:_É, “do artista importa-me a sua arte”, não é assim que você diz? Tom:_Do ar-tis-ta, digo eu! Ou seja, do RC não me interessa nem isso. (continua abaixo)
Escrito por Evandro Alvarenga às 15h42
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O Trauma II - Foda-se o rei
Cris:_Eu sempre achei que você tinha um trauma. Tom:_Sim eu sei disso! Você sempre me dizia. “Você tem algum trauma com carro”... Cris:_Agora tenho certeza! Tom:_Bravo! Madame Freud ataca de novo! Agora com as garras da certeza! Que maravilha! Aposto que vai propor uma terapia sexual, que te inclua, para que eu seja curado! Cris:_Alguém deve ter invadido sua privacidade, quando você ouvia músicas do Rei, e... Tom:_Na verdade, o tal RC sempre invadiu a privacidade de todos nós... Cris:_Isto, desabafa, que é bom! Tom:_Desde que eu me entendo por gente, ele invade as casas dos brasileiros, todos os anos nas noites de natal... Cris:_Eu sabia! Foi no natal, o seu trauma! Tom:_Eu queria ficar acordado para ver o Papai Noel chegar, mas ele invadia o ambiente com aquelas músicas chatas na televisão... “quando eu estou aqui...” Cris:_Que lindo! To até emocionada! Tom:_”Eu sinto este momento...” E não tinha sono que resistisse. No dia seguinte continuava com a vontade de ver o papai Noel... Restava esperar para o próximo ano... Cris:_O novo show do Rei... Tom:_Restava esperar que seu rei morresse no carnaval, em pleno reinado de Momo e que no próximo natal não invadisse mais minha vida! Cris:_Mas, pelo lado bom! Vc não teve de descobrir que papai Noel não existe de maneira traumática. Tom:_O pior trauma é ter de ouvir o que não se quer ouvir durante toda a vida. Tipo este seu papo doutora froidiana de araque. Cris:_Pensa bem: o que seria do mundo sem o Roberto Carlos? Tom:_Já pensei! Seria perfeito! Ainda mais, que já conheci o mundo com esta desgraça... Cris:_Caramba! Isto é... é... é pecado sabia? Tom:_Pecado? Mas desde quando vc é religiosa? Cris:_Eu não sou, mas... mas... mas o Rei é. Tom:_Foda-se o rei! Cris:_Nossa! A menina ficou nervosa, heim? Tom:_Ah! Vá se fuder também! Cris:_Uh! Enfim uma sugestão boa... Vai ser antes ou depois do show do rei? Tom:_Putz! Já disse: Foda-se o rei! (sai) Cris:_Ei, espera... (cantando) “Não suporto mais, você longe de mim! Só quero que você, me aqueça nesse inverno, e que tudo mais, vá pro inferno! Ô u ô! E que tudo mais...” Tom: (ele grita de longe)_Vá pro inferno! Cris:_Meu Deus! Ele sabe a letra da música do Roberto!!! Me espera aí... (Final) (?)
Escrito por Evandro Alvarenga às 15h37
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 O objeto voador maravilhoso “Mais coisas sobre nós mesmos nos ensina a terra que todos os livros. Porque nos oferece resistência. Ao se medir com um obstáculo o homem aprende a se conhecer...” (Antoine de Saint-Exupéry – Terra dos Homens) José brincava com o aviãozinho de plástico ganhado no último natal. Corria livremente pelo terreiro da fazenda, sustentando o brinquedo acima da cabeça. A todo o momento tinha a sensação de ser observado. Então olhava para a varanda, quase certo de que sua mãe estava lá, mas se enganava. Ao mesmo tempo em que sustentava o avião, fazia barulho com a boca, corria e ainda se imaginava dentro dele. Era o piloto capaz das mais mirabolantes e incríveis manobras aéreas. Descia de bico para o chão, deixando os passageiros em polvorosa... Um barulho estranho o fez olhar para a varanda novamente. Continuava vazia, mas o barulho aumentava. Intrigado viu surgir atrás da montanha que apelidara de Engolidora de Sol, um objeto voador maravilhoso. Vinha poderoso da galáxia sonho, invadindo sua terráquea vida real e perdendo altitude. José torceu para que pousasse ali no terreiro, mas a máquina subiu um pouco mais e foi em outra direção, atraindo o garoto que saiu em disparada. Pulou a cerca de tábua do curral, atravessou a ponte, pela primeira vez sem olhar o ribeirão. Notou que o helicóptero ia pousar próximo da torre de transmissão de energia. Olhou para a varanda da fazenda que continuava vazia. Também já estava muito longe para voltar e pedir permissão. Continuou correndo. Da máquina voadora saíram dois funcionários da central elétrica que já escalavam a torre. Parou a menos de 3 metros do helicóptero, colocou seu aviãozinho sob a camisa. “Não adianta esconder esse avião aí não, eu já vi que você é piloto como eu”. Assustou-se com o terceiro homem, que saía da máquina. Sem nada dizer, José admirava aquela libélula gigante. O tamanho das hélices era incrível! “Então? Gostou?” O piloto provocou. Ele continuava silencioso. “Ah, você não fala...” José apenas riu sem graça. Só queria aproveitar e conferir todos os detalhes. Antes que a máquina maravilhosa voasse novamente. “Você quer dar uma volta?” José olhou para todos os lados, sem acreditar que a pergunta era para ele. “Já sei! Você não merece o céu, pois não tem coragem de voar...” “Eu tenho sim!” José quase gritou. O piloto lhe mostrou os detalhes da cabine, falou sobre a função dos inúmeros relógios no painel. Em pouco tempo o helicóptero balançava como uma bolha de sabão com o menino dentro. Subiu, subiu bem devagar. José estava tão maravilhado que nem atinava que aquilo poderia ser um sonho. Deixou-se ser feliz. Logo estava acima da rede elétrica. Olhou para o outro lado da fazenda. A casa era muito estranha vista de cima e ficava cada vez menor. Surgiam inúmeras outras pequenas casas, a cascalheira e aos poucos a rua do Pito, paralela ao ribeirão Bonsucesso, se perdia entre o verde dos quintais. Nem reconheceu sua deliciosa Escola de Lata, que vista de cima, parecia a carroceria de um caminhão baú qualquer. “Tá procurando sua casa?” Ouvindo isto, José se lembrou dos pais, dos irmãos, das coisas que deixara em terra. Teve um frio na barriga. E se nunca mais voltasse? A torre da Igreja Matriz de São Miguel e o morro da Caixa d’Água, que sempre foram referências de altitude máxima para ele já se misturavam lá embaixo. Seus olhos lacrimejaram, querendo antecipar toda a saudade que sentiria anos mais tarde. “Agora chega de subir, se não vamos congelar.” O comentário interessou José, que ficou sabendo que, ao contrário do que pensava, quanto mais alto, mais frio. O piloto percebeu que ele era novo demais para se afastar muito de casa e lhe disse para ter calma. “Tenho de voltar para buscar meus amigos que tão concertando a rede, lembra?” José descobriu que existiam muito mais tons de verdes, entre o céu e sua terra, que podia imaginar seu incipiente daltonismo. O que via era a coisa mais bela do mundo. Nem percebeu que o vôo fechava um círculo. Viu uma casinha isolada, entre as montanhas, uma pequena represa ao lado, um campinho de futebol a frente, a rede de energia, uma rua cumprida mais adiante, outro telhado maior, um curral... “Foi só tirar o pé do chão e já não conhece sua própria casa, rapaz? Agora falta você me dizer seu nome, pra gente pousar.” Ele disse e sorriu ao ouvir que o piloto também era José. A máquina voadora estava ansiosa por tocar o chão e manter-se na leveza do ar ao mesmo tempo. Balançava, baixava e subia, como uma bolha levada pelo vento, prestes a se desfazer, vencida pela atração da terra. Pousou no terreiro onde há menos de meia hora o menino brincava com seu aviãozinho. Na varanda, os pais, boquiabertos, viram o menino sair daquele objeto voador maravilhoso junto com o piloto, que falava como se fosse da família: “Boa tarde! Será que aí tem um café para o anjo forasteiro que levou seu filho para o céu?”
Escrito por Evandro Alvarenga às 10h35
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O vento e o tempo
Venta muito. O termômetro afixado numa madeira que sustenta a barraca registra 7 graus centígrados. Parece um calendário de parede, que alguém se esqueceu de atualizar. Certamente a temperatura registrada nele deve ser dos dias que antecederam este inverno de 2009. No pátio à frente as pessoas dançam, correm e se agitam ao redor de uma enorme fogueira. Esqueço o termômetro. Fico com a certeza de que nunca senti tanto frio, nem mesmo na serra catarinense, onde enfrentei geadas com 4 graus negativos. Peço uma bebida forte e quente. De costas para o balcão da barraca de bebidas, meu tio acompanha a farra com um sorriso maroto. Tem uma expressão de criança traquina armando uma peraltice qualquer. Chego perto dele, que me olha assustado e pergunta como eu consigo me encontrar no meio de tanto agasalho... Não quer resposta! Quer mesmo é mostrar que está usando sua tradicional roupa de ir à missa em qualquer estação do ano. Reparo no estilo dele. Uma botina de couro nova, calça de tergal cinza presa com um cinto de couro preto e a camisa clara, de mangas curtas. Para mim, o tio Totone sempre foi uma figura especial. Nem precisava agora exibir aquela irritante impermeabilidade a adversidades climáticas. Quando criança, eu o via como um super homem sem capa. Sua vitalidade e força física inclusive eram alvo de muitas histórias em Guanhães. Quando alguém contava uma delas ou queria confirmar algum detalhe, Totone sorria como se o personagem citado não fosse ele. O jeito rude e a voz trovejante não permitiam muitas aproximações. A garotada da rua tremia quando ele resolvia botar ordem nalguma bagunça. Resolvida a desordem, ria tão debochadamente, que acabávamos rindo também. Parecia um “hulk” sem raiva, e com muita alegria. O grandalhão, às vezes, juntava os netos da vó Ana, quase da mesma maneira que ela fazia ao dar milho às galinhas no quintal. Geralmente, isto acontecia em domingos ou feriados. Sem mais nem menos ele gritava “quem quer bala”? E, sentado no degrau da porta da venda, segurava uma peneira cheia de balinhas Chita. Ria da algazarra. Rapidamente a peneira ficava vazia. Então ele se recolhia e mantinha a expressão de criança traquina no rosto por um bom tempo. Mas não ousávamos incomodá-lo na venda, principalmente no final das tardes quando os trabalhadores paravam ali para tomar uns goles e prosear. Quando saía a galope para resolver algum problema com o gado, era de uma seriedade assustadora. As chicotadas que ele dava no chão, nessas horas, nos deixavam bem longe de seu caminho. Às vezes voltava contando sobre o parto complicado de uma vaca, ou sobre a retirada de uma novilha machucada da depressão de um vale... Quando era preciso sacrificar um boi machucado, descia a rua avisando aos meninos que encontrava pelo caminho: “pega uma vasilha bem grande e vai lá no pasto, que vamos picar uma vaca machucada. Fala pra sua mãe te dá uma vasilha grande!” Ventava diferente naquele tempo que se foi. Deixo as lembranças da infância de lado. Encolhido de frio, apesar dos agasalhos que, adulto, passei a usar exageradamente, estou diante do mesmo tio Totone de outrora. Enquanto penso na melhor maneira de responder o comentário dele, viro de lado, pego o quentão com dose extra de cachaça. “Não se preocupe Tio, depois desta bebida, eu me acho, mas você neste fogo...” Olho para ele, para devolver a brincadeira, mas não o encontro. Giro para todos os lados e nada! Nem sinal do fortão! Quando resolvo perguntar se alguém viu pra onde ele foi, um calafrio me lembra, como um tapa no rosto a me despertar do sonambulismo, que o tio Totone morreu há quase vinte anos. No dia em que foi sepultado, o frio também era intenso. Não me lembro do registro dos termômetros de então, só que ventava muito. Eu não ingeri bebida alcoólica naquele dia. Mas muita gente começou a beber naquele inverno, em que já disse, fazia muito frio e ventava muito, como hoje. Talvez seja por isto, que a memória me traz a visão do Totone, eternamente sem agasalho. Fico com a certeza de que é possível não sentir frio, pelo menos na alma saudosa. Mas não sei bem, se neste inverno quem acaba de morrer não sou eu. Afinal venta muito e já se sabe que o vento frio nos carrega no tempo.
Escrito por Evandro Alvarenga às 10h02
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O paletó, o Doador, a Lua O paletó - Já sem qualquer noção do tempo e do lugar em que estava, Hermano sentiu que o dia de sua morte havia chegado. Depois de tantas seções de tortura, seu corpo tinha as mais estranhas marcas. Sem banho há vários dias, e precariamente alimentado, era um amontoado fétido no fundo da cela. Não conseguia ficar de pé e respirava com extrema dificuldade. Talvez se não fossem tantas dores por todo corpo, poderia pensar em algo menos fúnebre, quando o carcereiro anunciou que o médico viera lhe ver. Foi retirado da cela imunda. Carregaram-no como um entulho, passando por inúmeros corredores sombrios até saírem da prisão. Hermano sentiu a brisa noturna. Viu a luz das estrelas com dificuldade e foi ofuscado pelo suave brilho da lua cheia. A visão foi a melhor coisa de sua vida, desde que vestira o paletó há quatro meses. Ouviu um barulho de motor e sentiu um vento muito forte. “Você vai de helicóptero ao encontro de seus amiguinhos! Nem vai pagar a mais pelo luxuoso transporte!” Disse-lhe um dos militares ao lado da maca deixada no chão. Mas para onde? O moribundo não tinha qualquer curiosidade, para buscar esta resposta. “Espera aí, tem de vestir sua roupa de gala.” Lembrou o outro militar, que aos trancos e barrancos lhe vestiu o paletó. “Mas que veado mais sensível!” Exclamou quando Hermano perdeu os sentidos. “Seu comunazinha de merda, vai encontrar seus cabras no fundo do inferno”! Gritou o militar que empurrou o moribundo Hermano para fora do helicóptero. Ele ainda respirava quando caiu no mar. Antes que a água penetrasse em seus pulmões, viu-se livre das terríveis dores. Ouviu a voz da Lua lhe dizer “Seja bem vindo meu doador número um!” E até sorriu. O corpo de Hermano Rodrigues Malta foi encontrado numa praia do Rio de Janeiro. A polícia o identificou através da carteira identidade encontrada no bolso do paletó. A causa da morte atestada no registro do óbito: afogamento. A família em Minas Gerais há tanto tempo sem notícias do rapaz, já esperava pelo pior quando recebeu o frio comunicado. Não pode organizar um funeral à altura. Nem sequer estranhou o fato do filho, premiado nadador mirim e juvenil do Minas Tênis Clube se afogar daquele jeito. O Doador - Procurando pistas, os homens do Departamento de Ordem Política e Social invadiram a casa usada pelos sequestradores como esconderijo para o embaixador norte americano Charles Elbrick. Recolheram um paletó feito a mão. Pela etiqueta, chegaram a uma alfaiataria tradicional na cidade. O alfaiate após consultar seu livro de medidas informou um endereço e um nome. Os homens da repressão estavam certos de que quem esquecera aquele paletó, poderia entregar os revolucionários da ALN e do MR-8. O jovem estudante abriu a porta do pequeno apartamento em que morava sozinho. Surpreso viu o paletó, doado a um bazar da paróquia que costumava frequentar, nas mãos do soldado. “O senhor é Hermano Rodrigues Malta?” Ouvindo o sim, logo disparou: “Por favor, vista este paletó, ele é seu não é?”. Hermano explicou que o agasalho fora doado, mas o vestiu, assim mesmo, sem entender o que queriam. “Como uma luva nas mãos do malfeitor! Por favor, pegue um documento e vamos conosco...” Estas foram as últimas palavras educadas que o estudante ouviu daquele e de todos os outros agentes do DOPS em sua vida. Rapidamente, o rapaz compreendeu sua tragédia. O paletó que doara, foi adquirido por alguém que participou do sequestro, através do qual os revolucionários conseguiram negociar a libertação de várias pessoas e embarcá-las para fora do país em segurança. Simpatizava com as idéias revolucionárias e se opunha à ditadura militar como boa parte dos brasileiros, mas nunca fora militante de nenhuma causa específica, nem mesmo tinha contato com membros da Aliança Libertadora ou do Movimento Revolucionário. Quando percebeu que por mais que negasse sua participação no tal sequestro, mais apanharia, passou a agredir os militares. Pendurado num pau-de-arara, viu o rosto do torturador um pouco abaixo do seu, disse um palavrão. Levou tapa no queixo e teve a língua cortada. Na outra oportunidade cuspiu sangue na cara do agressor e levou uma sequência de socos. Não satisfeito o policial enfiou agulhas sob as unhas de suas mãos. Depois lhe aplicou choques elétricos. “O que foi que tu disse? Que tu é filho de quem? Fala seu veado...” Apesar das provocações, Hermano apenas gritava de dor. Na cela, Hermano imaginava que a pessoa que usara o paletó era o principal organizador do sequestro do embaixador. Pedia a Deus para que ele nunca fosse preso pela repressão e que os revolucionários conseguissem derrotar a ditadura e a repressão. Apesar de tudo, sentia-se feliz por “proteger” um revolucionário. Quando saiu da casa de sua tradicional família mineira para estudar em outra capital, Hermano era conhecido como “Doador”. Com os constantes problemas de saúde de seu pai, aprendera a doar sangue sempre que podia e sonhava em ser médico. O apelido foi dado pela enfermeira, que coletava seu sangue. Ela dizia que seu “Doador Número Um” tinha os mais belos olhos do mundo. Os colegas logo adotaram a alcunha, mas alguns com outra conotação. Ele não ligava, pois a criadora do título era seu platônico amor. A LUA - Foi nela que Hermano pensou, quando tentou escapar da tortura, agredindo os milicos. Era com ela que ele sonhava na prisão agora. A enfermeira lhe ensinara muitas coisas. A principal delas, a ser solidário. Na verdade esta qualidade o rapaz desenvolveu no seio de sua família. Mas foi com a moça, que nunca mais viu desde Belo Horizonte, que comprendeu a exata dimensão e valor da solidariedade. “Seja firme meu Doador. Eu sei que você tem fibra, que não é um dedo-duro”! Foi o que ouviu no dia em que os torturadores quase o cegaram e recebeu atendimento especial antes de ser jogado na cela. Aquela doce voz era inconfundível. Mas não podia ser dela. Algum tempo depois um companheiro de cela lhe contou que “a enfermeira Laura, que tem um sobrenome difícil, aliás, é uma corajosa moça de Minas Gerais. Ligada aos revolucionários ela conseguiu se infiltrar entre os militares torturadores... mas ela já foi descoberta.” Os presos comentavam a coragem da bela Laura Elbrick que agora estava totalmente desfigurada pelas malditas torturas numa daquelas celas. Hermano gastou quase todas as energias que tinha, gritando, amaldiçoando o governo militar, e chorando desesperadamente, no dia em soube que Laura tinha sido levada da prisão quase morta. Naquela altura, ele já sabia que alguns torturados eram jogados no mar pouco antes de morrerem. Os corpos que reapareciam eram identificados e enterrados rapidamente como vítimas de afogamento. Foi o que ocorreu com a LUA, sua maneira carinhosa e platônica de abreviar o nome da bela Laura Ulbrick Almeida, para quem ele foi o doador número um.  Treze dos 15 presos políticos banidos em troca do Embaixador Charles Elbricck em 1969, na foto divulgada pelo governo militar.
Escrito por Evandro Alvarenga às 22h25
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Meu Deus não usa Black-tie (2)  “Boal artista real, Augusto Cidadão!” Assim o aclamou numa sincera canção, o músico de Nuno Arcanjo, mesmo sem saber que o Cidadão seria indicado ao prêmio Nobel da Paz, por causa dos efeitos que sua obra, baseada num teatro do oprimido, produziram no mundo todo. Ninguém, jamais poderá deixar de lembrar de Augusto Boal como o artista da realidade, o cidadão modelo. Ou como aquele que com seu fazer teatral conseguiu produzir mudanças na sociedade. O Teatro do Oprimido é praticado em mais de cinquenta países. O que Boal provocou na arte teatral tem se ser considerado com as mudanças provocadas por Brecht e Stanislavski. Ele devolveu a arte ao povo. Portanto não há como discordar do jornal The Guardian (UK), que sem medo de ser feliz, o juntou aos grandes mestres e teóricos de todo o mundo. Mas ele se foi, como Guarnieri. Ele se foi apresentar-se ao Deus Cidadão, com toda sua simplicidade, sem black-tie. Meu tio Geraldo Alvarenga Barbosa, que em sua fazenda protegia até as cobras, também se foi. A pequena Giovana que iluminou a vida de Marcelo e Sirlene e Cia., também se foi. Nenhum deles usava black-tie. Eu acredito e já disse que Deus também não usa Black-tie. Deus é simples e belo como os cidadãos que acreditam e lutam por um mundo melhor. O que será de nosso mundo cão sem eles? Não posso responder por ninguém. Apenas busco forças para acreditar que a mudança se consumará. Que continuaremos a acreditar num mundo melhor a partir da partilha do pão-palavra, do pão-arte, do pão-carinho, do pão que alivia a fome de justiça. Enfim, é impossível resistir ao que Augusto Boal escreveu: “Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida.“ “Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espetáculo, eu dizia aos meus atores: - "Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida".
“Em suas casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento - é forma de vida! Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma! “
Meu Deus não usa black-tie (escrita em julho de 2006) Onde está agora, Gianfrancesco Guarnieri não usa black-tie. Acho que nunca usou. Apenas os seus personagens mais estranhos usaram gravatas. Elas não foram feitas para os artistas, como o Tonho da Lua que esculpia seus sonhos na areia em forma de mulher. Elas, as gravatas, não foram criadas para o artista, que numa Arena, cantou a rebeldia de Zumbi e de Tiradentes. Gravatas black-tie são para quem precisa delas. A alma de artista não precisa! Quem entende a alma humana, não precisa... Deus não precisa! Por mais que insistamos em nos apresentar diante de Deus trajando belos ternos e paramentos luxuosos em mega-templos faraônicos. Ele não precisa de nada disso. Minha mãe, a Dona Lucica da Pastoral da Criança, ensinou-me através de sua oração sem cores definidas a crer num Deus daltônico, que não nota nem a cor de nossa pele, quanto mais a de nossas vestes. Vaidade das vaidades. Como amante da arte, digo que foi no texto de Guarnieri que nós, a gente simples, descobrimos que não precisamos de gravata para mostrar nosso valor. Foi lá que muita gente boa reconheceu-se como o filho da pátria que não foge à luta e pôs os pés na profissão... Foi com ele que passei a acreditar que um novo mundo é possível! Quem viu o suspiro resignado da mãe/operária, vivida por Fernanda Montenegro, chorando sem lágrimas pelo filho, enquanto catava o feijão, derramado aos poucos numa pequena mesa de um barraco na favela e não viu sua própria mãe na tela? Quem não entendeu ali, que todos os dias temos de separar o joio do trigo, ou melhor o feijão das pedras? Que é preciso optar pela simplicidade, pela vida, por mais que nossa vaidade nos motive ao contrário? Quem não compreendeu ali, que a luta continua sempre? Que o planeta não faz parada para quem quer que seja descer. Quem não saiu do cinema convicto de que trabalhador unido, jamais será vencido? Quem poderá assistir a Eles Não Usam Black-Tie e ficar alheio? Quem não afirmará que a luta nos mostrará um mundo melhor? Quem, lutando, não dirá que a vida é bela? Como insistem em lembrar-me a lucidez do padre Saint Clair e a jovialidade do pastor Zeca. Quem? Nascido na Itália, Guarnieri, escreveu, representou e dirigiu como poucos brasileiros. Ele sabia que para chegar onde está, não precisava de gravatas, nem sequer de passaporte ou “greencards”. Depois de vê-lo tateando o palco como o cego de todas as parábolas que não li, descobri que precisamos muito mais das formigas de Manoel de Barros no nosso jardim, que de um trio elétrico numa “Ocean Drive” qualquer. As formigas com sua insistente insignificância, enfileiradas nos conduzem a nós mesmos. Elas nos levam à terra, ao pó, que não podemos nos esquecer que somos. E como é bela uma procissão das Lava-pés, saindo de um eletrodoméstico a caminho de mim, de você, de todos nós, cada dia mais próximo da nossa essência nua e crua, sem qualquer adorno! Mais belo que isto, só o amigo “H2 Lopes” querendo espichar esta crônica, ou os olhinhos de Henrique abertos para o mundo em suas primeiras horas de vida. Mais belo que isso, só a surpresa da multidão de formiguinhas, cujo caminho foi interceptado pelas patas do grande Leão de Judá, um Deus sem gravatas, como aquele que vimos em Nárnia... ou teria sido na barriga da nossa mãe terra?
Escrito por Evandro Alvarenga às 12h55
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A pródiga musa Já tinha decidido levar minha vida sem ela. Não sei como o faria, mas algo me empurrava para a rua da vida. Algo me dizia para abandonar de vez o cemitério da minha infância e seguir em frente, sem olhar para trás. E foi assim que eu quis botar o pé, pela primeira vez sem meu bloco, na rua. Percebi que não adiantava mais repetir ritos que a fariam voltar para mim. Da mesma forma, senti que ela tinha o direito de viver sem mim, mesmo que eu nunca mais respirasse o doce aroma dos laranjais em flor. Talvez seria para sempre triste ou insossa a minha vida sem ela. Mas não deixaria de ser vida. Foi só botar o pé na rua e ganhar velocidade para não mais pensar nela. Percorri as ruas estreitas de Floripa como se caminhasse nas areias da praia Mole. Corri a Esplanada de Brasília como se subisse o Pelourinho ou as ladeiras Ouro Preto. Os parques de Curitiba passaram diante de meus olhos como as casas da rua do Pito jamais passaram, velozmente. Não vi diferença, nem semelhança entre a Golden, a Hercílio Luz, a JK ou a do Guaíba. Todas eram apenas pontes, sem as rimas do Lenine. Como também eram pontes os troncos que me permitiam atravessar o ribeirão Bonsucesso. E ao final de cada jornada já não sentia vontade de comentar nada, do que vi pelas andanças da vida. Nem me tocava muito com o relato de outros viajantes. Mas não me incomodava com isto. Já vivia minha outra vida, convencido de que jamais convidaria aquela ingrata para entrar sequer na minha varanda. De repente pela janela avistei um vulto, bem longe. Era ela, que me espreitava, pensei. Nunca a varanda da minha casa fora tão grande, nem as escadas tão altas e nunca o jardim da entrada teve uma alameda tão comprida. Eu corria desesperadamente, mas não saía do lugar. Meu olhar se fixara naquele vulto no alto da montanha. Mas meu corpo nunca chegava lá. A terra sob meus pés era firme e suave. Tinha cheiro de terra molhada. A grama era como tiras de veludo. As roseiras haviam soltado algumas pétalas ao vento. Os pássaros cantavam e a brisa suave parecia espalhar no ar uma canção inédita, magistralmente executada por Paulo Moura, Sivuca, Raphael Rabello, Juarez Moreira, Toninho Ferragutti, Dominguinhos, Siba e o albino Hermeto. As árvores ostentavam folhas verdes, do verde mais mutante que um coração daltônico podia imaginar e sentir. Já não precisava retirar os frutos que pendiam dos galhos no caminho para degustar seus sabores. No meio de tudo isso eu pensava em abraçá-la. Em trazê-la de volta o mais rápido possível e na festa que era preciso fazer para comemorar sua chegada. Sim era preciso festejar sua chegada, não falaremos de volta. Não falaremos de caminhadas longas, de espinhos, de dores... Ela é um novo presente que com alegria recebo. O que passou, somente ao passado interessava. E foi assim que a abracei, festejei sua chegada com canções e poesias. Não ousei perguntar como fora sua viagem. Não quis pedir que fosse fiel a mim até que a morte nos separe. Tomei-a nos braços e a coloquei no lugar mais honroso da casa. Dei a ela as vestes mais belas e mais nobres. Depois armei minha rede na varanda, para ouvir as canções que ela trouxera para mim. Ela, que eu imaginava ter ido para sempre, diante de mim cantava novamente, como cantavam as fontes caudalosas que regavam os jardins de todos os poetas mortos. Aos jovens poetas assustados com a repentina perda da inspiração vadia.
Escrito por Evandro Alvarenga às 18h21
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BRASIL, Centro-Oeste, TAGUATINGA, TAGUATINGA SUL, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, French, Arte e cultura, Esportes AIM -
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